Nada vejo… A escuridão é total… Entra ar por algum lugar, pois não tenho dificuldade em respirar mas me sinto sufocado ao mesmo tempo. Que estranho… Não consigo me mover, embora sinta que estou sentado em posição de lótus. Ah, meus dedos se movem, mas não consigo erguer os braços ou mudá-los de posição e eles doem. Na verdade todo o meu corpo dói. Me dou conta que devo estar nessa posição por muito tempo… Sinto que minhas costas estão apoiadas em algo frio, parece metal, o mesmo material que toco com as costas da mão ao tentar movê-las. “Como vim parar aqui? Que lugar é esse?” – penso com impaciência. E para meu desespero descubro que não consigo gritar, a voz não sai de minha garganta!

Aos poucos a memória volta e me lembro daquela tarde. Tudo começou com ele, o livro…

O cheiro de incenso de sândalo contribuía muito para o clima exótico do antiquário, na verdade uma tímida loja abarrotada de quinquilharias de valor duvidoso, exceto alguns itens. Uma antiga máquina de datilografia Remington, com teclas gastas e pintura descascada me pareceu um deles. Me aproximei para examiná-la e então vi o livro, dentro de uma vitrine empoeirada: capa de couro ressequida, páginas amareladas pelo tempo e uma interessante fivela de metal que dava o acabamento incomum. Olhei mais de perto e percebi que o couro da capa trazia um relevo suave com uma figura. Uma cabeça de bode ou carneiro, dentro de um círculo com variados caracteres.

-Vejo que se interessou pelo “Al Azif”… – disse uma voz suave atrás de mim, que quase me matou de susto. Me virei e dei de cara com o dono do lugar tentando sem sucesso ser afável, me exibindo um sorriso de dentes irregulares e amarelos. Até os olhos por trás dos pequenos óculos pareciam ser levemente amarelados também. O sujeito devia ser mais antigo que todos os itens à venda ali. Me estendeu uma mão ossuda sem tirar aquele sorriso falso do rosto e não retribuí o cumprimento, desconfortável que estava. Ele recolheu a mão e enfiou-a em um bolso do casaco.

-Não está à venda. – disse ele – Mas temos outros artigos que poderiam lhe interessar.

-Obrigado. – respondi secamente – Eu achei o livro realmente interessante e não vi outra coisa que me agradasse, exceto a máquina de escrever ao lado dele.

-Ah!… Ela pode ser sua, sim. – Voltou a exibir os dentes amarelos que me enervavam. – Já o “Al Azif” escolhe ele próprio a quem quer pertencer. E não creio que…

Um som atrás de mim chamou nossa atenção e me virei novamente para o livro. O vidro sobre ele acabara de trincar! O dono do antiquário se aproximou e olhou a vitrine por sobre seus óculos.

-Ora vejam!… Acho que ele escolheu você! Isto significa que sua alma deve ter algum valor… Deve levá-lo agora mesmo!

-Mas quanto é?

-Acho que você não entendeu, meu jovem… Este livro não pode ser vendido por preço nenhum! Como eu estava explicando antes, ele escolhe seu possuidor. Não lhe custará nada em dinheiro. Apenas aconselho que tome cuidado com seu uso. – Disse isso e retirou da vitrine o pesado exemplar com cuidado, estendendo-o em minha direção. Não sei explicar porque, mas peguei o livro. Embora ressequido, o couro da capa era estranhamente macio… Me demorei um pouco olhando os detalhes e, quando ergui os olhos, o dono do lugar havia desaparecido da minha frente! Quem chegasse ali naquele momento teria a impressão que eu quebrei a vitrine e estava furtando o tal livro! Deixei-o sobre o balcão e saí daquela loja estranha.


Estou ouvindo sons, como insetos revoando na escuridão em que estou mergulhado. Não me tocam, mas ouço esse som sinistro e inquietante. Porque minha voz não sai? Porque meus movimentos estão limitados por essa barreira sólida? O som oscila, ora aumenta ora diminui.

Uma voz invade minha cabeça! – “Seu desejo de se tornar um ídolo foi atendido. Resigne-se.” – Eu não pensei essas palavras! Mas agora me lembro do que aconteceu a seguir depois que saí do antiquário!


Cheguei em casa e, quando acendi a luz da sala, para meu espanto o tal livro estava sobre a mesa de centro! Meu Deus, que coisa estranha! Como ele foi parar ali? Ao mesmo tempo que pensava como aquela situação insólita aconteceu, me sentia atraído por ele… Alassif, foi esse o nome que o homem da loja disse? Evitei o livro e fui até minha mesa de trabalho. O computador estava ligado, eu o havia deixado assim para fazer o “download” de alguns artigos. Abri outra aba no navegador e digitei no site de busca a palavra “Alassif” – ele retornou perfis de pessoas com esse nome, o que não fez sentido…

Alterei a palavra buscada para “Al Assif” e então surgiu o termo Al Azif, nome árabe do Necronomicon! – um arrepio percorreu minha espinha e olhei para o estranho livro! Seria possível que aquele fosse o lendário Necronomicon? Mas esse livro não é algo fictício, criado por H.P.Lovecraft?

Concluí que, com tantos acontecimentos esquisitos, aquele negócio bem poderia ser real, portanto o livro na minha mesa de centro poderia ser um exemplar autêntico do Necronomicon! Fui até ele e abri o livro com cuidado…


A voz volta, como um intruso, a invadir minha cabeça de forma inevitável. “Você tem muitas perguntas, vejo isso em sua mente, mortal.” – ela diz – “Terei meu prazer ampliado em te revelar tudo, pois com isso irei saborear ainda mais seu desespero. Sou aquele que chamam de Cthulhu, o sacerdote. Tirei você do seu tempo e espaço e o coloquei onde está agora. Não lhe cabe questionar o poder dos Grandes Antigos e muito menos entender esse poder.”

Noto que quando a voz se faz ouvir o som de insetos aumenta ao meu redor… Ela faz uma pausa e então continua sua explicação:

“Você humanos, insignificantes criaturas, precisam aprender a não mexer com aquilo que não compreendem. Você, mortal, será um exemplo. Não o primeiro e provavelmente não o último, apenas mais um. Ao tentar recitar um dos encantamentos perdidos, você me invocou. Em sua mente débil, gananciosa e egoísta, achou que poderia comandar o poder de um deus? Que poderia me usar para lhe dar destaque entre seus pares? Pobre e ignorante imbecil… Queria ser um ídolo para os seus… Pois bem. Seu desejo está realizado, mas não como acreditava que seria.”
“Você está agora exatamente onde queria, numa posição em que será adorado por seus semelhantes. Está em um templo, dez séculos antes de sua época, sendo venerado e recebendo tributos. Está vivo e assim ficará por muito tempo ainda, usufruindo do seu cobiçado prêmio que também é seu castigo. Está encerrado dentro de uma estátua de bronze e ouro, mas tirei de você a voz e a força física. Será reverenciado dia e noite por fiéis monges, até que a minha amiga morte se compadeça e venha buscar sua alma… Que assim seja.”

Repentinamente o som dos insetos desaparece, escuto um sino e sinto odor de sândalo e mirra. Um horror indizível toma conta de mim e, tarde demais, me arrependo de ter aberto aquele maldito Necronomicon! Me arrependo de me deixar seduzir pelas possibilidades fáceis de ter o que não merecia e não me esforcei para conquistar. Choro… Não sou capaz de emitir ruído algum que chame atenção das pessoas que estão fora da minha prisão dourada, não posso pedir ajuda… Vou enlouquecer aqui, gritando silenciosamente pelos dias que me restam. Tudo que desejo agora é que seja breve minha existência…


2015, Fevereiro – Estátua de quase mil anos guarda corpo mumificado. Leia a notícia clicando aqui.

mumia-budista
Meander Medisch Centrum/ Jan van Esch

 

Anúncios