“Noturna” foi escrito por mim especialmente para a coletânea “A Arte do Terror 3” (veja link no final), uma excelente seleção de contos da Elemental Editoração. Aliás, MAIS uma excelente coletânea deles… Foi um prazer participar; e agora trago para vocês aqui também essa minha visão apocalíptica de uma epidemia…

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A imagem tremulante da moto vindo pela estrada asfaltada, como numa cena de comercial antigo de cigarros, poderia ser vista à distância naquele trecho. Seu ronco potente também poderia ter sido notado bem antes.
Poderia… Mas parecia não haver ninguém para ouvir ou ver a moto ali. Exceto os dementados ainda vivos, caso restasse algum na cidade; só que naquele horário não lhe fariam mal algum.
Maurício pilotava a grande BMW azul que pegara nas ruas de Curitiba na noite passada, por sorte com bastante gasolina no tanque. Enquanto vinha de Curitiba a São Paulo, pela rodovia Régis Bittencourt, ele pensou todo o tempo sobre a praga que assolara grande parte do país e em poucos dias transformara a todos em criaturas estranhas. Sabia que os primeiros casos ocorreram em São Paulo, na capital. Lembrava de ter visto algo nas redes sociais, mas não deu muita atenção, até que começaram os relatos na grande mídia e a propagação da doença, que chamavam de Noturna, alcançou o Paraná.
O nome era devido aos sintomas: durante o dia as vítimas ficavam catatônicas, pareciam mortas. Mas à noite, se comportavam como bestas ferozes, atacando quem estivesse por perto. Quem era atacado, se sobrevivesse, desenvolvia os sintomas em questão de horas. Tentaram isolar os primeiros contaminados no hospital universitário da USP, mas eles escaparam. Em poucos dias a coisa se alastrou da capital de São Paulo para cidades vizinhas, daí para outras, numa progressão geométrica veloz e incontrolável, pois cada infectado contaminava diversas vítimas antes de ser capturado ou abatido. Sim… As pessoas entraram em pânico e matavam os dementados quando conseguiam, pois são criaturas muito fortes e ferozes. Também ouviu chamarem-nos de vampiros, já que mostram um apetite incomum por sangue. Por isso geralmente atacam suas vítimas no pescoço, mas mordem qualquer parte do corpo que alcançarem. Corpos semidevorados foram deixados por toda parte e Maurício viu muitos no caminho.
Parecia que tudo isso acontecera há muito tempo, mas fazia poucas semanas que não existiam mais transmissões na TV, nem internet ou rádios em funcionamento. No trajeto de Curitiba até São Paulo ele não encontrou sobreviventes. Maurício venceu os aproximadamente 400 km de estrada que separam Curitiba daquele ponto onde estava, já bem próximo da capital paulista, em cerca de quatro horas. Se Curitiba estava tomada pelos dementados e São Paulo era o marco zero, que sentido fazia seguir até lá? – Era esse o pensamento de seu pai. No fundo, Maurício sabia apenas que seguia seu instinto…
Um estampido repentino tirou-o de seus devaneios. Um instante depois sentiu a pele da panturrilha queimar e perdeu o equilíbrio do veículo, que ziguezagueou para a vala gramada que dividia a rodovia. Percebendo que não conseguiria segurar o peso da BMW, o rapaz se jogou no gramado enquanto a moto avançou oscilando mais um pouco e caiu ruidosamente na calha de concreto ao centro da vala, rugindo o motor como se reclamasse do imprevisto.
Por um segundo Maurício pensou que seria morto pelo próximo disparo, mas ele não veio. Foi até a moto e constatou que o pneu traseiro estava definitivamente inutilizado. Olhou ao redor à procura do atirador, mas o que viu o deixou desconcertado.
– Parado aí!!! – Gritou a pessoa com a espingarda. – Não se mova ou eu atiro pra valer dessa vez!
Maurício colocou as mãos atrás da cabeça e ficou imóvel, olhando para a garota que, não fosse a arma em suas mãos, parecia uma adolescente delicada demais para oferecer algum perigo.
– Quem é você? – Perguntou a garota, ainda com a arma apontada para Maurício. – E vem de onde?
– Meu nome é Maurício. Tô vindo de Curitiba, fugindo daquelas coisas…
– Tá correndo em círculos, coelhinho… aquelas coisas estão em toda parte já. Mas é bom ver uma pessoa que não tem os olhos vidrados e a boca escancarada pra me morder.
– Também acho… foi só o que eu vi noite passada… E você, quem é?
– Prazer, Maurício. Pode me chamar de Cora. Está com fome? – Disse Coralina, atirando para o rapaz um saco de papel pardo. – O sanduiche aí dentro é de mussarela e pão francês velho. Não tem presunto porque o que eu encontrei já estava estragando. Mas dá pra enganar.
Coralina abaixou a espingarda e foi olhar a moto, enquanto Maurício olhava com ar de suspeita o lanche oferecido.
– Não entendo nada de motos, mas essa é bonita… é sua?
– Não. Peguei na rua em Curitiba ontem à noite.
– Desculpe ter estragado ela. Parece que não vai dar pra consertar isso aqui.
– Não faz mal, acho que dá pra encontrar outra coisa pra dirigir por aqui e talvez um carro seria até melhor. Pior seria se você tivesse acertado o tiro em mim… quer dizer, acertado pra valer – Sentado no gramado, Maurício examinou o arranhão da bala na perna, que ainda ardia, mas não havia sido grave.
– Não acertei porque não quis. – Coralina fez uma careta – Meu pai era policial e me ensinou a usar armas muito bem. O tiro foi só de aviso mesmo.
Saíram a pé em direção ao centro da cidade. Maurício comentou que já havia ouvido falar de Embu das Artes e tinha curiosidade de conhecer o lugar, mas não imaginou que seria daquela forma. Desde a rua em que entraram, próxima a uma escola chamada Maria Auxiliadora, até a praça central, onde antes acontecia aos fins de semana a famosa feira de artesanato que deu o sobrenome “das Artes” à cidade, o cenário era desolador e tétrico. O cheiro dos cadáveres espalhados pelas ruas era nauseante e o aspecto dos corpos, aterrador. Muitos estavam destroçados, com as vísceras esparramadas no chão. Cora se mantinha atenta ao menor ruído e interrompia o relato de Maurício sobre Curitiba com frequência. O grande estacionamento de um supermercado estava forrado de urubus bicando os corpos ali caídos, uma cena impressionante.
Embu das Artes foi devastada pela epidemia logo nos primeiros dias, devido à proximidade com o marco zero, a USP. Pelo que Coralina constatou enquanto ainda tinha acesso à internet, a situação piorou muito rápido e não havia esperança de que o resto do país estivesse muito melhor do que ali. Depois, foi o silêncio, até a chegada de Maurício. Isto lhe dava esperança de encontrar outras pessoas vivas e saudáveis, sobreviventes daquele holocausto.
– Como você sobreviveu? – Perguntou Maurício, enquanto entravam numa casa com o logotipo da polícia em uma placa sobre a fachada.
– Meu pai era policial, eu te disse; e ele me criou sozinho. Me ensinou muitas coisas. Usar armas, me proteger, conseguir alimento… acampávamos sempre. Quando tudo começou, me trouxe com ele aqui para a delegacia e me trancou numa das celas. Me entregou a chave e disse para abrir só quando estivesse tudo seguro. Encolhida ali dentro, vi o que aconteceu a ele e aos outros policiais que estavam aqui quando os dementados atacaram o lugar. Prometi a ele que não teria medo; é claro que menti… O pior momento da minha vida foi quando o vi ser estraçalhado e não podia fazer nada para não me descobrirem, mas garanti a ele que ia sobreviver… – respondeu ela, com olhos marejados.
– Também vi meu pai morrer ontem à noite. Sei do que você está falando…
Conversaram longamente. Coralina mostrou como travar e destravar as portas e se trancaram na cela para passar a noite assim que perceberam o cair da tarde. Em pouco tempo começaram os ruídos na rua. De início, lembravam um farfalhar de folhas secas e alguns grunhidos. Aos poucos, rosnados e gritos ecoavam nervosos, famintos. E só piorava. Pelos sons podiam perceber que os dementados se atacavam mutuamente nas ruas, disputando os corpos que apodreciam a céu aberto, até que não restasse nada. Só conseguiram dormir mesmo quando o dia nasceu. Mais tarde, ao saírem, perceberam o saldo da noite passada: mais corpos destruídos nas ruas e mais devastação nos imóveis vizinhos. A delegacia era como uma fortaleza que ignoravam, talvez pelo grosso portão de ferro bem trancado, intransponível.
– A minha rotina aqui tem sido buscar alimento e coisas úteis pela cidade, trazendo para a delegacia o que consigo antes do fim da tarde. – Disse Coralina. – Agora você pode me ajudar nisso.
– Com certeza em pouco tempo você não vai achar mais nada por aqui. E então?
– Acha mesmo que ainda não havia pensado nisso? Tenho as chaves de uma viatura abastecida na delegacia. Tanque cheio e alguma coisa na parte de trás para comer, bastante coisa. Só que não sei dirigir, e agora com você aqui esse problema está resolvido.
– Bom, podemos ir até a capital e explorar a USP, quem sabe lá encontro a solução…
– Acorda, cara! – Interrompeu Coralina – Os doutores de lá com certeza já tentaram tudo o que puderam e agora também são dementados como os outros. Sua busca não faz sentido, a não ser que você seja cientista, químico, ou algo do tipo! Essa coisa não tem solução mais, não percebeu?
– Acontece que… – um grande estrondo fez Mauricio se calar.
Uma explosão perto do supermercado chamou a atenção de ambos. A fumaça negra que subia e a revoada dos urubus indicava o ponto exato.
– Droga! – praguejou Coralina – O posto de gasolina perto do Auxiliadora foi pelos ares! Era o último aqui em condições de pegarmos mais combustível! Vamos ver isso!
Ela correu em direção à rua que dava acesso ao local da explosão, sem dar tempo de Maurício completar o que pretendia dizer. Antes que ele a alcançasse, ela estacou perto de um shopping desativado. Então ele viu, além dela, os dementados que corriam na direção dos dois. Uma multidão enlouquecida de pessoas que não eram mais humanas, vindo como uma manada de búfalos rua abaixo, fugindo do incêndio. Gritavam furiosamente, alguns caiam e eram pisoteados pelos demais.
– Aqui, Cora! – Gritou Maurício – entra aqui, rápido!
A jovem virou-se para trás e viu Maurício gesticulando em direção à porta aberta de uma lanchonete, por onde ele entrou quando a viu olhando na sua direção. Instintivamente ela correu para lá, enquanto a turba de dementados ainda não havia percebido sua presença.
Assim que Cora entrou Maurício moveu uma geladeira de bebidas para bloquear a passagem de quaisquer daquelas criaturas.
Ofegante, Cora se apoiou sobre os joelhos e olhou para Maurício, enquanto as criaturas passavam pela rua num tropel ruidoso e insano. Quando o silêncio voltou e sua respiração normalizou, ela se encostou no balcão empoeirado e comentou:
– Nossa!… Foi por pouco! Eles nunca se comportaram assim, que loucura foi essa?
– Acredito que o incêndio deve ter desentocado aquele grupo de algum lugar perto do posto e, mesmo não sendo comum eles se agitarem durante o dia, fugiram do fogo.
– Isso só faz sentido se ainda restar neles algum instinto de sobrevivência…
– Era sobre isso que eu queria falar com você. Meu pai era biomédico e antes de morrer preparou isto.
Maurício tirou da mochila uma caixa metálica e abriu. Dentro dela, haviam tubos de ensaio e um envelope recheado de documentos.
– É uma cura. – Disse, categórico. Ele testou essa fórmula no laboratório dele, antes da nossa casa ser invadida pelos dementados.
– E como você tem certeza de que isso funciona?
– Eu fui a cobaia. – Maurício ergueu a manga da camisa e exibiu as marcas das picadas. Seu pai o havia mantido preso desde que fora contaminado. Retirou amostras do seu sangue e fez diversos testes em seu laboratório particular. Até que, talvez num golpe de sorte, encontrou um antídoto e conseguiu fazer o filho melhorar. Enquanto isso, o caos reinava nas ruas de Curitiba. Ele pretendia levar sua descoberta até São Paulo na esperança de encontrar quem pudesse produzir a substância em grande quantidade a partir das fórmulas que estavam no envelope. Porém, ele não sobreviveu ao ataque…
– Meu Deus!!! – Disse Coralina, espantada com o relato de Maurício. – Seu pai seria de grande valor aqui, se tivesse sobrevivido e pudesse continuar a pesquisa!
– Sim, seria… – disse Maurício, cabisbaixo. – Por isso o matei antes.
– O que foi que você disse? – Antes que pudesse reagir, Coralina teve a garganta cortada por garras afiadas. A última coisa que viu, foram as presas e os olhos amarelos de Maurício.
Seu pai encontrou a cura para a insanidade dos infectados, mas não para sua sede de sangue. Enquanto Cora dormia naquela manhã, Maurício saiu furtivamente, aplicou a fórmula de seu pai em vários dementados que encontrara na pousada próxima ao posto de gasolina e preparou a explosão, para forçá-los a sair do ninho. O vírus da Noturna iniciou o trabalho e a fórmula acidental de seu pai completou a mutação, criando assim uma nova espécie, capaz de espalhar todo aquele terror conscientemente, dia e noite. A nova e voraz espécie vampira que iria dominar a Terra.

FIM

 

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