Primeiro, um pouco de história…

Pierre Labatut (ou Pedro Labatut) foi um militar francês que combateu na Guerra de Independência do Brasil como mercenário, assim como muitos outros. Lutou na Bahia, venceu os portugueses na Batalha de Pirajá e combateu também na Revolução Farroupilha. Recebeu ainda em vida o título de Marechal-de-campo. Deixou o serviço ativo em 1842 e faleceu em Salvador na antiga rua dos Barris, que depois teve o nome mudado para rua General Labatut. Curioso que em Osasco também há uma rua com este nome…

Diziam os antigos que o general Labatut era extremamente violento e cruel. E em virtude de sua incontrolável crueldade acabou permanecendo no imaginário popular da região da Chapada do Apodi, localizada na divisa dos estados do Rio Grande do Norte e Ceará, como o monstro dessa lenda folclórica pouco conhecida no restante do Brasil…

Então pensei… E se, como tantos migrantes nordestinos fizeram, o Labatut também se deslocasse para o sudeste? Como seria sua aparição aqui, nos dias atuais?
Vejamos…

Labatut

As casas simples da viela onde morava Neusa e Miguel, seu filho de apenas dez anos, estavam todas com as portas fechadas. Já era noite, e uma ventania fria anunciava a chegada de uma tempestade fora de época.

Neusa olhou pela grade da janela procurando Miguel, que não voltara das brincadeiras com os outros moleques ainda. Viu o garoto sentado na calçada, pés descalços, bermuda surrada e sem camisa naquele vento frio, conversando com os gêmeos filhos de dona Dalva e gritou:

  • Miguel, já prá dentro menino! E põe essa camisa que não quero você com febre!

Miguel olhou para a cara de brava da mãe na janela e se ergueu num pulo, correndo para a atravessar a rua enquanto se despedia dos amigos.

Neusa sentiu um arrepio ao vê-lo se aproximar da porta assobiando… Lembrou das histórias que sua bisavó contava, de um monstro que percorria a chapada faminto, acompanhado pela ventania, para devorar quem fizesse barulho à noite, principalmente assobios…

  • Para com esse assobio que isso atrai coisa ruim, Miguel. Entra logo!

Antes de fechar a porta Neusa olhou para os dois lados da viela, constatando que não havia uma alma circulando nos arredores. Instantes depois aparece na entrada da viela a silhueta de um homem alto, forte, com um sobretudo cobrindo o corpo até as canelas e longos cabelos castanhos revoltos escondendo seu rosto, auxiliados por um chapéu de aba larga. Uma figura exótica, que ficou parada na esquina próximo à porta de aço da quitanda de seu Manuel. Parecia farejar o ar como um predador, atento a qualquer som ao redor, as mãos também ocultas nos largos bolsos do sobretudo. Ele escutou o assobio de Miguel.

Dentro de casa, Neusa escutava o vento, que não parecia normal naquelas redondezas. Cachorros latiam na rua, denunciando algo incomum. De repente, alguém bateu à porta de forma impaciente.

-Quem é? – perguntou Neusa, assustada, sem ouvir resposta alguma.

Fora da casa, o sujeito de sobretudo bufava e buscava um meio de entrar na casa. Os cachorros ladravam à distância, seu instinto os alertava que aquela figura oferecia risco.

Impaciente e faminto, o estranho ser chutou a porta para abrir passagem até seu objetivo: o menino Miguel. Sentia o cheiro dele, sabia que estava ali.

Neusa deu um grito e desmaiou ao ver o invasor, um ser com longas presas e um único olho a fita-la ferozmente. Miguel ouviu o barulho da porta e o grito da mãe, então correu até a sala, onde o ser demoníaco estava abaixado examinando a mulher. Nem teve tempo de gritar também, o inocente menino…

Pela manhã, Dalva saia com os gêmeos para leva-los à escola e estranhou ver a porta da casa de Neusa aberta. Logo ao se aproximar percebeu o arrombamento. “Ninguém deve ter escutado por causa da ventania infernal da noite passada…” – pensou.

Chegando à soleira, antes de chamar pela amiga, se deparou com o chão da sala todo sujo de sangue. Estranhas marcas redondas iam até a porta, onde um chinelo do pequeno Miguel jazia, com a alça arrebentada. Nem sinal do garoto.
Encolhida num canto, tremendo e em estado de choque, Neusa apenas balbuciava agarrada ao outro chinelo do filho, também todo ensanguentado:

  • Labatut… Labatut…
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