Adrien

2014 – Adrien deu os últimos retoques de Dermablend no rosto para cobrir as tatuagens que carregava desde a maldição da feiticeira escrava no século XIX e que aumentavam a cada vítima… Nunca descobriu como se livrar da maldição. O resultado foi que, com o passar das décadas, toda sua pele ficou coberta por desenhos, alguns indecifráveis, outros enigmáticos, mas com os quais aprendeu a conviver… Para atrair menos atenção, cobria a pele das mãos e do rosto com aquela maquiagem, o que lhe permitia andar nas ruas à noite sem ser alvo de olhares curiosos. Um vampiro precisa se misturar na multidão e, com toda aquela trama cobrindo-lhe a pele, inevitavelmente se destacava em demasia. A malha de gola rulê e mangas longas, somada à jaqueta de couro surrada, completavam seu disfarce. Era hora de caçar…

A agitação noturna do centro de São Paulo estava a todo vapor, como sempre. Um grupo de universitários fazia algazarra na calçada em frente a um dos inúmeros barzinhos entre as ruas Peixoto Gomide e Dona Antônia de Queiroz, cantando e gritando alegremente. Um casal se beijava no meio da baderna e Adrien parou para observá-los. Não demorou para que se afastassem da turba de estudantes e procurassem um lugar “mais calmo” para um affair, talvez para sexo até… O vampiro os acompanhou com o olhar até entrarem num beco que, embora não seja um lugar exatamente deserto, é bastante procurado por casais na madrugada. Adrien seguiu seu caminho e deixou o casal entregue à sorte.

Na Augusta, ponto clássico de prostituição, Adrien encontrou o que buscava. Um cafetão musculoso segurava pelo braço uma garota de forma constrangedora, tentando ser discreto. Tomou-lhe a pequena bolsa e retirou um maço de notas do interior, depois deu um tapinha no rosto da mulher e a empurrou para a calçada. Enfiou o bolo de notas no bolso da calça jeans apertada e desceu a rua na direção do centro. Adrien detestava esse tipo de cafajeste, e decidiu seguir o cara.
Minutos depois, o homem entra num predio de fachada desgastada e Adrien segue logo atrás. Ninguém à vista, apenas o homem subindo as escadas. Os olhos de Adrien se acendem e as presas despontam… Com agilidade e silêncio ele sobe a escadaria de corrimão de ferro fundido em estilo neoclássico. Numa sucessão de velozes saltos, pousa na escadaria já no terceiro andar, antes que o cafetão perceba sua presença. Quando o homem passa pelo patamar de mármore escuro trabalhado, dá de cara com Adrien parado no meio da escadaria.

-Quem diabos é você? – pergunta o cafetão surpreso, levando a mão ao bolso de onde saca um canivete automático. Adrien desaparece como por encanto e resurge atrás do sujeito, dando-lhe um ponta-pé que o força a cair de joelhos na escada.

-Desgraçado! – berra o cafetão – Como fez isso?

Se recompondo, o homem gira o braço levando a lâmina bem perto do rosto de Adrien, que se esquiva. A ponta da lâmina atinge sua face provocando um talho que se fecha imediatamente, para espanto do adversário. Adrien então salta sobre ele e agarra o grosso pulso do cafetão, quebrando-lhe os ossos e obrigando-o a soltar o canivete. O homem emite um grito de dor. Nenhum morador aparece para socorrer o safado ou ver o que acontecia, certamente já acostumados com brigas de marginais. Ninguém iria querer se envolver na confusão.

Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, Adrien crava as presas na artéria saltada em seu pescoço e sorve o sangue quente e delicioso que buscava: o sangue dos ímpios… Lentamente o sujeito para de se debater sob Adrien e seu corpo relaxa, sem vida.

Após terminar sua “refeição”, Adrien dilacera o pescoço da vítima para ocultar as marcas das presas e crava no coração dele o canivete. Retira do bolso do cadáver o bolo de notas que ele havia confiscado da garota e pega também sua carteira, de onde retira outra boa quantia. Antes de sair do prédio, Adrien retira do bolso da jaqueta um pequeno espelho e seu tubo de Dermablend, de onde espreme uma pequena quantidade nos dedos para retocar a maquiagem do rosto, pois onde a lâmina o atingiu aparecia alguns traços da tatuagem enfeitiçada.

Já na rua, voltou até o local onde vira a garota, que lá estava encostada num poste aguardando que algum possível cliente a abordasse. Se aproximou com um sorriso, pegou a mão dela e depositou a maior parte do dinheiro que tomara do cafetão. Sem dizer nada, se afastou, deixando para trás a prostituta olhando-o sem entender seu gesto e misturou-se na multidão noturna que circulava pela calçada em busca de prazeres fáceis.

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