Neculai 1

Ela podia senti-lo tentando comunicar-se. “Não pode ser, será possível?”, pensou a mulher enquanto levantava-se de onde tranquilamente dormia minutos antes. Olhou o recipiente contendo um líquido verde-escuro. Via os reconhecíveis e adoráveis traços de Neculai contorcidos em horrível dor, chamando-a pelo carinhoso apelido que lhe dera quando ela era só um bebê: – Tongo.

  • Irmão? – ela apavorou-se ao vê-lo preso em alguma coisa que parecia uma dimensão metálica. Como ele estava ali? O que havia acontecido? O plano não estava dando certo? O menino não havia previsto muito sangue e desespero? As coisas definitivamente não estavam bem para os planos deles. Olhou para o garoto que dormia tranquilamente em uma cama instalada próxima à sua. O quarto que devia ser dele ainda estava sendo reformado.
  • Tongo? – o rapazinho repentinamente acordou.

  • Evandro, acho que você sabe os fatos, não? – perguntou ela séria.

  • Sim, eu vi o que aconteceu, Tongo! Aqueles vampiros vão matar os aliados dele. Minha vida corre perigo – respondeu ele temeroso ao que ela o abraçou: – Enquanto eu me chamar Rarotonga, ninguém vai tocar nos aliados do meu irmão. Se o Yatagarasu, aquela patrulha lixeira dele e os outros pensam que vão nos impedir, estão muito enganados!

  • Isso não vai ser nada fácil. Eles são poderosos, posso ver. Tenho medo! – exclamou o menino quase às lágrimas ao que ela disse séria olhando nos olhos dele: – O Neculai vai odiar vê-lo assim. Então engula o choro e vamos sair daqui agora mesmo. Ficaremos fora de vista por um tempo em um local seguro até eu conseguir libertá-lo.

  • Tudo bem – disse ele mais calmo. Evandro logo estava auxiliando a amiga bruxa a arrumar as coisas de que eles iriam precisar para ficarem em outro lugar.

Ela sabia, porém, que a fuga não seria fácil. Tinha certeza de que a Patrulha do Tango, junto de outros mais poderosos, já estava à procura dos aliados de Neculai para matá-los. Na opinião deles, enfraquecê-lo era essencial para eliminá-lo. Por quê? Porque cada vez mais ele estava dependendo da popularidade adquirida. E a sede de poder estava se tornando sua pior fraqueza. Rarotonga precisava achar um jeito de libertar seu irmão antes que as coisas saíssem de vez do controle. Morlock tinha confiado a Neculai a missão antes sua de subjugar os humanos à vontade dele. Tongo faria aquilo ser cumprido nem que ela precisasse mover céus e terra por tal causa. E acabaria com Leopoldo Belmondo para vingar a morte horrível de seu pai. Nunca esqueceria o dia em que segurara a cabeça decepada dele nas mãos.

Quem era, afinal, “a irmã de Neculai”? Quase nada se sabia sobre a maligna bruxa Rarotonga. Apenas que seu nome era uma “corruptela” do seu original, uma canção demoníaca cantada em honra de seu nascimento. A única coisa que a mãe entendera daquela profana canção. O cruzamento do terrível demônio Morlock com uma bruxa humana desejosa de mais poder. Que Neculai, anteriormente chamado Cecilius, comemorara sendo o primeiro após a mãe a segurá-la em seus braços. Quando, pela primeira vez, chamou-a pelo apelido que a acompanhava até hoje: Tongo.
Em dez minutos, as coisas estavam arrumadas. O suficiente para viajarem sem despertar suspeitas. Saíram da casa por um alçapão no porão, pois estavam certos de que pela porta da frente alguém tentaria pegá-los de surpresa. Andaram todo o caminho subterrâneo sem problemas. Subiram por uma passagem na parte mais isolada e escura de um parque…

  • Estamos seguros, pequeno. Logo estaremos longe daqui.

O menino nada disse, apenas assentiu apreensivo. O local estava muito escuro, mas era melhor assim, considerando que os dois agora estavam sendo procurados por meio mundo. Evandro de repente disse: – Tongo, melhor nós tomarmos cuidado. Estou certo de que alguém virá atrás da gente por aqui. Vamos sair pelo lado daquelas árvores da direita.

Ela achou melhor seguir a diretiva dele. Seria péssimo se fossem pegos. Com a ausência do irmão, era ela quem cuidava dos assuntos dele. Tinha de proteger os aliados a qualquer custo. O plano precisava dar certo de uma maneira ou outra. Evandro estava, como sempre, certo. Bem perto deles, no tronco de uma arvore, estava Tongolele, a mística tarântula mascote de Discépolo. Através dos múltiplos olhos do animal, o vampiro podia “ver” em diversas direções a partir do ponto onde a aranha estivesse. E assim que ela contornou o tronco da árvore no seu movimento lento e suave, seu olhar múltiplo capturou a imagem de Rarotonga e Evandro em fuga pelo parque escuro… Discépolo alertou Villoldo para que direcionasse o poder de seu terceiro olho…
A bruxa e o pequeno vidente caminharam por uma trilha consideravelmente longa até chegarem a uma parte desconhecida da cidade…

  • Daqui nós vamos pegar um táxi e ir para o aeroporto. Fora do país tenho amigos que podem nos ajudar.
  • Certo – respondeu o menino, estranhando não ver nada incomum por ali. Ele, no entanto, tinha esquisita sensação sobre algo estar para acontecer.

  • Rarotonga estava próxima de parar um táxi quando uma flecha a atingiu nas costas. O grito de dor apavorou Evandro, que logo se viu surpreendido por um homem de bigode: – Eu não quero matá-lo, então você vem comigo de boa vontade.
    O garoto daria uma resposta mal educada quando uma mulher aproximou-se e retirou o instrumento pontiagudo das costas dela, que desmaiou logo em seguida: – Gracias, Emiliano. O veneno vai surtir o efeito correto de deixá-la com amnésia.

    • Eu pensei… – disse o menino quando foi interrompido pela mulher: – Emiliano, você não deveria ter dito isso.

    Jamais tocaríamos em uma criança para machucá-la. E rapazinho, não se preocupe, conosco você estará seguro. Não tema.
    Evandro receou-se seriamente daqueles dois. Aquele bigodudo tinha ferido Tongo, mas não de morte. Não entendia o motivo de ela querer fazer sua amiga perder a memória. Foi quando viu pela primeira vez uma imagem do passado:

    • Você prometeu à mãe dela que a cuidaria, não é? Essa senhora redimiu-se no pouco tempo de vida que lhe restava e te fez esse pedido.
  • Promessa é dívida, Evandro. Enquanto eu viver, nada e nem ninguém tocará na Rarotonga – disse ela olhando seriamente para o “bigodudo”, que muito seriamente assentiu, ainda que contrariado…

  • Felicia, eu te entendo, mas, é melhor você deixar que o Conclave das Bruxas decida isso quando for o momento. Essa daí já fez muita coisa ruim. Só conseguimos detê-la porque o terceiro olho do Villoldo colaborou, senão ela tinha conseguido levar o vidente miniatura só Deus sabe pra onde.

  • O menino bem que tentou pensar em escapar, mas percebeu que a única chance de manter Tongo viva era indo com eles. Apenas desejava estar junto dela. A amiga bruxa tinha sido a mãe que ele não tivera a sua vida toda, pois a mulher que o botara no mundo nunca de fato cuidara dele. O mantivera preso toda a vida. Apenas agora tinha conhecido a liberdade. E o amor de uma mãe. No fim, acabou por ir com eles. Será que não mais haveria sangue e desespero? Por alguma razão, Evandro desejou que isso não mais acontecesse.
    Discretamente colocaram Rarotonga na parte traseira do carro de Emiliano, que preferiu algemá-la mesmo ela estando desacordada.

    -Melhor não facilitar com essa aí, Felicia… – disse ao notar o olhar repreensivo da amiga, que acariciava o cabelo de Evandro.

    Já no Media Luna, entregaram Rarotonga à Teresa Maldonado. Ela, por sua vez, entregou Evandro à sua assistente Soraya. Com ordem que levasse o menino para se distrair um pouco nos fundos do Media Luna e o tranquilizou sorrindo docemente: – Fique tranquilo, garoto! Sua amiga não vai ser maltratada aqui…
    Evandro olhou demoradamente para Teresa e sentiu que ela falava a verdade. Só então seguiu Soraya. Teresa se voltou para Felicia e Emiliano e comentou, quando o garoto não podia mais ouvir…

    -Mantendo Rarotonga aqui já eliminamos o pior risco de que consigam libertar Neculai. Os demais seguidores dele são todos humanos e serão dispersados como baratas quando a Patrulha e os nossos amigos da Irmandade terminarem o serviço. Aliás, já temos alguém cuidando de um dos alvos, a tal escritora.

    -Quem? – perguntou Felicia, curiosa.

    • Um velho conhecido… O senhor Newbery – respondeu Teresa para o total pavor de Felicia. Esta, porém, sabia que, embora ele fosse totalmente insano, o vampiro em questão possuía grande lealdade para com a bruxa venezuelana.

    “Solomon Grundy,
    Born on a Monday,
    Christened on Tuesday,
    Married on Wednesday,
    Took ill on Thursday,
    Grew worse on Friday,
    Died on Saturday,
    Buried on Sunday.
    This is the end
    Of Solomon Grundy.”

    Uma perturbadora sequência de batidas de sino ecoava pela rua deserta junto de uma voz claramente insana. Helena claramente ouviu a estranha rima. Quem diabos ficava fazendo aquele barulhão quase meia-noite? Só podia ser uma pessoa louca. Alguém que provavelmente vivia junto dos mendigos. Considerando que os moradores de rua geralmente eram drogados, bêbados ou mentalmente insanos, não era surpresa, No entanto, era inadmissível um mendigo doido estar fazendo todo aquele barulho exatamente na hora em que ela finalmente estava pegando no sono. Só que… desde quando gente daquele tipo falava inglês tão fluentemente? A escritora assustou-se, perdendo totalmente o sono.

    Pensou em várias possibilidades. Nenhuma delas, porém, fazia sentido. De repente, ela novamente escutou a rima, dessa vez muito mais próxima do que o desejado, como se o autor estivesse dentro de sua casa…

    • Mas que…?!

    Foi quando alguma coisa apareceu na sacada de seu quarto dos Jardins. Helena recuou apavorada, caindo da cama enleada nos lençóis. Ele era um vampiro, assim como Neculai. Os sininhos inseridos no que parecia um instrumento de segurar e bater mostravam de onde vinha aquela horrenda sinfonia. Que raios ele ali fazia? Não conseguia dizer nada. O viu adentrar seu quarto com um insano sorriso estampado no rosto. Tentou dizer algo, mas logo foi suspensa pelo pescoço tal qual uma boneca de pano e farejada feito um pedaço de carne fresca:

    • Você é a que escreverá para o tal Neculai, se eu a reconheço das fotos que me mostraram. Pois eu aceitei vir até aqui quando soube que ele pretende roubar os meus Dados do Destino que me foram dados pelo mestre D. Não vou deixar ninguém tocar nos meus preciosos. E se isso tiver que envolver matar quem está ao lado dele, eu o farei sem nem pensar.
  • Por… favor, eu… imploro – ela dizia quase sufocada. Ele, porém, não a ouviu. Um estalado “crec”, por sua vez, foi ouvido. Helena caíra morta antes mesmo de tocar o chão. Pescoço violentamente quebrado. O vampiro a olhava com um misto de ódio e repulsa. Aliados de Neculai eram mesquinhos e nojentos. Jogou o corpo contra a penteadeira com força, arrasando o espelho. Sorriu ao ver o sangue: – Vermelhinho tão lindo. Eu gosto.

  • Sophia levou aos lábios a taça, ainda pela metade, do vinho Tannat que Klaus trouxe de Buenos Aires. De excelente safra, foi um presente de Teresa para ela, que sempre encontrava um meio de demonstrar cortesia mesmo no meio daquela crise. Lembrando-se disso, Sophia riu para si mesma e ajeitou uma mecha do cabelo cacheado. Passou mais uma página do Dossiê Neculai e leu com atenção a lista de aliados:

    “Deise Day: A mais antiga aliada e chefe do fã-clube de Neculai. Uma de suas mais fiéis. Seguidora preferida. Não tem poderes, mas é muito influente.
    Karen: Cega antes de Neculai lhe restituir a visão dando-lhe um poder especial: seus olhos vermelhos podem ver fantasmas e entidades como demônios.
    Rose: estudante de Direito. Sem poderes.
    Simone: Não temos dados sobre ela, mas foi enviada para matar nosso parceiro humano Ronaldo no episódio do pacto com o desespero.
    Grazi: Recebeu de Neculai o poder de invocar morcegos coloridos de energia, que servem para ludibriar a vitima e se transformam em armas e algemas.
    Solange: Apresentadora do programa de TV. Também não tem poderes.
    Helena: Escritora convocada pelo Neculai para preparar seu livro autobiográfico – Segundo a Patrulha do Tango, já existe alguém incumbido de eliminá-la.
    Vera: Não temos dados sobre ela, mas não tem poderes. É apenas mais uma seguidora ainda inexpressiva.
    Rose: Nova advogada de Neculai. Recebeu dele o poder de ler livros rapidamente.
    Afrânio e Henrique: Não possuem poderes e foram identificados como os organizadores da passeata. Destaque: conhecem a tecnologia utilizada nos celulares do Neculai.
    Evandro: Vidente, tem apenas onze anos de idade. Já possuía a capacidade paranormal antes de ser adotado por Neculai. Neculai tem interesse especial no poder do garoto, que pode saber muitas coisas e prever armadilhas. Recomendamos atenção especial a essa criança, pois oferece perigo.”

    A caixa de prata que encerrava o aparelho onde Neculai foi enclausurado estava muito bem guardada na sede da Cross, em um cofre especial. Obviamente, porém, precisavam debelar aquele grupo de humanos, principalmente os que receberam poderes especiais do poderoso vampiro. Estes incentivavam outras pessoas a se unir ao grupo na esperança de obterem favores semelhantes. Os humanos são especialmente interesseiros e Neculai usava isso a seu favor.

    Quando o telefone tocou, Sophia quase deu um salto na poltrona! Absorta na análise do caso, toques de telefone lhe deixavam estressada ultimamente. Olhou o display e se tranquilizou ao ver que a chamada provinha de Buenos Aires…

    • Alô?
  • Olá, Sophia, minha querida! É Teresa. Acabo de receber a informação de que Helena foi eliminada e temos conosco a bruxa Rarotonga, irmã de Neculai. Também está conosco o pequeno Evandro.

  • -Ótimo. Me mantenha informada de qualquer novidade, Teresa! Farei o mesmo. Já decidi qual será nosso primeiro alvo da lista que atacaremos aqui: Deise Day e Karina, a nova vampira criada por Neculai. Quem vai cuidar delas é o Elder…

    Esguio, altivo e atento, envolto em um sobretudo de couro preto, Elder observava a casa. Por noites, observara a rotina dali e vira o entra e sai de pessoas e por algumas vezes, antes da emboscada, pôde ver Neculai conversando com uma mulher loura, a líder dos seus aliados: Deise Day. Aquela era seu alvo.
    Deise saiu carregando dois sacos pretos com lixo, abriu o portão e foi coloca-los na lixeira presa ao muro. Então notou o homem de sobretudo atravessando a rua em sua direção.

    • Boa noite, moça! – disse ele com um sorriso.
  • Boa noite – respondeu Deise um tanto insegura por ser abordada por um estranho.

  • Desculpe, mas você é a Deise Day, não? – Elder sorriu largamente.

  • Quem quer saber? – ela o olhava interrogativamente.

  • Desculpe, meu nome é Wellington. – mentiu Elder estendendo a mão, que Deise ignorou. Apesar disso, tinha achado o estranho bem atraente. Olhou-o de cima abaixo. Não pôde deixar de notar o porte elegante, o sorriso de dentes perfeitos e o rosto anguloso que lhe observava com interesse.

  • – Sou fã de Neculai e queria conversar. Creio que poderei ser útil a vocês – Elder jogava verde na tentativa de colher maduro.

    • Neculai não está aqui. Talvez se você deixar um número de celular ele entre em contato e… – Deise dizia quando foi interrompida:
  • Mas não é só Neculai que me interessa. Será que eu poderia ter a honra de entrar e te conhecer melhor?

  • Deise ficou ruborizada com a cantada. Acabou se rendendo, afinal o sujeito era muito atraente. E ela sempre teve um fraco por homens altos e másculos. Com um sorriso acanhado, relaxou e cedeu:

    • Acho que não fará mal nenhum um café e um bom papo… Venha, entre!

    Os olhos de Elder brilharam ao ouvir isso. Deise foi facilmente capturada pelo seu poder de sedução vampírico e agora tudo seria mais fácil, com o caminho livre.

    • Esta é Karina, Wellington! Mas nem se engrace com ela, é de Neculai. – Deise apontou para a jovem sentada no sofá, também loura, mas com cabelos cacheados e volumosos. Karina se voltou curiosa e teve um arrepio ao ver o homem de sobretudo parado atrás de Deise. Seu instinto reconheceu a natureza de Elder imediatamente. Disse alarmada:
  • O que esse vampiro faz aqui dentro?

  • Deise se virou para Elder assustada e, antes que dissesse algo, ele se explicou:

    • Sim, sou um vampiro! Mas não farei mal a vocês, estou do seu lado! Quero fazer uma parceria com Neculai!
  • Ele mente! Se afaste dele agora, Deise! – Karina se levantou e exibiu as presas rosnando. Elder reagiu de imediato, respondendo igualmente à provocação da jovem vampira. Agarrou o braço de Deise e a puxou para si…

  • Você é uma recém nascida, fedelha! Acha que vai ser páreo para mim?
    Elder ergueu Deise como se a mulher fosse uma boneca de pano e atirou-a contra Karina. As duas caíram sobre o sofá, virando-o. Elder usou a velocidade vampírica para se posicionar junto a elas. Pegou Deise pelo cabelo, que gritou de dor. Em seguida bateu a cabeça dela com força no piso. A mulher ficou prostrada no chão desacordada. Karina, por sua vez aproveitou que Elder focou a atenção na amiga, avançando contra ele. Rasgou seu rosto com as garras afiadas feito estiletes. Embora tenha sentido a fisgada e visto o sangue escuro em seus dedos, Elder riu…

  • Pena que não vai viver o suficiente para aprender, garota! Devia ter atingido meu pescoço com essas garras, assim! – e cravou suas próprias garras no pescoço de Karina. Suas unhas pressionaram a traqueia da vampira e o sangue escorreu farto pela mão de Elder. Seu braço longo não permitia novos ataques da vampira, que agitava as mãos sem alcançar o rosto de Elder. Os riscos em seu rosto já haviam fechado por completo e ele olhava divertido para sua vítima…

  • -Necu..lai… fará você pagar… caro… por isso! – ela ameaçou com ódio no olhar. Lágrimas carmesins rolavam por sua face.

    Elder girou uma estaca na outra mão e sorriu para Karina. Em seguida, atingiu-a sem pestanejar com o objeto. E jogou-a sobre a mesa de centro com força, destruindo assim o móvel. Karina se contorcia de dor sobre os pedaços da mesinha, arrancando nervosamente pedaços da própria roupa e lascas da estaca cravada em seu peito. Soltava lamentos doloridos, sofridos, como um animal ferido mortalmente. Elder olhava friamente para a cena…

    • Engraçado. Vampiro contra vampiro. Esse é o resultado das ações desse crápula, o Neculai. Se você não fosse cria dele e não tivesse se apaixonado pelo safado, eu até podia gostar de te conhecer. Mas agora acabou sua breve aventura como vampira.

    Embora tenha evitado demonstrar, Elder teve dó dela. Não gostava de matar semelhantes, mas nesse caso não teve jeito. Era hora de cuidar de Deise. Ela ainda estava inerte no chão da sala. Estaria desacordada ou a pancada a matou? Os gemidos de Karina cessaram indicando seu fim. Os olhos da mesma miravam o vazio absoluto da morte.
    Colocando o indicador e o anular sobre o pescoço da mulher, como fazia no passado em que fora policial, Elder verificou que ela ainda tinha pulsação. O cheiro forte do sangue vampírico no ambiente atrapalhava detectar pelo olfato se Deise ainda estava viva, por isso usou o recurso. Se inclinou sobre a mulher e cheirou-a. Era bonita, embora não valesse nada, já que era uma aliada de Neculai. Apenas isso já justificava que a usasse como alimento, ainda mais que foi Elder quem investigou as atrocidades da mulher para conquistar a confiança de Neculai. Então, enterrou as presas no pescoço de Deise e sorveu o sangue com gosto. Quando ela finalmente estava morta, observou com cuidado o trabalho feito.

    Precisava queimar o corpo da agora morta Karina. E fazer a morte de Deise Day parecer obra de outra coisa. Discretamente arrastou os cadáveres para os fundos e cuidadosamente fez ambas as coisas. Primeiro usando um isqueiro. E depois as garras para causar ferimentos no pescoço que parecessem obra de uma navalha. Elder não imaginava, mas Neculai, preso naquela caixa prateada, sentia o que estava acontecendo. Seus gritos ensurdecedores não eram ouvidos por nada e nem ninguém. Tinha enorme raiva de quem estava matando seus aliados. Se pudesse sair dali, os fatiaria como pedaços de bife. Ninguém faria aquelas atrocidades contra ele e sairia ileso. Yatagarasu e todos os outros pagariam caro. Jamais machucariam o poderoso Neculai e sairiam imunes.

    Sophia, por sua vez, podia não ouvir, mas sabia da raiva dele. Vampiros eram capazes de sentir tais coisas. Intensificou a luz prateada do cofre com um botão do controle remoto. Isso o deixaria muito fraco até mesmo para gritar os possíveis incontáveis impropérios. Ficou mais aliviada quando a sensação ruim parou.
    Ela sabia, porém, que nem todos estavam dispostos a concordar com a execução de Neculai.

    Anúncios