Transformando em conto a célebre música de Zé Ramalho, da trilha sonora da novela Roque Santeiro!

Este foi o primeiro desafio apresentado no Grupo Fábulas Noturnas, que agora compartilho com vocês que visitam aqui. Boa leitura!!!!

Pela janela do último vagão de passageiros do velho comboio ferroviário uma jovem observa que diminuía a velocidade do trem. O calor nordestino naquele final de tarde, somado à poeira da estrada de ferro e à fuligem vinda da locomotiva, a deixaram ansiosa pela chegada ao seu destino. Foi assim um prazer perceber que em instantes estaria descendo na pequena estação da remota e mística Asa Branca e poderia se banhar na pousada. A cidade era um conhecido destino de romeiros e, embora interiorana, famosa pelo suposto santo que viveu ali.

Assim que o trem de ferro sossegou ao lado da plataforma, Tininha bateu o pó do vestido, pegou a pequena mala onde estavam todos os seus pertences e saiu junto com dezenas de outros passageiros que iam, muitos deles, pagar suas promessas ao santo do lugar. Não era o seu caso… Tininha pretendia se fixar em Asa Branca, arrumar um emprego e começar uma nova vida. Talvez quem sabe, até encontrar ali um amor. Tendo já seus vinte anos completos, a jovem era ainda virgem e romântica. Fora criada pela avó desde que ficara órfã e a sisuda matrona dos Junqueira fazia marcação cerrada. Nunca a deixou namorar e deixava claro que o ideal para ela seria se tornar freira ou beata, dedicando sua vida a religiosidade. Segundo a avó, não lhe convinha se sujar com homem nenhum… Mas agora a avó também falecera e Tininha estava só no mundo…

Distraída em seus pensamentos enquanto caminhava pela calçada, nem notou o homem de terno preto acompanhando seu percurso com o olhar. E ele a ficou observando quando ela entrou na pousada, esperou um pouco, tomou uma dose no boteco da esquina para encorajar e foi sondar o que queria.
Antônio era professor, se instalara na cidade de Asa Branca há uns cinco ou seis anos, tendo agora por volta de quarenta e poucos de idade; uns primeiros fios brancos decoravam a barba espessa e as têmporas. Era um solteirão convicto e cobiçado pelas moças do lugar mas não se envolvia com nenhuma seriamente.

  • Calor dos diabos, ôxente!… – pensou ele enquanto atravessava a rua em direção à entrada da pousada. Quando entrou no saguão, passou as costas da mão na testa para secar umas gotas de suor. Um sorriso se abriu ao ver no balcão o bom amigo Firmino, o que lhe redobrou a coragem.
  • Diga aí, Firmino! Calorão da peste hoje, né não?

  • Ôxi, como tá! – exclamou Firmino ao ver o amigo – Bom prá tomar uma gelada quando sair da lida aqui! E você, professor Toninho? Faz o quê aqui?

Se aproximando do amigo, Antônio baixou a voz e confidenciou:
– Rapaz, queria perguntar quem é aquela loirinha que entrou aqui agora a pouco… Acho que conheço a menina…

  • Eita! Você sabe que não posso fazer isso… Mas como não tem ninguém aqui vendo, vou te falar: o nome dela é Cristina Junqueira e veio se hospedar. Conhece de onde?
  • Meu Deus! Então é ela mesma! Dei aula na cidade dela, Firmino. Foi minha aluna uns anos atrás. E como ficou bonita né, cabra da peste?

  • Firmino riu e comentou:
    – Eita que isso é paixão antiga então, professor?

    • Rapaz, vou te confessar que é… Já achava ela um pitéu quando mocinha, agora então tá um espetáculo!

    Conversaram trivialidades por um bom tempo ali, chegando a cair a noite. Um ou outro hóspede chegava ou saía da pousada e continuaram aquele papo de amigos até que Tininha apareceu. Antônio ficou mudo na hora, de boca meio aberta, observando a jovem descer as escadas… De banho tomado, perfumada, num discreto vestido branco com barra de renda renascença e a farta cabeleira loira solta em cachos sobre os ombros, Tininha ao ver o professor se lembrou dele imediatamente.

    Em sua inocência de menina moça, o abraçou e deu um beijo no rosto barbudo do homem, que voltou à realidade, enrubescendo. Firmino discretamente se afastou, indo cuidar de seus afazeres.

    • O que te trouxe aqui, menina? – disse, admirando-a. – Que notícias dá de sua avó?

    O rosto de Tininha anuviou e ela, baixando os olhos respondeu, com as mãos aninhadas nas do antigo professor:
    – Vovó morreu, professor… Por isso vim tentar a sorte aqui…

    • Que notícia triste!… Mas é bom que tenha vindo para Asa Branca… Estará entre amigos aqui.

    Vendo que a conversa pegara um mal caminho, Antônio resolveu mudar o rumo:
    – Não quero te ver triste, menina! Aceita dar um passeio comigo?

    • Claro, professor! Eu ia mesmo andar um pouco para conhecer a cidade…
  • E não me chame de professor, que isso me faz sentir velho! Já não dou aulas para você faz tempo!

  • A indignação de Antônio fez Tininha rir novamente e em seguida riram juntos. Saíram de mãos dadas da pousada para Tininha conhecer a feira típica de Asa Branca. Ela também sentia atração por Antônio, sendo que ele, sem saber, havia sido sua primeira paixão adolescente.

    Tininha ficou encantada com a feira, onde entre tendas de comidas típicas e artesanatos variados, diversos moradores, visitantes e romeiros se divertiam. Ficou impressionada quando viu duas barracas que ficavam uma em frente à outra: uma vendendo medalhas e imagens do santo esculpidas em madeira, a outra oferecendo carrancas e figuras presas em garrafas, do famigerado cramulhão ou famaliá. Apertou Antônio contra si ao ver as tenebrosas figuras que lhe causavam medo. Ele então fez o que desejava a muito tempo… Roubou um beijo da jovem, que imediatamente correspondeu e relaxou em seus braços fortes, pois era o que também queria.

    Estava tarde já, o movimento na feira ia escasseando e várias barracas haviam fechado ou estavam arrumando para encerrar a noite. Antônio, animado pela bebida e pela receptividade de Tininha, a convidou para dormir em sua casa ao invés de voltar para a pousada. Tininha pensou… Lembrou da pressão da avó para que não se entregasse e decidiu. Antônio era o homem que sempre desejara desde mocinha, ela não devia satisfações a ninguém, porque não acabar com isso logo? Aceitou. Seguiram abraçados até o carro de Antônio, se beijando e jurando amor um ao outro.

    O professor morava numa propriedade afastada, uma pequena chácara que herdara da família. O único som que ouviam lá era o farfalhar das folhas e um ou outro pio de coruja. A noite estava quente e uma bela lua cheia dominava o céu.

    • Noite de lobisomem… – brincou ele ao descerem do carro. Tininha riu, não acreditava nessas crendices.
  • É sério!… – ele afirmou – Dizem por aqui que os lobisomens imperam nessa região toda, da margem do São Francisco até o litoral do Ceará. Mas devem ser bem tímidos, porque nunca vi um…

  • Seu bobo! Você não vai me amedrontar com isso! – disse Tininha, rindo e abraçando Antonio com força.

  • A casa era simples e bem cuidada, sem aparatos de decoração. Uma morada típica de homem solteiro.
    Já dentro da sala, se entregaram aos beijos e as carícias foram ficando mais ousadas. Quando Antônio tirou a camisa, exibindo o torso peludo e musculoso, Tininha fez a revelação:

    • Antônio, sou virgem…

    Aquilo caiu como um balde de água fria no ímpeto do homem, mas ele não se deixou abater. Desejava demais aquela garota. A pegou nos braços e beijou apaixonadamente, levando-a para o quarto prometeu:

    • Não se preocupe… Serei carinhoso com você… – beijando seus ombros, Antônio, foi aos poucos desabotoando o vestido e acariciando Tininha, que estremecia com o toque dele em seu corpo. Sua pele arrepiava ao roçar da barba de Antônio que, deitando-a nua na cama, se desvencilhou do restante das roupas e deitou sobre ela, cobrindo-a de beijos e a excitando cada vez mais.

    No momento em que Tininha sentia que Antônio rompia-lhe a barreira da virgindade, o relógio batia as doze badaladas. A lua cheia estava a pino no céu. A excitação de ambos crescia durante o ato e Antônio se empolgou. Movia-se ferozmente dentro de Tininha, cada vez mais rápido.

    Um uivo longo e pavoroso quebrou o silêncio da noite, espantando aves e morcegos que já descansavam nas árvores. O ciclo se fechara e a transformação teve início. Os ossos estalavam, pareciam mudar de lugar. Os músculos se avolumaram, pelos grossos castanhos rapidamente cobriram toda a pele e o rosto transfigurado exibia um focinho onde antes havia um nariz humano; a boca aberta num esgar demoníaco exibia enormes e afiadas presas. Garras negras rasgaram a carne da vítima como punhais de aço temperado. O leito de amor do casal ficou banhado em sangue e o monstro rosnava enquanto devorava as vísceras com apetite selvagem.

    Satisfeita, a criatura estufou o peito e ainda sobre os restos mortais de sua presa emitiu mais um uivo gutural, que parecia poder ser ouvido por toda a cidade de Asa Branca mesmo daquela distância. Saltou da cama arfando, procurando uma saída. Foi quando viu a lua cheia brilhando pela janela do quarto e não teve dúvida, pulou por ela destruindo a vidraça e a esquadria, desaparecendo em seguida na mata.

    Pela manhã muitos comentavam na cidade os uivos que vinham da mata, como o lamento de uma fera desconhecida. Firmino notou a falta da jovem na pousada, deduzindo que ela teria ido com Antônio para a chácara. Será que eles também ouviram aquele som de gelar a espinha? Pelas tantas da tarde começou a se preocupar, pois nem a moça e nem o professor Antônio apareceram. Será que teriam sido atacados pela fera, que a esta altura muitos já diziam se tratar de um lobisomem? Junto com o cabo Tavares e o dono da pousada decidiram ir até a chácara de Antônio. Se tudo estivesse bem por lá, pelo menos dariam boas risadas por conta da credulidade do povo.

    O jipe de cabo Tavares estacionou ao lado do carro de Antônio e foram até a porta da casa, onde Firmino bateu palmas, chamou, esperaram e nada. Silêncio… Não era costume por aquelas paragens trancar as portas, então Firmino, como era de casa, girou a maçaneta e entrou na sala onde tudo parecia normal, exceto o silêncio que não era total apenas pelos zumbidos de moscas que pareciam estar por toda a casa.

    Foi o dono da pousada que, curioso, deu o alarme. Firmino e cabo Tavares correram e o encontraram paralisado, branco como cera em frente à porta do quarto, onde o delicado vestido branco de Tininha jazia ensanguentado aos pés da cama e nesta, em meio a travesseiros destroçados e lençóis ensopados de sangue já escurecido estava, rasgado como um boneco de Judas, o corpo do professor Antônio.

    Tininha nunca mais foi vista por aquelas bandas, e daí em diante cresceu a lenda do lobisomem de Asa Branca, que sempre aterrorizava a cidade nas noites de lua cheia sem nunca ser capturado. A moça, portadora da maldição dos Junqueira, passou a viver escondida na mata depois que descobriu, da pior forma possível, que sua avó insistia tanto para que preservasse a virgindade afim de não desencadear a transformação, pois mantendo sua pureza a fera jamais despertaria…

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