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De olhos abertos eu fitava o céu azul, deitado com os braços estendidos sobre a relva macia numa elevação à beira da estrada, como se esperasse um abraço… Sentia no rosto a brisa fresca que agitava levemente as folhas das árvores, ouvia o canto dos pássaros e os sons distantes que vinham da rodovia logo abaixo, uma paz extrema! Nem me lembrava mais da deliciosa sensação de ficar assim, sem preocupações, curtindo um momento sublime de contato com a natureza, já que fazia anos que a vida corrida não me permitia um descanso. A rotina diária não nos dá tempo para viver… Me lembrei da música “Epitáfio” dos Titãs e mentalmente me vieram os acordes e a letra de uma das mais belas obras do rock nacional:
“Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer…”

Grande verdade o que diz nessa música… – Infelizmente, quebrando aquela sensação de enlevo, ouvi o som estridente de uma sirene. Me levantei e olhei para a estrada, onde um grande número de carros estava parado e algumas pessoas já se aglomeravam em torno de um veículo com as rodas para o alto e próximo a ele estava uma carreta tombada ocupando parte da pista, tendo a carga que parecia ser de cereais espalhada sobre o canteiro central.

Tão distraído eu estivera que não ouvi o barulho do acidente! Só a sirene me trouxe de volta à realidade. Desci a colina gramada e fui até o local, passando entre os carros parados enquanto a ambulância tentava se posicionar com dificuldade mais próxima ao veículo retorcido pelo impacto com o enorme caminhão, também bastante danificado. Do lado oposto da pista uma viatura da polícia já estacionara e os policiais atravessavam o canteiro central para colocar ordem na cena do acidente, afastando os curiosos. Um deles se ocupou do motorista do caminhão que estava visivelmente embriagado, aturdido com o que aconteceu, mas vivo, trazendo ferimentos leves nos braços e um corte na testa de onde escorria um filete de sangue.

Quando consegui me aproximar o suficiente, com aquela comum e mórbida vontade que temos de ver as possíveis vítimas, um grito de horror me escapou da garganta pelo que vi: O condutor do pequeno automóvel teve a metade inferior do corpo praticamente estraçalhada no acidente; uma enorme poça escura de sangue, combustível e óleo se estendia como um tapete macabro sob os destroços do carro empapando o asfalto e emoldurando a cena pavorosa do que restou do corpo…

De olhos abertos eu fitava o céu azul, deitado com os braços estendidos sobre o asfalto maculado com meu sangue à beira da estrada, como se esperasse um abraço… O abraço da morte, que então me arrebatou e me levou dali envolto em seu manto frio e negro, enquanto as pessoas voltavam aos seus carros e suas vidas corridas, lamentando a terrível tragédia que presenciaram.

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