Percebo as gotas de suor brotarem na testa e escorrerem lentamente em direção às têmporas, mas aos poucos noto todo o corpo úmido. Compartilho com ele a sensação de paralisia que o incomoda tanto, mas para mim isso é normal. O lençol está empapado. Passo a língua pelo canto da boca e sinto o gosto salgado do líquido. Escuridão total, já que ainda não abri os olhos e ouço o irritante som eletrônico de um despertador digital à direita da cama.

horas

Abro os olhos e vejo um teto branco com um ventilador cujas pás se movem lentamente, sem ruído, na velocidade mínima. Pisco uma… duas vezes. Consigo mover o braço e desligar o maldito despertador, movo a cabeça devagar e olho para ele: 6:30 é o que marcam os números vermelhos piscando. Com certo esforço, ergo o corpo e afasto o lençol, é hora de levantar.

Sentado na cama, olho em volta. Um quarto simples, mas agradável, é o que eu vejo. Cama, criado com uma gaveta, luminária para leitura, um armário branco, uma escrivaninha onde repousa um notebook e alguns objetos, um tapete felpudo sob os pés, nenhum quadro nas paredes. Num canto estão as roupas que foram usadas no dia anterior.
Me sinto capaz de levantar já e vou até o armário dele. Escolho uma camisa leve, uma calça jeans um tanto surrada, meias, cueca e usarei o mesmo tênis que está junto às roupas perto da porta do quarto. Na verdade, tanto faz a roupa que usarei, escolher é apenas um capricho ao qual me acostumei. Em cinco minutos estou vestido. Apesar do suor, não me preocupo em tomar um banho.

Vasculho a calça usada no dia anterior e pego a carteira, chaves, um pacote de Hall´s pela metade e coloco tudo nos bolsos da calça que estou usando. Saio do quarto.
Quase consigo ouvir os gritos que ele tenta emitir ao perceber que estou no controle. Não consigo evitar um sorriso de sarcasmo por isso.

Não há ninguém mais na casa. Nunca há. Não sei o que faz com que eu escolha sempre solitários, mas é uma regra natural da minha condição. Nunca acordei ao lado de ninguém, nunca vi ninguém nas casas além do meu possuído do dia. Ele continua a lutar dentro deste corpo que compartilhamos, posso sentir seu desespero infrutífero enquanto uso seu corpo como se fosse meu e ele nada pode fazer a respeito senão acompanhar passivamente os acontecimentos. Ele vê tudo o que vejo, sente tudo o sinto, mas quem manda agora sou eu.

Não faço ideia do que este aqui faz na sua rotina, então decido apenas caminhar pelas ruas, aproveitar o dia na cidade. Antes de sair olho num espelho do banheiro e aprovo o que vejo. Um rapaz de boa aparência, saudável, olhos claros e cabelos castanhos anelados. Outra regra curiosa da minha condição: raramente “acordo” num corpo feminino. Aconteceu apenas umas poucas vezes.

Caminho pela rua e observo, como sempre discretamente, as pessoas em volta. Andam apressadas, alheias umas das outras, cuidando de seus afazeres. Cada uma delas é um universo particular fechado em si mesmo. Olho os livros na vitrine de uma livraria e penso que poderia ser bom ler um, mas nunca tenho tempo para isso. A cada vez que entro em um corpo novo, fico nele apenas o tempo suficiente para me alimentar de sua energia vital. Pode ser poucas horas ou muitas, mas nunca mais que um dia incompleto. Houve alguns que precisei deixar ainda na parte da manhã, portanto certamente nunca terei tempo de ler algum romance. No máximo algumas páginas de alguns que encontrei com meus possuídos, por pura curiosidade.

Numa praça, comprei pipoca e um jornal. Sentei num banco e li um pouco, joguei pipoca para os pombos e senti a cada minuto aquela vida se esgotando, me nutrindo. Por experiência sei que este corpo não vai durar muitas horas em meu poder. Será um daqueles que esgoto rapidamente.
Umas jovens passam por mim e olham para trás. Gostaram dele, dão risadinhas e olham furtivamente sobre os ombros. Foi bom isso, essa sensação de ser paquerado. Tenho certeza que ele também teria gostado, não fosse seu pavor tentando entender o que está acontecendo. Mas como os livros, não tenho tempo para isso também. Olho para outra direção, me perdendo no horizonte inexistente da metrópole.

Começo a sentir o incômodo. A sensação de estar preso quando se quer alçar um voo e ver tudo do alto. Começa com um formigamento, depois uma inquietude e por fim a impaciência de me livrar daquele peso que é o corpo físico. Deixo o jornal cuidadosamente dobrado sobre o banco da praça e vou resolver isso, antes que se torne uma dor. Mas, ah… A dor é inevitável.

Quando estou fraco, algo me atrai para o corpo de alguém, não sei como acontece. Quando dou conta, abro os olhos e pronto, estou dentro da pessoa. Mas para sair, só há um modo.
Estou agora perto de um viaduto e o reconheço. Já estive ali outras vezes. Lembro das grades de ferro caprichosamente trabalhado, da textura das peças e do tremor da estrutura por causa do trânsito nas últimas décadas. Me lembro de bondes passando por ali, de senhoras com sombrinhas e homens de cartola. Não mudou muito dos anos vinte para hoje. O que mudou demais foi o entorno e as pessoas. Olho para a larga avenida abaixo, será fácil fazer o que deve ser feito.

Sinto lágrimas escorrerem pelo rosto, de alguma forma ele sabe o que vai acontecer e não quer, mas nada pode fazer a respeito. Me sento sobre a amurada e num instante dou impulso ao corpo, lançando-o no ar em direção ao asfalto. Durante a queda escuto gritos, buzinas, impropérios, tudo muito rápido, pois calculei bem o objetivo. Num relance ainda vejo o caminhão que escolhi freando sem sucesso e em seguida sinto o impacto no solo, os ossos quebrando e as rodas da cabine do enorme veículo passarem sobre o corpo. A dor é indescritível e acaba numa fração de segundos, mas não pense que é fácil sentir a dor de uma morte violenta a cada vez que se termina uma refeição… Estou livre e do alto vejo a multidão se aglomerando sobre a amurada do viaduto e também lá embaixo, ao redor do caminhão. Não demora muito e escuto as sirenes. Por ora estou satisfeito, mas em poucos dias vou acordar novamente dentro de outro possuído cuja vida terminará para que a minha continue.

Vocês humanos me deram muitos nomes já: Depressão, Desilusão, Loucura, Obsessor, Encosto, Inimigo, Cramulhão, Tinhoso, Demônio, Vampiro Psíquico (gosto deste em especial, tem um certo charme…). Nem mesmo eu sei o que sou exatamente, mas existo há muito tempo e continuarei a existir até que não tenha mais como me alimentar deste grande rebanho de almas chamado humanidade.

Nos próximos dias, quando você for dormir, talvez eu te visite e acorde para ver o mundo com seus olhos na manhã seguinte, desfrutar suas últimas horas com você. Quem sabe?

Este conto está na coletânea “A Arte do Terror – Volume 2”, do selo indie Elemental Editoração.arte do terror Clique na capa acima para conhecer o projeto!

 

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