Dany Fernandez participa de um grupo de literatura fantástica fechado, o Fábulas Noturnas, onde trocamos textos, opiniões e dicas; e também testamos nossos trabalhos, expondo-os à crítica dos membros. Um ótimo exercício literário e uma forma de estreitarmos laços de amizade com pessoas de vários lugares que compartilham o gosto por escrever, profissional ou despretensiosamente. Ela aceitou meu convite e nos brinda com este intrigante e poético conto sombrio. Conheçam o Sr. Orsov:

Fire_of_Moscow_1812
O incêndio de Moscou, durante a invasão francesa da Rússia em 1812. – Fonte: Wikipedia

“Pode cair fora bêbado”. Projetado para fora de um bordel, nos arredores de Moscou, foi uma vez avistado o Sr. Orsov, em uma cena incomum. Um jovem, da mais alta linhagem da sociedade russa da época, estava a ser escorraçado de um lugar onde a hipocrisia e a lascívia reinavam. E onde, com certeza, um “bem-nascido” jamais seria enxotado à rua como um cão indesejado.

Oslav Orsov parecia amaldiçoado e abandonado desde a noite do grande incêndio. Inesquecível ao país, todos sentiram-se abalados com a notícia de que um bairro nobre e grande parte da periferia foram incinerados em apenas algumas horas. Casualidade ou simples infortúnio do destino? Família, casa, bens incontáveis e o mais importante para si, sua vida, findaram-se entre chamas inexplicáveis. Desta noite, carregava apenas uma breve e angustiante lembrança, que nunca lhe fora revelada com nitidez. E o mistério de como se salvara continuava intocado.

Levantou-se, limpando a neve do único sobretudo que lhe restara. Saiu cambaleante pelo caminho nevado, perdendo-se no labirinto das ruas, que se costuravam em serpentes. Mesmo fraco, sua mente mantinha-se fértil, entregue a delírios, e à toda sorte de confusos sentimentos.

Ouvia a sinfonia macabra de seus demônios pessoais uivando e rindo! Riam de sua miséria, de sua fome… fome esta que se tornara bestial desde a noite do incêndio. Suas alucinações pintavam-lhe um quadro de horrores, vindo em sua direção. Foi quando avistou uma figura sombria, recostada numa árvore, iluminada pelos raios do luar, ainda tímidos pela presença das nuvens, que circunvagavam pesadamente pelo céu.

Procurando ter certeza de sua visão, limpou os olhos. Antes de conseguir abri-los novamente, fora atingido por uma rajada de ar frio do inverno rigoroso.

Quando voltou a enxergar, surpreendeu-se por estar frente a frente com uma sombria Afrodite. Seminua, tinha longos cabelos negros a escorregar-lhe até a cintura, cobrindo-lhe a silhueta. Podia sentir o cheiro do horror e da morte, vindo em sua direção.

Suas pernas vacilaram. Já não tinha forças para manter-se sobre elas. Antes de cair, sentiu-se amparado por braços fortes e frios, embalando-o em seus pesadelos, com canções tristes e melancólicas, criadas milhares e milhares de anos antes. Antes mesmo de seu surgimento neste mundo.

As mensagens das músicas, ininteligíveis a princípio, tornaram-se compreensíveis com o lento passar dos segundos. Um negro caminho abriu-se diante dos seus olhos ébrios, com curvas mortais e degraus intransponíveis por corpos humanos. Desafios amargos a serem enfrentados…

A figura de uma deusa, cujo olhar lhe inspirava bens inesgotáveis e vida eterna, estendeu-lhe a mão frágil, de delicados dedos. Ao tocar a mão que lhe fora oferecida, percebeu-se tragado pela escuridão.

Quando reabriu os olhos, encontrou-se num salão, com janelas enormes de vitrais empoeirados e ar cáustico. No teto, uma rica luminária emanava a luz de poucas velas, que em breve apagariam.

Diante de si, postavam-se duas figuras: a primeira, vestida de negro, sustentava um brilho vermelho no olhar. Sua alva pele e corpo franzino eram visíveis através do delicado tecido… A outra, envolvida por vestes simples, denunciando sua posição serviçal, possuía uma aparência frágil, remetendo á sua inocência juvenil. Seus olhos pareciam perdidos no espaço, e aparentemente, não se importava de estar atada a uma cadeira. Parecia nem mesmo se dar conta de sua própria existência.

Uma voz doce o induziu a abraçar a jovem hipnotizada. Seu lado humano repudiava a ação, mas o som do coração acelerado de sua vítima, o conduzia a sugar-lhe toda a vida, enquanto sua presa deliciava-se no prazer funesto de sua morte. Seu avental, antes branco, tingiu-se lentamente de rubro líquido…

Oslav sentiu-se saciado. Seu coração acalmou-se, esquecido de bater, dessa vez para sempre. E só então percebeu que a misteriosa voz havia silenciado ao alimentar seu lado negro e voluptuoso com a vida de mais um ser…

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