Sheila Schildt é psicóloga, de Porto Alegre, e aceitou o convite de nos oferecer seus contos para enriquecer o conteúdo da Irmandade dos Vampiros… Este é o primeiro que li e me impressionou bastante, por ser denso e carregado de um horror indescritível, que nos assombra por um bom tempo depois da leitura…

Bem vindos à Casa…

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Ela queria sair correndo, mas não conseguia. O medo – não, o terror! – a paralisava completamente ao mesmo lugar, mantendo-a tão imóvel como se tivesse transformado-se em pedra. Tentava, em vão, recobrar o movimento sobre o próprio corpo. Mas isso lhe parecia impossível. Como fora parar ali? Onde estava com a cabeça quando obrigou-se a entrar neste lugar horrendo?

Começou com uma brincadeira. Quem seria capaz de entrar no casarão abandonado? As amigas riram, não vendo nenhuma consequência em lançarem-se o desafio pueril de adentrar pelo velho portão enferrujado e dar uma espiada em suas obscuras entranhas.

Afinal de contas, alguma coisa no casarão vinha cheirando muito, mas muito mal, fazendo com que todos os que passavam diante da velha casa abandonada, acabassem por torcer o nariz e apertar o passo. Os vizinhos haviam reclamado, lógico; mas ninguém de fato acreditava que a prefeitura iria mover uma palha para averiguar a situação.

Naquela pequena cidade, não era a primeira vez que algo não cheirava bem. E, se a experiência dizia que assim que o bicho morto começasse a secar, o cheiro desapareceria, por que se incomodar? Além disso, se a prefeitura não tomava providências nem mesmo para reparar o sinal da esquina, que piscava de maneira intermitente há semanas, o que esperar deste caso? Que o cheiro desaparecesse.

Porém, cidades pequenas têm muitos jovens. E estes jovens, pela cidade ser pequena, geralmente tem muito pouco o que fazer em seus momentos de lazer. E, claro, apesar das atitudes rebeldes, cortes de cabelos malucos e bebedeiras para provarem que já são adultos, a maioria dos jovens é ainda muito, mas muito infantil.
Logo, quando os desafios começaram, nada mais natural a ela aceitar. Ela era nova, sabem? E nenhum dos seus esforços para se sentir aceita havia surtido algum efeito. Clichê, sim, mas é como as coisas são. Então ela disse que iria. E foi. E, a princípio, não viu nada demais em sua tarefa, apesar de alguns dos meninos ficarem uivando no portão, como se fossem coiotes. Primeiro, por que ainda era dia. Segundo, por que estavam todos ali, no portão. E terceiro, por que deveria ser apenas uma droga de cachorro morto, pelo amor de Deus!
Medo? Não, ela não estava com medo. Estava com nojo, isso sim! Só de imaginar a carcaça que encontraria lá dentro já sentia náuseas. Teria que se segurar para que o almoço da cantina da escola – por si só indigesto – não voltasse todo, e se juntasse aos cheiros exalados pela casa.

No final, acreditou que nem teria de passar por situação tão adversa. Fosse pela direção do vento ou por que outro sortilégio, o fedor nauseabundo que chegava à rua nem estava tão forte. Talvez a coisa que fora morta nem estivesse dentro do casarão, mas em alguma parte das cercanias, e nem com a carcaça ela tivesse de se deparar. Permitiu-se, por um segundo, sentir alívio por não ter de deparar-se com o que quer que estivesse causando tanto alvoroço entre os moradores da até então pacata rua dos arvoredos.

Parada à soleira da porta, lançou o olhar ao interior, não conseguindo identificar nada na penumbra que a envolvia, já que vinha da luminosidade de um dia ensolarado para a escuridão úmida da casa há tempos abandonada. Sentiu o ar rançoso que emanava do espaço sombrio, identificando apenas os contornos, ainda difusos, que a princípio não lhe davam ideia do que estava por enxergar quando a visão acostumasse com a diferença de luz.

Mesmo acostumada a visão, em um primeiro momento não pode registrar o que via; sabia que havia uma confusão, e que estava tudo… Como explicar? Tudo espalhado por todos os lados. Como se uma criança travessa houvesse passado por ali, deixando seu rastro do chão às paredes. E teto. Por mais que sua mente consciente tenha levado apenas alguns instantes para interpretar o que se desenrolava ante si, pareceu-lhe que tempo e espaço haviam, de alguma forma, se desmanchado. Ela não conseguia sequer respirar – aliás, como se fazia isso mesmo? – que dirá se mover, forçar suas pernas a darem meia volta e correram novamente para a segurança do portão, dos amigos, para aquele mundo de brincadeiras que ficara para trás.

De súbito, o ar pareceu-lhe voltar aos pulmões. O coração, a bater. E a noção de uma realidade exterior que existia para além do indizível que seus olhos percorriam. Inspirando o ar em largos haustos, virou-se e saiu correndo até o portão, onde os novos amigos aguardavam com expectativa. Dizem que gritou, mas ela não lembrava, em absoluto.

Aliás, com o passar dos anos, não conseguiria lembrar de quase nada daquele dia. E talvez isso fosse uma benção.
Os amigos até pensaram em caçoar; acabaram mudando de ideia, quando esta entrou em desespero por encontrar o portão trancado – brincadeirinha dos amigos – e começou a esmurrá-lo. Ainda gritando. Até que o sangue passou a escorrer pelas grades enferrujadas. Sim, eles acreditavam que alguma coisa deveria estar errada. Tiveram certeza quando, após aberto o portão, ela continuou gritando e gritando. Mesmo quando a ambulância chegou para levá-la embora.

E outros resolveram olhar. E agora a prefeitura via com prioridade o cheiro do casarão. Que nada mais era que o cheiro de carne putrefata, de milhares e milhares de pedaços de corpos, pedaços, vísceras. Alguns de corpos recentes, outros em avançado estado de decomposição. Um exame acurado realizado por diversos especialistas, no caso que definitivamente colocou aquela pequena cidade no mapa para todo pais, revelou que havia tanto pedaços de animais – gatos, cachorros, pássaros, ratos – como corpos humanos, estes últimos completamente mutilados.
Alguns eram provenientes do cemitério local, onde descobriram-se diversas tumbas violadas. Outros, permanecem desconhecidos. Talvez fossem a explicação para os diversos cartazes de “procura-se” de centenas e centenas de pessoas que simplesmente sumiram de suas vidas e suas casas ao longo dos anos. O inquérito, que teve mais de mil páginas, nunca chegou a uma conclusão satisfatória; fora parte de um rito satânico? Obra de uma mente desequilibrada? Alguém de passagem? Ou um vizinho, que cumprimentava a todos, colocava seu lixo para rua e pagava impostos, mas à noite virava um animal sem alma, capaz de cometer tais atrocidades?

Ninguém nunca ficou sabendo. Mas o número de habitantes na cidade foi diminuindo, mês a mês, até que os moradores que sobravam eram apenas aqueles velhos demais para se importarem, ou pobres demais para terem condições de ir embora. A história do casarão, esta virou lenda que os poucos visitantes – e muitos anos depois os novos moradores – viam como uma anedota, coisas de gente com muita imaginação e tempo de sobra.

Até o dia em que o casarão foi vendido por um corretor com muita ambição e poucos escrúpulos. E uma família pacata, mas com seus vários conflitos, mudou-se para a casa palco dos acontecimentos antes narrados; e a cidade viu ressurgir o horror.

Mas essa, é outra história…

Sheila Schildt

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