50-TONS-CINZA

ATENÇÃO! – ANTES DE LER ESSE CONTO, LEIA A PARTE I CLICANDO AQUI!

A casa na colina já era propriedade do Dr. Richard, herdada do pai, mas não era tão grande ainda. Bastante afastada da cidade, seria o local adequado para que fizesse suas experiências. Ele recolheu o que pode do sangue escuro coagulado do vampiro em um pote. Por sorte seu carro era grande, uma perua VW. Colocou Caroline, que parecia em coma, no banco da frente. Os restos da criatura foram depostos na parte de trás, que com os bancos rebatidos ficava com amplo espaço para carga. Deixou na porta da clínica um aviso aos funcionários: Teriam a sexta feira de folga.

Durante todo o fim de semana experimentou o que pode do processo. Manteve Carolina sedada e fazia cortes no corpo da moça com o bisturi, que se fechavam como por encanto sem deixar cicatrizes. Fez também alguns cortes em si mesmo e verificou novamente que o sangue do vampiro era inútil, mas que o de Caroline operava o milagre. O seu milagre… Richard ficou tão excitado com as possibilidades que se empolgou, fazendo extensos cortes em Caroline! Demoravam um pouco mais, mas também esses sumiam! Percebeu que Caroline era, a partir de então, sua fonte inesgotável daquele poder mágico. Precisava mantê-la ali, e foi o que fez…

Caroline passou a ser mantida, à base de sedativos potentes, num estado letárgico e presa a uma cama. A transformação acidental da jovem em vampira não se consolidou completamente, talvez pela forma como ocorreu, mas Richard a alimentava periodicamente com seu próprio sangue, em pequenas quantidades. Isso a mantinha viva porém sem forças para reagir.

No mundo lá fora o Dr. Richard conquistou uma fama meteórica! Os colegas invejavam e desejavam conhecer sua técnica inovadora; a clientela ficava fascinada com os resultados de suas operações que não deixavam cicatrizes. Em questão de meses seu nome transpôs fronteiras e vinham clientes abastados de todo o mundo para serem operados pelas mãos mágicas do Dr. Richard, que por sua vez mantinha distância da mídia e não revelava nunca seu segredo tão bem guardado.

A casa da colina foi ampliada, se transformando na imensa mansão em estilo mediterrâneo. O cômodo onde Richard mantinha Caroline ficava trancado e nenhum dos operários podia ter acesso àquela parte da casa. Um quarto discreto foi construído na ala oposta e Caroline foi transferida para lá tão logo as obras terminaram. Só depois a parte antiga foi liberada para continuarem a construção, e assim o refúgio do agora mundialmente famoso e excêntrico cirurgião ficou completo e seguro…

 

Voltemos ao dia de hoje…

Richard se observava no grande espelho do closet, satisfeito com o resultado. Faltava apenas um detalhe: suas abotoaduras de ouro branco e brilhantes. A música de Brahms ainda inundava o ambiente com suas notas arrojadas, mas repentinamente foram interrompidas. Irritado, Richard saiu do closet para verificar a central de som ao lado da cama. – “Não acredito que essa porcaria já vai dar defeito em tão pouco tempo! Paguei um absurdo por ela!” – pensava enquanto fechava a abotoadura em um dos punhos. Mas estacou surpreso no vão que separava o closet do quarto, ao se deparar com a figura esguia e nua da mulher em pé ao lado da cama com o controle remoto na mão! Ela olhou curiosa para ele, estudando-o de cima abaixo, antes de expor com uma dura expressão no rosto a sua raiva. Cínica, disse:

-Vejo que você está muito bem, Doutor Richard!… Mas eu em breve vou estar também. – Caroline jogou o controle do som sobre a cama e caminhou na direção de Richard, com um charme perigoso no andar. Estava extremamente pálida, porém conservava algo da beleza de antes. Os seios firmes, a boca carnuda, os quadris estreitos mas não em demasia, a despeito da magreza evidente. Mas os olhos, outrora verdes, tinham agora um brilho avermelhado ameaçador, as unhas extremamente longas e o cabelo antes tão bem cuidado, se apresentava desgrenhado e pesado. Caroline sorriu exibindo as presas.

-Você deve estar imaginando como saí daquela cela ordinária em que me deixou mofando, não, querido? Simples… Nunca confie em empregados. Eles SEMPRE são curiosos… Falando nisso, precisaremos contratar outra diarista. A antiga descobriu seu segredo e me ajudou soltando aquelas correias de couro horrorosas que me prendiam na cama. Só que eu estava FAMINTA e não pude evitar de, digamos, abusar da bondade da coitada…

Richard deu um passo para trás, nauseado com o cheiro que vinha de Caroline. Ela emitiu um rosnado baixo.

-Você não… está… entendendo! Vamos conversar, Carol…

-Quem não está entendendo nada aqui é você, desgraçado! – Ela gritou. – Eu era apaixonada por você, faria qualquer coisa que me pedisse… Mas, você! Você não foi leal comigo! Apenas me usou todo esse tempo! E não satisfeito em me deixar DOPADA naquele lugar, retirando meu sangue aos poucos, ainda me usava como objeto sexual! Seu pervertido desgraçado! Pensa que eu não SENTIA você me usando?

-Eu… posso explicar! Me dê uma…

-Chance? Você quer uma chance? E por acaso você me deu alguma? Eu te amei tanto!…

-Não me mate, Caroline! Posso consertar isso tudo! Nós podemos…

-Não existe nós, Richard! EU vou consertar isso agora, aqui! Mas não vou te matar… Você não merece a morte.

Dito isso, Caroline saltou sobre Richard como uma pantera, cravando as unhas em seu rosto e derrubando-o no parquet do closet. Sentada sobre ele, deu-lhe diversas bofetadas até deixá-lo desacordado.

A cabeça de Richard latejava e ele se sentia fraco quando acordou. Seu corpo todo doía mas a consciência aos poucos voltava e ele viu uma mancha difusa sobre ele se tornar pouco a pouco o rosto de Caroline…

-Que bom que acordou, querido! Tomei a liberdade de usar sua suíte… Que banho delicioso aquela ducha oferece! Estava precisando MUITO MESMO de um banho daqueles!…

Ela ainda estava nua, mas parecia mais saudável. E estava perfumada. Um perfume masculino, cítrico e amadeirado, o preferido de Richard. Ele tentou se erguer e percebeu então onde estava! O quarto… Preso na mesma cama onde manteve Caroline. Ela deslizou suavemente a mão pelo seu rosto e acariciou com as unhas o peito de Richard, que tentou se esquivar inutilmente.

-Viu? Não te matei… Isso seria bom demais pra você. – ela riu, satisfeita, e deu-lhe um beijo no rosto – Vou mantê-lo vivo aqui, assim como fez comigo, e vou me alimentar de seu sangue, até que não me seja mais útil.

Richard viu, horrorizado, que Caroline tinha nas mãos uma seringa. Sentiu a fisgada na veia e seu corpo relaxou rapidamente. Antes que tudo se apagasse, a viu saindo do quarto e fechando a porta.

 

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