voltei

Mesmo com todas as luzes apagadas, a suave penumbra causada pela iluminação que vinha de fora permitia que eu percebesse o volume e o contorno dos móveis. Passei a mão pelo aconchegante tecido das cadeiras, pelo verniz do aparador, pelo alumínio frio e leve da escultura que fiz para presentear Sônia no nosso décimo aniversário de casamento. Ela sempre exibiu com orgulho essa peça sobre o aparador e eu jamais a retiraria dali… Os pingentes do lustre sobre a mesa de jantar cintilam e fazem um tilintar que lembra música. Afaguei as cortinas de renda macia e frágil, que oscilavam levemente com a brisa da madrugada. Toquei a tampa lapidada da licoreira de cristal que, junto com as pequenas taças também lapidadas, ficaram repousando sobre a bandeja de prata na mesinha redonda de mogno entre as duas poltronas de couro onde sempre conversamos, namoramos e apreciamos aquele caro licor. – Saudade? – Sim, claro!… Tudo em casa me faz lembrar o quanto sempre amei Sônia, e estou ansioso pela chegada dela, que não deve tardar…

Olho de novo para a licoreira e lembro do sabor marcante… Tomamos daquele licor dois dias antes dela viajar e agora estou aqui insone aguardando a volta dela. Talvez ela queira apreciar uma taça, se não estiver muito cansada da viagem…

Finalmente ouço o som do carro entrando na garagem. É ela! Olho pela janela e a vejo descer, abrir o porta-malas e retirar sua bagagem. Desajeitada, entra e sobe direto a escada da sala para se livrar do peso excessivo das malas, sem perceber minha presença no escuro da sala de jantar. Esperei um pouco, apreciando a bela lua cheia que dava para ver pela janela, e subi pouco depois. Deixei a surpresa que preparei para ela na poltrona.

Ela já estava no banho. Parei na soleira da porta de nossa suíte e aguardei, trazendo uma taça com licor na mão, que ela saísse de seu reconfortante banho. É sempre muito gostoso e repousante tomar um bom banho quente tão logo chegamos em casa depois de uma viagem estafante, não? – Ela merecia esse prazer, pensei. Decidi deixar a taça com licor sobre o criado mudo e me sentei na cama, esperando pacientemente que Sônia terminasse seu banho. Aspirei o cheiro de alfazema que chegava ao quarto, trazido pelo vapor quente que escapava sorrateiro pelas frestas da porta do nosso banheiro. Ouvi o ranger do registro sendo fechado e o som da água ser interrompido. Mais um instante de espera e Sônia saiu do banheiro, a pele morna e úmida, cheirosa e macia como sempre gostei, enrolada numa toalha felpuda azul marinho. Com outra toalha ela secava os cabelos e não notou de imediato que eu estava ali.

Me aproveitei disso e a surpreendi, agarrando-a por trás e tapando sua boca com a mão fria, isso impediu que ela gritasse, mas ela tentou se desvencilhar. Agarrei fortemente sua cintura e a puxei para a cama, derrubando o abajur sobre o criado, mas consegui manter a mão sobre a boca dela, que se debatia assustada. Com uma bofetada a fiz se aquietar e perceber que não seria páreo para mim. Infelizmente, com a força que apliquei, um fino fio de sangue escorreu pelo canto de sua linda boca, maculando aquele rosto angelical que agora me fitava de olhos arregalados.

-É… im-impossível! – ela balbuciou, atônita, ao perceber que era eu o seu atacante.

-Não, não é, Sônia. EU VOLTEI, cadela! Só para te fazer pagar o que fez comigo! – falei, prendendo seu corpo sobre a cama com o meu e apertando seus punhos. Aproximei meu rosto do dela, que gemeu e virou para o lado, apertando os olhos. Continuei:

-Você pensou que seria fácil, não? Me servir aquela taça de licor com veneno e se livrar de mim, para ficar com tudo e aproveitar a vida com Felipe, seu amante. Vagabunda… – sibilei a última palavra bem perto de seu ouvido e sei que ela sentiu meu hálito fedorento, pela expressão em seu rosto. – Não devo estar muito agradável, certo? Mas o que esperar de um corpo que ficou quase uma semana enterrado? O que me consola é que os mesmos vermes que agora me corroem por dentro em breve vão se banquetear com você, sua puta!…

Puxei violentamente seu braço e o prendi com a perna, para pegar seu rosto e forçá-la a me encarar. Meus olhos estavam fundos nas órbitas arroxeadas, minha pele pálida e o cabelo sujos de terra, a roupa também. Aquela sacana me vestiu o terno do casamento para me enterrar! Devia ter mandado cremar meu corpo, como eu queria que fosse feito quando estava vivo! Ainda bem que nem esse desejo meu ela atendeu, senão ela e aquele cachorro estariam livres para torrar minha fortuna agora!

Soltei seu rosto apavorado e estendi a mão até o criado, pegando a pequena taça de cristal lapidado cheia do líquido avermelhado – o mesmo licor que ela me serviu dias atrás, sensualmente.

-BEBA! – mandei.

-N-Não! Por fav… hummf!…- Forcei a taça em seus lábios obrigando-a a ingerir o licor envenenado. Ela devia morrer igual a mim. Precisava sentir aquele ardor por dentro, a falta de ar, a paralisia… A mesma morte lenta e sofrida que me causou. Só assim eu estaria vingado!

-Só mais uma coisa, minha querida… Na mesma poltrona onde me deixou agonizando está agora o seu adorado Felipe, com a garganta cortada e alguns buracos extras pelo corpo. Preciso te dizer que o covarde se urinou todo quando dei a primeira estocada… – Os olhos dela estavam vidrados e eu sentia as contrações de seu estômago, tentando expulsar o veneno. Esperei sua respiração ficar entrecortada e me levantei. Ela tremia sobre a cama, nua e soluçando. Tentou levar a mão à garganta exatamente como eu fiz quando a senti se fechar por causa do veneno. Fiquei de pé ao lado dela, impassível, da mesma forma como ela ficou me olhando enquanto eu morria…

Só saí de perto quando tive certeza que ela estava morta. Então olhei em volta, um último olhar naquele quarto requintado onde fiz amor tantas vezes com ela. Saí e caminhei devagar pelo corredor escuro, deslizando a mão pela textura do papel de parede inglês, sujando o piso encerado ainda mais com minhas pegadas de terra que a polícia certamente teria dificuldade em explicar quando encontrasse os corpos… Desci as escadas e dei também uma última olhada no quadro onde ela e eu estávamos sorridentes. Passei a mão pelo tecido aveludado e aconchegante do sofá e arrastei meus pés nus pelo tapete felpudo… – Saudade? – Sim, claro!… Tudo em casa me fazia lembrar o quanto sempre amei Sônia, e fiquei ansioso pela chegada dela, para me VINGAR!…

Saí da casa deixando a porta escancarada e voltei para o meu túmulo…Nada ali me importava mais.

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