Mais um pedacinho do livro para degustarem e comentarem…

bloodymouth

Christian entrou silenciosamente na suíte onde estava Sophia. Sentou na lateral da cama e ficou por um tempo olhando-a dormir pacificamente. Ela respirou profundamente e abriu os olhos, inclinando a cabeça em sua direção. Mesmo sem falar nada, estava claro que haviam muitas perguntas a serem feitas e Christian estava aguardando pacientemente para dar as respostas.

Sophia ergueu o corpo apoiando-se nos cotovelos e depois ajeitou os grandes travesseiros de pluma e recostou-se. Seu rosto estava sereno, mas interiormente lutava para manter-se calma.

  • Se eu não estava tendo um pesadelo, você realmente me disse que me transformou em uma vampira? – Disse isso como se perguntasse como estava o tempo lá fora, mas evitou olhar para ele.
  • É isso… – Christian tentava ser natural, mas a tensão presente era densa. – Eu sou um vampiro e escolhi você por motivos pessoais, que vou explicar. Mas antes preciso saber como você está se sentindo, Sophia.

Ela pensou por um momento antes de responder. Uma parte dela estava atemorizada, não encontrava explicação para tudo aquilo. Outra parte encarava aquela situação insólita com naturalidade.

  • Então é verdade? Quero dizer, nunca imaginei que vampiros existissem mesmo…
  • Existimos, sim, mas fazemos o possível para manter a discrição. Não seria bom que soubessem de nossa presença entre as pessoas comuns.

  • Em nenhum momento você pensou que eu poderia não querer ser uma vampira?

  • Claro que sim! Mas isso não é uma coisa que se proponha a alguém. – com um sorriso divertido ele voltou para perto dela e tocou-lhe o braço. – Você me acharia louco ou pior… Chamaria a polícia, talvez. – O toque dele a fazia estremecer levemente, mas se afastou um passo.

  • Pode ser… Mas e se eu não quiser, o que acontece?

  • Bem, o que está feito, está feito. – seu rosto ficou sério – Não é possível voltar atrás, Sophia. Eu não posso matá-la, não seria capaz disso agora.

  • Pelo que sei, você já me matou! – Sophia começou a chorar, as lágrimas escorriam lentamente de seus olhos, mas manteve o olhar firme em Christian. “Eu estou te dando uma chance de alcançar tudo o que sempre sonhou.”, foi a resposta dele, com o olhar preocupado. Tentou pegá-la pelos braços mas ela se esquivou.

  • Christian sabia dessa possibilidade, claro. Mas contava que Sophia ficasse fascinada pela vida que ele lhe ofereceria, a casa, a riqueza, o fim dos problemas dela e da prostituição, que era apenas um caminho do ponto de vista dela. Ele sabia que no fundo ela desejava estabilidade, uma vida sem sustos ou privações. Ela economizava boa parte do dinheiro obtido nas ruas para comprar um apartamento e estudar. Queria sair daquela vida.

    Tudo isso ele lhe oferecia, em troca de companhia, apenas. Não esperava que ela o amasse logo de início, mas tinha uma eternidade para compartilhar com ela e o tempo não era nada para ele, enfim. Bastava apenas esperar, então…

    Sophia deixou o choro consumi-la até se esgotarem as lágrimas. “Isto só pode ser um pesadelo!…”, pensava. Quando se acalmou um pouco, sentou-se nas almofadas e abraçou as pernas, como se um monstro estivesse prestes a devorá-la e a cabeceira da cama fosse o único canto seguro, que ele não alcançasse. Sua vida estava de ponta cabeça… Vida? Uma parte dela sabia, lá no fundo, que tudo aquilo era real. Então ela estava tecnicamente morta…

    Sophia perguntou:

    • Você realmente não se importa com o que está acontecendo comigo, não é mesmo?
  • Me importo mais do que imagina… Mas agora é irreversível a situação, e olhe bem para você… Está maravilhosa!…

  • Mas não quero ser uma vampira! Como faço para acabar com isso?

  • Christian olhou para ela com uma expressão triste. Falou devagar e serenamente:

    • Eu realmente não queria, não imaginei que fosse ser assim. – passou a mão pelos cabelos dela, que dessa vez não recuou – Sophia, eu também passei por isso, esse conflito. Eu também fui transformado no que sou contra minha vontade mortal, mas acabei aceitando isso como um desígnio do destino. Se quer mesmo saber como acabar com isso vou lhe dizer, mas um mundo de novas possibilidades está na sua frente agora, e só você poderá tomar essa decisão…
  • Possibilidades!… Viver matando pessoas? Não era isso que eu…

  • Não precisam ser inocentes, Sophia!… Há muitos humanos que merecem esse destino. E por mais absurdo que pareça agora para você, acabamos fazendo o bem quando eliminamos essa escória!

  • Sophia olhou dentro dos olhos de Christian e percebeu sua angústia. Sentia-se atraída por ele, mas não queria compartilhar sua tragédia. – Você fez isso comigo, Christian!… Faça acabar! – quase sussurrou as últimas palavras, seu rosto praticamente encostando no dele.

    • Eu já disse que não conseguiria fazer isso! Se você quer, vá para o sol amanhã cedo, pule numa fogueira… É só assim que um vampiro pode se suicidar. – Os olhos de Christian estavam marejados, ele tremia. Sophia ficou horrorizada com aquilo, também não seria capaz de se matar! – Não me peça para te matar, Sophia. Garanto que não conseguiria. Me perdoe por ter te trazido para este mundo e dê uma chance ao seu novo destino…

    A fome tornava-se insuportável para ela, deixando-a enfraquecida. Apoiou-se no tampo da penteadeira e afastou-se de Christian.

    • Saia agora, por favor. Quero ficar só. – Não conseguia olhar para ele.
  • Você precisa se alimentar. Vou… – Christian não pode terminar a frase. Sophia, num novo acesso de raiva, atirou-lhe um dos vidros de perfume.

  • NÃO VOU MATAR NINGUÉM!!! VAI EMBORA!!! – num movimento rápido ela se jogou na cama.

  • Christian saiu do quarto e trancou-se no escritório, tentando coordenar as idéias. De lá pôde ouvir a fúria de Sophia, que deve ter quebrado tudo o que havia sobre a penteadeira.

    Quando tudo silenciou ele voltou à suíte de Sophia. Lá, ao abrir a porta, deparou-se com um cenário de guerra. A penteadeira estava virada, o espelho estilhaçado e a moldura inutilizada. As gavetas caíram no chão espalhando todo o conteúdo, onde já estavam as jóias e os cacos de alguns dos vidros de perfume. Perto do canto do quarto a cabeça do bibelô que enfeitava a penteadeira jazia lascada. O ar recendia à mistura das fragrâncias que ensopavam o tapete. Sophia estava deitada em meio aquilo tudo, uma mancha escura de sangue coagulado sob os braços estendidos à frente do corpo, uma das mãos agarrando ainda o outro braço. – “Louca! Ela cortou os pulsos!” – pensou Christian. Abaixou-se e verificou que ela respirava, ainda que irregularmente. Devagar, ela virou o rosto em sua direção. – N-não… não é o que você está pensando…

    • Fique calma, vou te ajudar. – facilmente ele a pegou e colocou sobre a cama. Realmente ela não tentara se matar. Quando derrubou a penteadeira um dos estilhaços do espelho cravou-se em seu braço, por azar rompendo uma artéria. A perda de sangue não foi tão grande assim, mas para uma vampira faminta era demais. Sophia parecia doente. Christian sabia que ela precisava se alimentar, e falou categórico:
  • Vou conseguir alguém para você se alimentar já. – Ela apenas meneou a cabeça e sussurrou um “não” quase inaudível.

  • Você não entende, não é! – Christian exasperava-se com a teimosia dela. – A falta de sangue não vai te matar, Sophia! Você vai definhar lentamente, perder o viço e sofrer, mas não morrerá! – ela continuava se recusando.

  • Durante várias noites Christian tentou dissuadi-la inutilmente. Era um milagre que continuasse viva, pois a abstinência já durava muito tempo e seus sinais eram nítidos. O rosto antes belo ficara encovado, a pele enrugada e os membros secaram a olhos vistos. Parecia que envelhecera décadas, e apenas sua convicção parecia inquebrantável. Christian suplicou, argumentou, vociferou e por fim desistiu.

    Christian saiu para caçar e trouxe consigo um homem muito musculoso e alto, de péssima aparência. Seria o jantar daquela noite. Christian levou o “pacote” até a suíte de Sophia e espantou-se. Evitava vê-la há dias, e sua aparência estava deplorável. Nada sobrara das formas voluptuosas da jovem e o que via parecia uma múmia! A expressão cadavérica de seu rosto fitando-o deixou-o chocado, o que não passou despercebido por Sophia. Ela mantinha-se apoiada no parapeito da janela com dificuldade, e ao vê-lo deu um sorriso de escárnio.

    • Não te agrada o resultado de sua obra? A mim também não…
  • N-Não é isso, Sophia!… É que… – Ela não deixou que terminasse.

  • Eu não demoro a morrer, agora. Sinto isso.

  • Desculpe. Não queria que você sofresse… – lágrimas de sangue começaram a brotar nos olhos de Christian. – E não quero que morra!

  • Sei que está sendo sincero… Mas não tem outro jeito, Christian.

  • Christian mantinha seus olhos pregados nela, com medo de que subisse no parapeito da janela e se atirasse no pátio, mesmo não tendo certeza de que isso a mataria. A cena, insólita, carregava de tensão aos dois. Os olhos de Sophia, afundados nas órbitas, também começaram a verter um filete de sangue que riscava seu rosto pálido. Seu corpo tremia com o esforço que fazia para manter-se de pé. Repentinamente, seus olhos se arregalaram e ela esboçou um grito, abafado pelo som de tiros.

    Foi rápido. Num instante aquele brutamontes abateu Christian pelas costas, que não teve tempo de reagir. O homem olhou horrorizado para ela por alguns segundos. Foi o suficiente para que Sophia tomasse uma atitude guiada pelo instinto. Saltou do outro lado do quarto como uma gata, num movimento impensável para qualquer ser humano. Fora de si, cravou os dentes no pescoço do homem que cambaleou com o impacto e desequilibrou-se, caindo com um estrondo no corredor. Fragilizado de medo por aquela visão, ele inutilmente tentou desvencilhar-se de Sophia, mas já era tarde. Enlaçada com os braços e as pernas em seu tronco, ela sugou vorazmente o sangue do infeliz, cada gole fortalecendo seu corpo combalido e aquecendo-a. Ah, o sangue! Sophia nunca pensara que aquela fome dolorosa que sentia por dentro e que crescia a cada dia pudesse ser saciada tão rapidamente, tão deliciosamente… Agora o sangue parecia incendiar cada célula do seu corpo, com uma volúpia incomparável. O homem já ficara inconsciente e não se debatia mais. Mesmo assim Sophia cravava suas unhas como punhais em suas costas, os dentes mergulhados em seu pescoço robusto e compacto, onde a carótida parecia saltar sobre a musculatura. Ela era um animal devorando a presa, desfrutando sua conquista. Naquele momento ela sucumbiu finalmente à sedução do sangue, entendendo que seu caminho não tinha mais volta. Os últimos resquícios da jovem Mariana deixaram de existir ali. Aquele momento foi único. Mariana morria para dar lugar a Sophia, a vampira.
    Leia mais em “Cross – A Ascensão de Sophia”

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