cirurgia-plastica 1

A sinfonia No.4 de Brahms ecoava no caro sistema de som ambiente de alta fidelidade que Dr. Richard mandou instalar recentemente na suíte master da casa. Aquele cômodo amplo, decorado de forma minimalista, elegante e requintada era seu casulo. Encravado na ala oeste da parte superior da enorme mansão, dava acesso a um terraço particular visto pela parede totalmente envidraçada que permitia também a visão do pôr do sol, do céu noturno, das colinas e da mata que se estendia além dos domínios de sua morada.

Além das notas orquestradas genialmente pelo compositor alemão do século XIX, ouvia-se o som da água quente do chuveiro. Dr. Richard acordava todos os dias pontualmente às cinco, ainda nu abria as cortinas para apreciar o clarear do dia sobre a silhueta da paisagem e seguia para seu banho revigorante, invariavelmente ao som de música clássica. Brahms era seu compositor favorito. Depois vinha Wagner. Ao chegar do trabalho no fim do dia, ele novamente abria as cortinas, se despia e ia banhar-se antes de jantar, antes de dormir verificava seu tesouro particular, como se fosse um ritual diário. Mas não naquela noite.

Enrolado em uma de suas toalhas brancas (outra mania…) ele olhava para o imenso armário do closet, indeciso sobre que roupas usar. Acabou optando por uma camisa cor de chumbo Bottega Veneta e um dos ternos Saville Row, cinza claro. Sapatos Heschung bicolores combinariam perfeitamente, então ele os separou em seguida. Bom gosto na composição da imagem era tudo, segundo sua concepção de vida. Não era à toa que fora eleito um dos homens mais elegantes do país no ano anterior, mas esse não era o título que lhe importava na verdade. O de melhor cirurgião plástico do mundo, sim. E naquela noite receberia uma homenagem com este tão cobiçado título… Os membros da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica porém ignoravam como ele chegou tão rápido ao topo de sua carreira.

Dois anos antes…

A clínica no bairro do Brooklin era reconhecida no mercado e no meio profissional como uma das mais conceituadas do estado. Dr. Richard continuava a trajetória do pai, um cirurgião plástico respeitado e influente, já falecido. E ele era o orgulho do velho homem, o único filho que quis seguir seus passos. Richard nunca imaginou que poderia ir tão longe como iria e muito menos os meios que o levariam lá… Aquela distante tarde que se findava separaria o resto de sua vida do que ela foi antes.

Caroline, sua secretária particular e amante, já tinha terminado de conferir a agenda do dia seguinte. O atendimento encerrara pontualmente às dezessete e trinta, a clínica estava fechada, todos os demais funcionários já tinham ido embora. Richard estudava uns casos em sua sala e Caroline desligou o computador da recepção, ajeitou o vestido curto e foi até o bebedouro pegar um pouco de água. Passava um pouco das dezenove horas. Dentro de instantes ela e Richard pretendiam ir para um motel, como faziam quase todas as quintas feiras. Enquanto enchia o copo com água gelada, ela ouviu um som vindo da cozinha, pois a clínica era instalada numa casa pertencente à família de Richard.

Intrigada, ficou atenta, mas nenhum barulho tornou a ser ouvido. Ela deixou o copo com água sobre a mesa e resolveu verificar. “Será que deixaram a janela aberta e um gato entrou aqui?” – pensou. Se aproximou do arco que separava a cozinha do restante e observou… Nada. A cozinha estava na penumbra e o interruptor ficava na parede oposta, perto da porta que dava acesso à área atrás da casa. Apreensiva, Caroline atravessou a cozinha contornando a pequena mesa de refeições para acender a luz. Antes que tocasse no interruptor foi surpreendida por uma mão enluvada que agarrou seu braço por trás, enquanto outra cobria sua boca rapidamente, não lhe dando chance de gritar. “UM ASSALTO!” – pensou.

Imediatamente, o suposto assaltante a imobilizou por trás e tocou seu rosto no dela, que se arrepiou inteira, tão fria era a pele dele. Apavorada, sentiu seu hálito fétido quando ele deu uma risada baixa, quase sussurrada em seu ouvido. Era um vulto apenas, ela não podia ver seu rosto na penumbra da cozinha mas sentiu a pele áspera. Gemeu enojada quando ele passou a língua no lóbulo de sua orelha. Em seguida, ele mordeu seu brinco (um presente de Richard) e pressionou mais forte ainda a mão sobre sua boca… Então arrancou com um puxão violento a peça de ouro, rasgando a orelha de Caroline, que estremeceu de dor e chorou, sentindo as pernas fraquejarem. O grito que ela soltaria se estivesse com a boca livre se transformou num gemido abafado pela mão firme do sádico assassino, e a jovem teve a certeza de que chegou sua hora!

Ela sentiu seu sangue escorrer pelo pescoço e o homem disse baixinho:

-Não grite, vamos curtir esse momento… – e novamente deslizou o rosto contra a face de Caroline, que tremia de medo, aversão e até raiva. Foi essa raiva que a fez, instintivamente, tentar golpeá-lo com um pé quando ele lambeu o sangue quente que minava da orelha ferida. Sem sucesso, pois o monstro parecia não sentir dor e riu de seu esforço inútil, cravando-lhe presas afiadas no pescoço para finalizar seu intento. Ele sentia prazer em torturar suas vítimas, mas precisava se alimentar. Porém os chutes de Caroline acabaram acertando uma das cadeiras, que caiu com um estrondo, enquanto o vampiro se inebriava com o sangue quente que sorvia ferozmente. No seu afã de saciar-se, afrouxou a mão que cobria a boca da jovem e Caroline deu um gemido alto, lamentoso.

Richard saíra da sala e olhou a recepção vazia, notando o copo com água que Caroline deixara sobre a mesa. Quando ouviu o barulho da cadeira vindo da cozinha e o som do gemido de Caroline, percebeu que algo de errado estava acontecendo! Olhou em volta e não viu nada que pudesse usar como arma, então percebeu o abridor de cartas em forma de adaga, uma peça antiga de prata que fora de seu pai, sobre a mesa. Pegou-o rapidamente e seguiu para a cozinha, mas o que viu ao chegar foi impactante. Caroline jazia nos braços do vampiro com um dos braços pendente e inerte, enquanto a criatura, de costas para Richard, ainda bebia o néctar precioso de sua carótida. Richard não teve dúvidas: aquilo estava matando sua amante! Atirou-se sobre o ser, enterrando no pescoço do vampiro toda a lâmina do abridor de cartas.

A criatura emitiu um urro animalesco e deixou o corpo da jovem cair no piso da cozinha, arrancando em seguida a pequena peça de prata do pescoço, o que lhe custou ainda uma queimadura na mão. O ferimento causado pela prata provocou-lhe uma dor tremenda e, pelo efeito do metal amaldiçoado, a ferida se abria como corroída por um ácido. Seu sangue escuro brotava dali borbulhante, e zonzo, ele caiu sobre o corpo de sua vítima. Richard tateava o piso em busca do objeto que usou para atacar o monstro, e o vampiro o olhou com olhos faiscantes de cólera e dor.

Richard encontrou o abridor de cartas e o agarrou desesperado. O vampiro ferido soltou sobre ele mas foi recebido pela ponta do falso punhal que, para sua surpresa, desta feita foi enterrado em seu peito!… A dor foi lancinante e a criatura tombou enfraquecida. Um cheiro acre tomava o ambiente, vindo da estranha fumaça escura que emanava dos ferimentos da criatura, a esse ponto estertorando no chão. Em pouco tempo ela não passava de uma asquerosa massa enegrecida como um corpo vitimado por fogo! Richard encolhera-se a um canto da cozinha e observou abismado todo o insólito processo. Pura sorte a dele, ter sobrevivido àquela coisa… Então lembrou-se de Caroline!

Engatinhou até o corpo da jovem e teve um nova e espantosa surpresa! Ele chegou a ver o pescoço dilacerado e a orelha rasgada, quando ela caiu ao ser solta pela criatura. Mas agora… Em frente a seus incrédulos olhos treinados de cirurgião, a orelha de Caroline estava perfeita e os ferimentos do pescoço cicatrizavam milagrosamente! Como podia? Se aproximou e tocou o pescoço dela. O sangue viscoso do vampiro impregnou seus dedos e uma ideia começou a se formar em sua cabeça. Precisava ter certeza!

Richard se levantou e foi até o armário. Pegou em uma das gavetas uma faca. Olhou a lâmina serrilhada por um instante e… passou-a de um só golpe nas costas de sua mão! A ferida ardeu imediatamente, claro! Ele então passou a outra mão na poça de sangue escuro no chão e esfregou levemente o ferimento, sentindo imediatamente um efeito, mas não o esperado: o ferimento pareceu piorar, como se tivesse inflamado instantaneamente! “O que deu errado?” – pensou.

Próximo ao corpo de Caroline o sangue dela e do monstro se misturaram. Richard decidiu fazer mais uma tentativa. Com espanto, observou que sua dedução estava correta! Misturado ao sangue humano de Caroline, o fluido do vampiro mudava o comportamento. Em segundos, sua mão estava tão perfeita como sempre fora, sem o menor sinal do corte! Richard exultou com sua descoberta!

-Cicatrização imediata e acabamento absolutamente PERFEITO! É o sonho de todo cirurgião plástico e sou o ÚNICO que sabe!!! Isso é ouro PURO! – falou sozinho, empolgado com a valiosa descoberta!

Mas precisava dominar isso por completo, senão seu golpe de sorte poderia se tornar também sua ruína, se algo desse errado. Olhou para o corpo da jovem, que permanecia inerte no chão. Se agachou ao lado dela e verificou sua pulsação. Estava muito fraca, mas ainda viva, toda suja de sangue dela e do vampiro, mas os ferimentos dela também desapareceram. Carolina era a chave de sua descoberta, mas não poderia saber disso! O resto da noite, Richard passou maquinando um plano…

(Continua…)

Anúncios