gas-station

Monique era uma sobrevivente, uma cria órfã. Uma vampira jovem criada por um vampiro mais velho, se adaptando sozinha à sua nova vida, com suas limitações peculiares e dificuldades impostas pelo ambiente das grandes cidades. Vampiros antigos possuem uma existência relativamente confortável devido às riquezas acumuladas em décadas ou séculos, o que lhes permitem viver no mundo moderno sem trabalhar como pessoas comuns. Já os jovens vampiros são mantidos na companhia dos seus criadores ou são, como Monique, abandonados à própria sorte. Isso acontece por motivos diversos. O “pai” de Monique a transformou e desapareceu com rumo ignorado, deixando-a para descobrir por conta própria como sobreviver. Talvez uma noite retornasse para buscá-la, mas, até lá, precisava ter dinheiro para pagar ao menos um lugar para morar. Comida não era problema. A noite numa metrópole possibilita muitos meios para resolver esse problema… A loja de conveniência do posto 24 horas era um dos poucos trabalhos que serviam para Monique, pois o horário das 22 às 04 horas era o ideal para sua condição e, embora pagasse pouco, era o suficiente para o aluguel da quitinete, para uma ou outra peça de roupa e outras pequenas necessidades.

Um carro vermelho, com o som alto tocando um funk, estacionou próximo à bomba de combustível. Dentro de uma hora, Monique deixaria seu posto, mas percebeu que os homens no carro iam trazer problemas. Dois deles desceram e, enquanto um conversava com o frentista, o outro foi até a loja e entrou. Olhou para ela com cara fechada e anunciou o assalto, exibindo uma automática. Monique olhou pelo vidro e viu que o outro também estava armado e rendera o frentista. Tudo muito rápido. Ela abriu a gaveta do caixa, e o sujeito, truculento, avançou sobre o balcão para pegar o dinheiro. Será que sabiam que a câmera do CFTV estava estragada? Com a distração do sujeito, Monique aproveitou e atacou, puxando-o sobre o balcão e cravando-lhe os dentes no pescoço. Ele certamente não esperava que a jovem franzina e pálida, de cabelo curto espetado e porte mignon, tivesse tanta força!

Infelizmente Monique também não previu que seu ataque causasse tanto barulho e atraísse a atenção do outro assaltante, que atirou na cabeça do frentista e correu para ajudar o comparsa. Os primeiros tiros dados em direção à loja estouraram a vidraça e por pouco não atingiram Monique, que se escondeu atrás do balcão derrubado quando puxou o primeiro assaltante. Num movimento ágil, ela quebrou o pescoço do homem e primeiro usou seu corpo como escudo, depois o atirou sobre o outro ladrão, que também se espantou com a reação da garota. Em segundos, ela se atirou sobre ele e o mordeu também, mas sua inabilidade estratégica custou caro: ela levou um tiro que lhe varou o pulmão esquerdo e saiu pelas costas. A dor lancinante apenas a deixou mais enfurecida e, mesmo com a perda de sangue causada pelo ferimento, ainda teve força para matar o segundo meliante.

Matheus abastecia o táxi naquele posto quase toda noite, antes de ir para casa. Acelerou quando ouviu os disparos e percebeu de longe o que acontecia ao ver o carro vermelho com as portas abertas e o frentista caído sobre uma poça escura no piso de cimento do posto. Entrou a toda no posto e viu Monique se levantando com a mão sobre o ferimento e sua camiseta branca ensopada de sangue. Ela cambaleou e caiu do lado de fora da loja, arfando. Matheus correu até ela:

− Onde estão os safados?

− Lá dentro… Mortos… – ela disse, antes de desfalecer nos braços do taxista, que franziu o cenho ao perceber as presas de Monique ainda proeminentes…

Quando Monique acordou, Matheus estava sentado em uma cadeira ao lado da cama, num quarto desconhecido para ela.

− Onde estou? – perguntou alarmada.

− Calma! Cê tá na minha casa, garota.

Monique reconheceu Matheus, o taxista que vira diversas vezes no posto. Um homem forte, com a barba cerrada, invariavelmente vestido de jeans e camiseta de malha colada aos músculos bem desenvolvidos. Matheus sempre sorria para ela e fazia alguma gracinha ao entrar na loja para comprar cigarros ou beber um café no fim da noite, mas embora o achasse atraente, ela obviamente evitava dar muita trela ao grandalhão… E mais: tinha algo nele que incomodava Monique… Talvez ela o achasse folgado demais, confiante demais…

− Cê deve tá estranhando eu não ter te levado prum hospital, né? Mas eu vi seus dentes e sei o que você é…

Monique teria ficado alarmada, mas Matheus falou com tal naturalidade que a deixou foi surpresa com a sua atitude. Observou que uma grossa coberta de lã foi pregada sobre a janela, evitando que a luz do sol entrasse no quarto. Tentou se levantar, mas a forte pontada na costela a fez desistir e esboçou uma careta de dor.

− Fica tranquila… Não vou contar pra ninguém… Também fiz um curativo aí e logo cê vai tá boazinha. O osso da costela fraturou e demora um pouco mais pra recuperar, por isso a dor. Acho que amanhã cê tá novinha em folha…

− Você também é… – tentou perguntar Monique, sendo interrompida por Matheus com uma gostosa gargalhada.

− Não!!! Há-há-há!!! Não sou vampiro, não, menina! E sei que cê deve tá faminta, mas nem pense em me morder… – ele disse isso e sorriu de forma confiante para Monique. Em seguida, se levantou. − Preciso sair agora. Fique à vontade mas não saia do quarto, eu tinha só um cobertor e coloquei ele nessa janela. No resto da casa tem sol, então é melhor cê ficar aí mesmo. A lâmpada do quarto queimou e tô sem reserva, mas isso não importa… Fica até melhor pra você, né?

Matheus não disse onde ia, mas Monique se sentia segura ali. Até a noite chegar, poderia pensar em que fazer. Voltar ao posto, poderia não ser uma boa ideia. A polícia devia estar investigando o que aconteceu lá e seria difícil explicar os dois corpos sem sangue na cena do crime… Esperaria Matheus chegar e conversaria com ele para encontrar uma solução. Ligou a TV do quarto e passou o resto do dia assistindo a programação, atenta aos noticiários para ver se falavam alguma coisa sobre o assalto ao posto, mas nada apareceu. Pensou no taxista… Matheus lhe salvou a vida e talvez, por isso, sentia certa atração por ele, mas algo lhe causava incômodo… Ele tinha um cheiro diferente.

A noite chegou, e nada de Matheus voltar… Sentia-se fraca, precisava de sangue. O processo de cura era rápido, mas esgotava as energias da vampira, o que ela descobriu nessa que foi sua primeira situação do tipo… A sede já estava insuportável quando ouviu o barulho da chave na porta da frente. Sabia que era Matheus, mas o instinto de vampira gritava em sua mente de forma avassaladora! Precisava de sangue!

Sentiu o cheiro de Matheus, e aquela estranha repulsa voltou, mas a sede era mais forte! Suas presas estavam prontas para agir, e ela ficou encolhida num canto do quarto. A TV estava ligada, mas Monique não prestava atenção, era apenas um animal, era puro instinto, guiada pela sede e mais nada. Seus olhos escureceram, e a garganta estava seca, muito seca…

− Monique? – perguntou Matheus. Sua silhueta enorme parada na porta do quarto, o braço peludo e anguloso pousado no batente… As cenas da novela das nove foram interrompidas por um comercial alegre de sabão em pó… Monique continuou encolhida e calada no canto.

Quando Matheus deu um passo para dentro do quarto, ela saltou em sua direção enfurecida, cega pela sede de sangue, do qual precisava urgentemente. Mas estava fraca, e ele conseguiu desviar, batendo com o braço forte em seu flanco, bem sobre o ferimento da costela, o que lhe causou uma forte dor e a fez emitir um grito agudo. Matheus respondeu com um rugido nervoso. Com a mão sobre a costela ferida, ela tentou novo ataque, mas quando caiu sobre Matheus percebeu: ele estava diferente! Uma mão forte agarrou sua garganta e a ergueu facilmente. Monique sentiu os pelos dos dedos grossos de Matheus pinicarem seu queixo e pescoço. Ela então viu seu rosto na penumbra do quarto… Olhos vermelhos e brilhantes a encaravam de uma face transfigurada, coberta não apenas pela barba cerrada de Matheus, mas de pelos escuros por toda sua extensão! Ele rosnou e exibiu gengivas rosadas cravejadas de dentes pontiagudos, o braço musculoso que a sustentava estava tão peludo quanto todo o resto do corpo dele, a camiseta estava rasgada nas costuras das mangas e na gola. A vampira sentiu o sufocamento causado pela mão potente que lhe estrangulava o pescoço, e tudo escureceu…

Quanto voltou a si após retroceder sua transformação, Matheus viu o corpo de Monique no chão, inerte, de braços estendidos e pernas num ângulo improvável. Do peito aberto, brotavam ossos de costelas emoldurando o vazio do interior, de onde foram devorados o coração, traqueia, pulmões e parte de outros órgãos, mas quase não havia sangue… Não se sentia culpado pelo que aconteceu; ele apenas revidou o ataque, mas, no fundo, queria que aquele encontro tivesse terminado de forma diferente. Se ajoelhou ao lado dela e chorou a perda daquela que talvez pudesse ter sido sua única amiga, a única que entenderia seu isolamento e sua condição por partilhar de sina semelhante…

O posto de gasolina foi fechado, a polícia acabou arquivando o caso por falta de provas, já que as câmeras não estavam funcionando e não puderam descobrir o que aconteceu ali. Monique foi dada como desaparecida ou fugitiva…

Matheus às vezes passava em frente ao local e se recordava de quando parava ali para tomar um café e “cantar” a pequena e estranha atendente de cabelos espetados e pele pálida… Agora sabia que nunca daria certo um relacionamento entre um lobisomem e uma vampira.

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Noite SombriaMonique e Matheus é o meu primeiro conto publicado em livro.

Está na coletânea NOITE SOMBRIA (2015), da Darda Editora, que aliás tem outros excelentes contos de vários autores e pode ser adquirida no site da editora.

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