Neculai 1

Após verificar o cofre onde está encerrada caixa de prata que, por sua vez, guarda o celular onde Neculai foi aprisionado, Klaus apaga as luzes da sala da Diretoria da Cross Associados.

Na rua, alguém observa a luz se apagar no último andar do prédio e sorri. Segundo seus cálculos, Klaus sairá pela garagem à esquerda do prédio em no máximo cinco minutos. Nada, para quem esperou tanto tempo em pé sob as folhagens do ipê amarelo que insistia em forrar aquele canto da praça em frente ao prédio com flores berrantes. Andros Conti, ou melhor, André Figueiredo, retirou do bolso de seu sobretudo um pequeno relógio de ouro preso a uma corrente, acompanhando a corrida do delicado ponteiro dos segundos. Não demorou muito. O barulho inconfundível do potente motor de um Porsche quebrou o silêncio, que junto com os fachos dos faróis denunciava a saída do esportivo de Klaus pelo amplo portão. Era hora do show…

Ele sempre saía pelo portão da Cross sem reduzir a velocidade do carro. Já cronometrara mentalmente o tempo de abertura do portão e nunca errava. Passava pela abertura com destreza e alcançava a rua já na velocidade que gostava de dirigir seu bólido alemão. Ao se aproximar, porém, do portão percebeu um vulto parado à sua frente. Foi obrigado a frear bruscamente, fazendo os pneus cantarem no piso com o susto. Quem seria o bastardo imprudente que se plantava na frente de um portão aberto de garagem àquela hora da noite? Apertou os olhos tentando discernir a figura negra à sua frente e com assombro viu a imagem se distorcer e se fragmentar em dezenas de figuras sinistras menores, aladas, que se espalhavam em todas as direções, produzindo um som farfalhante de asas: Morcegos! “Que diabos é… AH! Já sei! Filho da mãe!!!”, pensou o vampiro.

Saltou do carro e olhou para a rua deserta. Os tais morcegos desapareceram como por encanto, assim como a figura sombria que dera origem a eles. Na verdade, uma pequena ilusão criada pelo seu amigo ator e mestre em ilusionismo vampírico, o Arlequim Negro.

-André! Onde você está seu palhaço?

-Bem aqui, meu grande amigo… – A voz suave de André ecoou como um sussurro à direita de Klaus, que se virou e surpreendeu o outro vampiro com um apertado abraço que teria quebrado as costelas de qualquer humano. André riu e abraçou Klaus também com igual entusiasmo, finalizando o cumprimento com um beijo na face do gigante ariano, que em seguida se afastou com as mãos sobre os ombros de André e um largo sorriso no rosto.

-Quanto tempo! Por onde estava?

-Em turnê na Europa, claro! Apresentando meu espetáculo, me deliciando com sangue do velho continente e pesquisando coisas novas para incorporar no show, como sempre… Cheguei tem apenas três dias e já recebi uma ligação de Sophia. Ela me pediu para encontrar você aqui para irmos até a casa dela, já que não gosto de dirigir… E não podia deixar de me anunciar para o meu querido amigo Klaus à moda teatral, óbvio… – André riu gostosamente.

-Sophia não me avisou, a danadinha!…

-Fui eu que pedi isso a ela, para não estragar a surpresa.

-Se eu não estivesse despreparado pode ter certeza que não me enganaria com suas ilusões, seu safado! Só deu certo porque me pegou desprevenido! Vamos, entre no carro. No caminho até a chácara de Sophia a gente coloca a conversa em dia…

-Sim, vamos!

Na chácara, Sophia colocou André a parte dos últimos acontecimentos referentes à Neculai. Por enquanto ele estava detido, mas não dava para saber quanto tempo isso ia durar. Havia seus simpatizantes, que já eram uma multidão. O dom de André, refinado por décadas, poderia ser útil.

Sophia sabia que todo vampiro possuía o dom da ilusão, que usa para fascinar presas, enganá-las, surpreender… Ela mesma já dominava esse dom comum com naturalidade. André Figueiredo, no entanto, foi muito além! Desenvolveu esse dom de tal maneira que era capaz de criar ilusões extremamente realistas até para outros vampiros! Suas ilusões incluíam diversos sentidos ao mesmo tempo, então os atingidos viam, ouviam, sentiam cheiros e até o tato era enganado. Ilusão coletiva era sua especialidade. Ele até mesmo se divertia com essa capacidade, usando-a para compor os espetáculos de sua persona artística Andros Conti, mais conhecido pelos humanos como Arlequim Negro, um exótico ator mundialmente famoso.

Rose estava no local combinado na mensagem. Um descampado no fim da cidade. Estranhou que Simone a tivesse enviado, afinal, ela não tinha seu número. Muito menos elas se conheciam. Tudo o que tinham em comum era serem aliadas de Neculai. Viu-a chegar com estranha expressão…

  • Qual é o assunto? Onde ele está?
  • Eu não sei onde Neculai se encontra. Ele sumiu desde uma semana, eu acho. Olha, não quero ser mal educada, mas não mandei mensagem alguma. O meu número é completamente diferente. Agora: o que você quer comigo? Tem informações? – Simone assustou-se.

  • Eu também não enviei mensagem alguma – disse Rose olhando o celular. Será que alguém havia armado para que elas estivessem ali? Quem poderia ter sido e por quê?

De repente, um gigantesco bando de corvos voou violenta e rapidamente em cima das duas. Rose e Simone correram como se daquilo dependesse suas vidas. E de fato dependia. A corrida, no entanto, não foi suficiente para evitar as fortes bicadas dos pássaros de plumas negras. Incontáveis cortes surgiram nos corpos das duas, especialmente nas mãos, pois elas tentavam em vão espantar os bichos. Bolsas, livros, telefones e qualquer outra coisa carregável se perderam pelo caminho.

Após um inominável horror e muitos gritos, as duas enfim caíram ao chão. Estavam com as roupas em trapos e seriamente feridas. Rose estava cega de um olho e pedaços de pele caíam pelo chão. Simone tinha perdido pedaços do couro cabeludo e os ombros apresentavam lacerações horrendas. Olharam para cima. Os corvos continuavam voando em volta.

  • Esse é o resultado das ações de ambas. Isso é o que vocês ganham por serem aliadas dele – uma voz de homem se fez ouvir no meio daquele deserto.
  • Qual é o seu objetivo?! Você sabe o que Neculai fará quando saber disso?! – berrou Rose com toda a fúria.

  • Este número está impossibilitado de receber esse tipo de chamada nesse momento – disse ele de volta com escárnio.

  • Foi você quem matou Helena, Karina e Deise? – Simone havia sabido dos fatos por fonte secreta. Tinha sido aconselhada a ficar fora de circulação. Recordou-se de uma voz feminina que dizia ter sido enviada para protegê-la.

  • Não, os meus alvos são vocês duas – ele apareceu do meio da revoada como se fosse parte dela. Um corvo estava delicada e eretamente pousado no antebraço coberto por uma luva.

  • Simone, que conhecia História o suficiente para reconhecer quando via uma figura histórica, gritou a plenos pulmões, já em pé: – Você é um assassino pior que Neculai, señor Roca! Quando ele voltar, dará um jeito em você e nesses seus bichos fedorentos! Seu…

    Rose, também em pé, muito desesperada, segurou-a firmemente para fazê-la parar de falar: – Se você continuar, nós iremos morrer! Pelo amor de Deus, cala a boca!

    Julio Argentino Roca nada disse em resposta. Isso não queria dizer, porém, que ele ficaria calado ouvindo seus amigos serem insultados. Os corvos, e outros animais, tinham sido sua única companhia por trinta anos. Quando nenhum vampiro, humano ou qualquer outro o queria por perto. Os amigos que o ouviam e o consolavam de sua tristeza e seus arrependimentos da vida anterior. Não seria um verme miserável como ela que levantaria a voz para seus garotos. E menos ainda um vampiro como Neculai a plantar caos nesse mundo já caótico. Apontou vagarosamente a mão para Simone. Deu um violento grasnado, sinalizando que eles dessem fim àquela maldita.

    Os gritos duraram pelo menos meia hora até cessarem de uma vez. Os corvos atacaram Simone até deixarem-na como um monte de carne morta e sangrenta. Julio apenas lamentou que não pôde alimentar-se dela enquanto acarinhava o corvo Julito, pousado no mesmo lugar: – Teria sido uma excelente refeição se essa vadia da Simone não insultasse vocês, meus queridinhos. Vocês sabem que o papai ama vocês, sim?

    Rose só conseguiu assistir, completamente petrificada, a mulher ser cruelmente assassinada na sua frente. O horrendo grasnado ficaria gravado em sua memória por toda a vida. Isso se ela vivesse alguma coisa, considerando o modo como era olhada: – Não vou durar muito, vou?

    • Considerando que você não pretende desfazer seu laço com Neculai, não posso permitir que você dure mais tempo. Posso, no entanto, te dar uma morte rápida e indolor – respondeu ele sério.
  • Pois então, ouça bem minhas últimas palavras, senhor Roca: esteja pronto para quando Neculai regressar. Ele não terá piedade alguma de vocês por estarem destruindo o sonho dele de fazer um mundo melhor. Vocês vão pagar caro – disse ela tentando enfrentar o fim com dignidade.

  • Me comove a sua crença em tal coisa. E eu a compreendo – disse ele aproximando-se e abraçando-a. Rose chorou apoiando-se nele. Sentiu quando foi mordida. Viu sua vida sendo sugada. Apenas quando ela finalmente abraçou o vazio escuro da morte, um grito se fez no local. Julio reconheceu quem tinha vindo…

  • Chegou tarde demais, Víbora.

  • Isso explica porque não achei o rastro de Simone e Rose. O odor desses bichos acaba com qualquer olfato! – exclamou ele furioso, pronto para atacar. Saúl Salinas, no entanto, sabia que não venceria um duelo contra Roca. As chances eram de uma em mil.

  • Aconselho você a ir embora imediatamente ou você vai ser o próximo a tomar bicadas. E não estou disposto a ter piedade de quem estiver do lado do Neculai – disse ele gravemente apontando os cadáveres.

  • Eu estava tentando achar as duas para limpar a mente delas! Você acha que eu sou tão burro de me aliar com esse monstro?! – gritou Salinas para depois dizer: – O Igor me disse para tentar resolver isso de forma pacífica.

  • Você como sempre tentando ir pelo lado mais difícil. Não te cansa? – Roca o olhou com expressão de dúvida.

  • Vindo de um genocida filho da puta igual a você, eu não estou surpreso – respondeu o Víbora com desprezo.

  • Julio não respondeu de imediato. Nem grasnou furioso. Apenas virou-se de costas dizendo alguns minutos depois: – Você não sabe como dói viver com esse arrependimento. Não tem ideia de como eu me sinto todos os dias. De como eu queria ser capaz de regressar no tempo e fazer diferente. De quantas coisas eu gostaria de ser capaz de mudar.

    • Isso não muda os fatos. Você vai ser sempre lembrado como uma das piores pessoas que já pisou nesse mundo – Salinas olhou-o com gravidade e depois disse: – Você deveria deixar o Julito ir de uma vez. Ficar com o espírito do seu filho preso no corpo de um corvo não vai fazê-lo regressar dos mortos.
  • Enquanto eu não achar o desgraçado que o matou definitivamente, sem chance – Julio desesperou-se ao se lembrar de quando havia transmutado o filho. E de como algum miserável tinha atravessado um chuço de ferro no coração e decepado a cabeça do seu menino antes que ele pudesse voltar.

  • Salinas suspirou sem entender como Roca aguentava aquela situação. Apenas esperava que algum dia ele pudesse ser feliz.

    Sophia tinha recebido o reporte das duas mortes recentes não fazia muito. Embora já estivesse acostumada com o fato de matar, não pôde deixar de ficar horrorizada…

    • Um trabalho limpo seria o suficiente.
  • Aquela desgraçada da Simone teve a coragem de insultar os meus amigos. Não admito esse tipo de conduta – respondeu Roca muito sério. Klaus e Ronaldo apenas o observam sem esboçar reação alguma. Para o vampiro ali presente junto de um corvo, era sinal de de que não gostavam dele. E sequer olhavam para os incontáveis corvos que voavam em volta do prédio.

  • Apesar de não ter sido necessário você vir, agradeço por vir reportar pessoalmente – respondeu a presidente da Cross.

  • Não vim somente reportar. Descobri uma coisa muito séria que pode interessá-los. Parece que alguns grandões europeus estão resolvendo se meter aonde não devem. Querem garantir a sobrevivência de Neculai e estão enviando espiões para proteger os aliados dele. Uma delas sendo Susana Brancov. Eu duvido que com essa aí por perto a missão vai ser de fato fácil – Roca respondeu com pouco entusiasmo.

  • Eu não queria acreditar nas suas palavras, mas lamentavelmente eu creio – disse Klaus nervoso.

  • Ronaldo, por sua vez disse: – Considerando que esse monstro tentou matar a Sophia ano passado, eu não duvido que ela vá fazer uma segunda tentativa. Se nós considerarmos que ela está informada da situação atual, tudo é possível.

    • Caso algum dos dois esteja se perguntando o motivo dos grandões quererem confusão, o motivo é claro: eles decerto querem usar o Neculai como distração pra evitar que os reais planos deles sejam descobertos – disse Julio sério.
  • E quais seriam esses planos? – Klaus não entendia porque razão os poderosos da Europa iriam querer algo com a América Latina.

  • Não sei de modo exato, mas eles envolvem Leopoldo Belmondo e uma mina de rubi escarlate escondida na região de Santa Fé. Por algum motivo, nenhuma magia conseguiu eliminar o elemento desse local. Acho que vocês sabem do que eu falo, não é? – o vampiro os observava atentamente.

  • Sophia e Klaus repentinamente recordaram sobre terem ouvido falar daquele misterioso elemento mineral. Segundo comentários, ele era capaz de aumentar em dez vezes o poder de um vampiro. Esse tinha sido o motivo para as bruxas terem destruído todas as minas em redor do mundo. No entanto, eles e as bruxas não compreendiam o motivo pelo qual a mina de Santa Fé estava ainda intacta. Mesmo com todo o tipo de magia sendo usada para tentar eliminá-la. Ela, porém, tinha sido selada por Felicia Morresi para evitar o acesso por qualquer um que fosse, incluindo o próprio vampiro-prior da região do Rio da Prata.

    • Essa gente não tem limites, que saco! – exclamou a vampira, enfezada.
  • Um dos poucos mandatários vampiros de lá que de fato presta é o Malthus. Ele tem feito o que pode, mas também não faz milagre – Roca sorriu levemente, mas fechou a cara em seguida.

  • Agora sim é que nós vamos ter problemas mesmo. Embora nós saibamos como lidar com Susana Brancov, isso não é tão fácil. Considerando que ela nasceu com a condição de súcubo graças à mente doentia de alguns do governo russo de antigamente, lidar com ela é mais complicado do que deveria. E olha que sou um vampiro veterano – disse Klaus com fúria, para o horror de Ronaldo e a dúvida de Roca. Ambos não compreenderam aquelas palavras.

  • Eu e o Klaus descobrimos isso logo depois que Susana tentou me matar. Só não morri porque ele chegou a tempo de evitar que ela me enfiasse uma lâmina pescoço adentro. Fiquei dias sem imaginar como ela tinha entrado na chácara até que alguns informantes nossos vieram com essa história – suspirou Sophia para depois dizer: – O Projeto Succubus, criado anos depois do começo do comunismo pelo que viria a ser a KGB.

  • Você não tá dizendo que algum maluco implantou alguma coisa no corpo da mãe dessa aí e…? – Ronaldo horrorizou-se só de imaginar.

  • Não sabemos muito dos detalhes porque o projeto foi cancelado e arquivado, mas sabemos que teve pelo menos um fruto bem sucedido: Susana Brancov, a Armadeira. “Viúva Negra” seria óbvio demais – Klaus enfezou-se ao lembrar-se do ocorrido no ano anterior. Com certeza tinha sido coisa encomendada por Angelina. Que só Deus sabia onde andava. Afinal, a desgraçada estava sumida há mais de anos sem dar notícia. Na certa armando algum novo plano para tomar a Cross para si. E claro, vingar-se de Sophia. Covarde feito ela, só uma doppelgänger. O vampiro loiro quase quebrou a mesa com um soco só de pensar naquilo. Ela ainda iria pagar por aquilo, com certeza iria. Ou ele não se chamava Klaus.

  • E ainda tem gente que acredita que comunismo é coisa boa. Esse pessoal tem parafuso solto – Roca enojou-se, mas logo recebeu uma resposta: – O problema não é a teoria, é a prática. Os humanos, e muitas vezes os vampiros, têm por hábito deturpar as coisas ao seu bel prazer. É o que Neculai tem feito. Ele está voltando a vontade das pessoas contra elas com o objetivo de dominar o mundo.

  • Julio Roca teve de admitir que a vampira estava certa. Era uma “rookie” das mais inteligentes. Embora tivesse pouco mais de quinze anos como imortal, ela sabia muito. E parecia sempre disposta a descobrir mais. Sophia era fantástica. E pensar que a vida anterior tinha sido horrível. Fazer um aborto. Virar prostituta se arriscando todas as noites. De repente, ser agraciada com a imortalidade. Superar o choque inicial de uma maneira fantástica. Realmente, ela era muito melhor que ele. Sorriu pensando que queria ser alguém ainda melhor.

    Depois da saída de Julio e a dispersão dos seus corvos, Klaus se virou para Sophia e indagou:

    -Algo nesse cara me dá arrepios… Acha mesmo que ele é confiável?

    -Sim, Klaus. Ele pode parecer desajustado e excêntrico mesmo para a comunidade dos vampiros, mas é um incompreendido… Conhece a história dele?

    -A questão do filho? Sim, mas… – Klaus foi interrompido pelo tilintar eletrônico do telefone sobre a mesa de Sophia, que pediu silêncio com um gesto e atendeu:

    -Quem é? – a ligação vinha de um número desconhecido.

    -Elder. Só para avisar que os alvos caíram na isca. Estou sem contato visual com André, mas ficarei no perímetro para ajudar se for preciso. Desculpe, mas precisei ligar de um telefone público.

    -Ótima notícia, Elder! – Sophia ergueu os olhos para Klaus e Ronaldo, sorrindo. – Qualquer novidade avise, estarei aqui a noite toda.

    -Perfeito, Sophia! Vou assistir ao show, então.

    -André já está preparando a surpresa para Grazi e Solange, mais duas da lista.

    -Excelente! Fico só imaginando o que o nosso Arlequim Negro vai aprontar com essas duas… – comentou Klaus.

    -Ronaldo, o jatinho da Cross já está preparado. Siga para Buenos Aires e encontre o pessoal de Teresa, pois eles também estão com duas importantes figuras da nossa lista. Klaus e eu cuidaremos de reforçar a segurança da prisão de Neculai aqui. Ainda mais agora, que Julio nos alertou sobre o que pode vir da Europa.

    -Pode deixar, Sophia! – disse Ronaldo, animado com o retorno a Buenos Aires. No início, teve receio de se envolver nesse fantástico mundo dos vampiros. Mas agora, a cada nova criatura com quem mantinha contato ficava mais fascinado.

    Grazi e Solange se encontraram na porta do pequeno teatro indicado nos elegantes convites negros com letras douradas. Apesar do convite um tanto espalhafatoso, o local era extremamente discreto, não trazia nenhum cartaz ou faixa indicando o evento. Mas o endereço era aquele mesmo, sem dúvida. Foi Grazi que reconheceu Solange, por acompanhar o programa de Neculai na TV. Se aproximou:

    -Oi! Você é a Solange, não? Do programa de TV…

    Solange ajeitou o colar de pérolas falsas e olhou indecisa para a mulher de cabelos curtos à sua frente, que lhe estendia a mão e um sorriso caloroso.

    -Neculai deve ter falado de mim… Sou amiga dele e recebi um dom do nosso poderoso mestre Neculai.

    -Ah! Sim!!! – O olhar de Solange se iluminou e ela apertou a mão de Grazi. – Você é a mulher dos morcegos de energia, né?

    -Isso! E você? Já recebeu algum presente de Neculai?

    -Ainda não… – Solange baixou os olhos, constrangida. Desejava muito que Neculai lhe desse algum poder, mas ele ignorou seu pedido.

    Grazi, percebendo a gafe cometida, tentou consertar:

    -Boba, não fica assim! Quem sabe é hoje? Esse convite estranho deve ser obra dele, que adora ser enigmático. Só ele mesmo para fazer um evento fechado para seus seguidores! Neculai é o máximo!!!

    “Será?” – pensou Solange se animando. Neculai bem que seria capaz disso mesmo! Sorriu para a nova colega e foram até a entrada do local, que estava deserta apesar de estarem em cima da hora indicada no convite.

    Um estranho concierge aguardava as duas. A figura trajada inteiramente de negro usava uma delicada máscara vienense com detalhes dourados e carmim, além de um capuz de veludo também negro, fechado por um broche de pedraria que impossibilitava verem seus cabelos. Luvas de pelica negras completavam o visual andrógino e surreal. Uma voz suave e sibilante, porém ao mesmo tempo masculina, indagou:

    -Estão com seus convites, senhoras?

    Ambas estenderam os envelopes, que foram recolhidos pelo recepcionista. Após conferir, o sujeito abriu a porta com uma mesura um tanto exagerada e convidou-as a entrar.

    Elder fumava tranquilamente um cigarro na esquina e sorriu ao ver que as duas seguidoras de Neculai foram capturadas na arapuca do tal André. Conforme combinado, em cinco minutos ele se juntaria a elas.

    As duas não puderam conter o espanto! A construção discreta por fora do teatro guardava um requintado palacete vitoriano no interior! O hall de entrada era bem iluminado por um enorme lustre de cristal e poltronas bergerè estavam dispostas pelo salão em pequenos grupos. Ao fundo, cortinas vermelhas pesadas guardavam a entrada da plateia, para onde o concierge fantasiado apontou para seguirem. Ao se aproximarem, as cortinas se afastaram sozinhas e um amplo e confortável anfiteatro lotado, iluminado apenas por arandelas nas laterais, ofereceu novo espetáculo de beleza para as duas mulheres. As pessoas cochichavam educadamente na penumbra. Ficaram tão absortas admirando o local e sentindo o perfume de rosas que recendia no ambiente, que não notaram a aproximação de Elder. O vampiro tocou o ombro de Solange e ela soltou um grito, seguida por Grazi.

    -Desculpem meninas! Não quis assustar vocês… – Elder aplicou no rosto seu sorriso mais sedutor. A barba por fazer e o sobretudo de couro lhe davam um ar ao mesmo tempo cafajeste e atraente. Grazi pôs a mão sobre o peito e riu, embaraçada com a reação que tiveram.

    -Prazer! Sou Elder. Vocês devem ser Solange e Grazi, certo?

    -Como sabe?

    -Ah, foi através de Neculai, claro!… – De fato, investigando Neculai, Elder chegou até todos os seus seguidores e simpatizantes… Com essa resposta, percebeu que o rosto de ambas ficou mais tranquilo, o que era esperado.

    -Venham comigo. Sei de um lugar onde terão visão privilegiada do espetáculo!

    Enquanto seguiam pelo corredor acarpetado elas olhavam e não viam naquela multidão de pessoas ninguém conhecido. Elder as levou para um ponto bem no meio da quarta fileira onde, apesar da visão ser ótima, haviam três poltronas livres. Assim que sentaram, as luzes remanescentes se apagaram deixando o anfiteatro na completa escuridão.

    Um violino lamentoso soltava acordes na escuridão, enquanto as cortinas do palco se abriam. Várias figuras vestidas como o sujeito da entrada se balançavam lentamente ao som da música, enquanto uma estrutura de madeira toda trabalhada se erguia no centro do palco. As figuras fantasiadas se afastaram para que as quatro faces da caixa se abrisse e revelasse o seu interior: Andros Conti tocando o violino que encantava a todos com seu som, vestido totalmente em tom perolado, contrastando com as vestes negras dos dançarinos, embora no mesmo estilo.

    Terminado o solo de violino, ele se adiantou até a borda do palco e indagou à plateia:

    -Reconheceram a música, meus queridos?

    -Eu sei, eu sei!!! – Grazi, extasiada com a apresentação, levantou o braço, animada. Andros ergueu o olhar para ela, sorriu e seus olhos brilharam avermelhados. Ninguém na plateia emitia um ruído sequer, todos os olhares voltados para Grazi e Solange, que novamente se sentiu constrangida e pousou a mão sobre o braço de Elder.

    -Pois então diga, senhorita! E terá uma bela surpresa!…

    -A música foi “O flautista de Hamelin”! Estou certa?

    Andros não respondeu. Apenas elevou os braços para cima e uma infinidade de pequenos globos coloridos pareceu sair de suas mãos, num festival maravilhoso de luz e cor que tirou uma exclamação da boca das duas mulheres! Os globos circulavam agitados por todo o ambiente, como bolhas de sabão impelidas por um sopro em todas as direções. Elas olhavam em todas as direções como crianças num parque e não perceberam o que ocorria na plateia. Um rumor baixo vindo das primeiras fileiras e, se olhassem com atenção, teriam visto que os olhares das pessoas adquiriram um fantasmagórico brilho avermelhado.

    -AI! – Gritou Solange – UM RATO!!! SOCORRO! – Ao seu lado, Elder soltou uma gargalhada, exibindo os caninos. Um rato grande, peludo e com ar ameaçador guinchou aos pés de Solange e tanto ela quanto Grazi subiram nas cadeiras tentando se equilibrar. Um pouco à direita outro guincho… E mais outro atrás delas… De repente, o teatro foi tomado pelo som de ratos guinchando assustadoramente! Foi quando elas perceberam: Os espectadores nas cadeiras próximas olhavam para elas com ar raivoso e soltavam guinchos como os ratos, que agora corriam pelo piso, entre as fileiras de cadeiras e saltavam na direção das duas. Então viram um senhor de óculos se contorcer e… se transformar num daqueles ratos! Na verdade, todas as pessoas à sua volta estavam virando aqueles ratos horríveis!

    Elder desapareceu. Elas se abraçaram apavoradas.

    -Vamos fugir daqui, Solange! Agora, corre!!! – por instinto Grazi liberou seu dom, gerando morcegos parecidos com os globos de luz que Andros liberou pouco antes. Isso afastou os ratos que estavam se agrupando perigosamente em volta delas e as duas tentaram alcançar a porta do anfiteatro, mas se depararam com Elder em pé em frente à saída. Ele puxou Grazi pelo braço e sem cerimônia cravou-lhe as presas, tirando dela apenas um gemido abafado. Solange olhou em volta, desesperada, sem saber para onde ir. Enquanto Grazi enfraquecia nos braços de Elder, os seus morcegos desapareciam um a um, o que permitiu que os ratos cercassem Solange e começassem a subir por suas pernas, saltar sobre seus ombros e se agarrarem em seus cabelos. Se debatendo na tentativa vã de se livrar dos ataques ela ouviu a voz de Andros:

    -Vê agora, Solange? Esse mesmo desespero que está sentindo é o que Neculai causa em suas vítimas.

    -Tira eles daqui! Aaahhh! Tira esses bichos de mim! – implorava ela, sentindo as pequenas garras arranharem sua pele e os dentes afiados morderem-na. Solange caiu e foi coberta pelos ratos que, vorazes, arrancavam pequenos nacos de sua carne, deixando-a toda ensanguentada. Andros veio calmamente pelo corredor até ela e a ergueu. Segurando-a fortemente pelos braços, abriu a boca e mostrou a Solange o destino reservado aos seguidores de Neculai: a morte.

    Após se saciarem no sangue das jovens, Elder e Andros jogaram os corpos no chão displicentemente, para que os ratos acabassem o serviço. As duas foram cobertas pelos famintos roedores, enquanto os vampiros saiam calmamente do local.

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