Adrien

1872 – A rua fervilhava de madames e cavalheiros vestidos conforme ditava a moda francesa, num arremedo do mundo civilizado europeu. Mucamas e negros escravos de torso nu davam um diferencial gritante, embora ignorado pelos brancos que ostentavam cartolas, fraques e delicadas luvas. Adrien observava com curiosidade o movimento do lugar, em busca de uma presa adequada. Havia chegado a poucos dias da Europa com a comitiva de D.Pedro II, a quem conheceu em Viena sob o pseudônimo “Pedro de Alcântara”, que o imperador usava para se passar por uma pessoa comum. Foi portanto o próprio imperador que o fez se interessar pela vinda ao Brasil, e assim que viu uma oportunidade, Adrien se misturou aos membros da comitiva e embarcou para a terra prometida: a colônia de Portugal chamada Brasil…

Uma jovem negra, certamente nascida antes da “lei do ventre livre”, lhe atraiu. Formosa de corpo e rosto, usava um turbante gasto e roupas igualmente pobres, mas que lhe davam um ar sensual talvez por deixar os ombros nus. Passou pela negra e sorriu discretamente, sendo correspondido. Fez-lhe um sinal e ela o seguiu até um beco escuro, onde foi dado o ataque. Mas Adrien não contava que a escrava tivesse companhia… Enquanto lhe sugava o sangue das veias, na entrada do beco uma outra negra, velha e com os cabelos crespos grisalhos presos por um lenço, o surpreendeu. A velha lhe atirou um ramo de flores secas e proferiu palavras num dialeto africano que Adrien não compreendeu, mas que pressentiu serem uma maldição:
-Isikhumba sakhe amhlophe kugcwele inkumbulo ngamunye isisulu, lamademoni! (Sua pele alva será marcada pela memoria de cada vitima, demonio!) – Era uma bruxa, a velha!

Para não ser pego, abandonou o corpo da jovem já sem vida e disparou para fora do beco escuro, derrubando a velha na entrada. Ela gritou, se levantou e foi até o corpo caído da escrava. Adrien escutou o pranto da velha e sentiu um arrepio quando, chorosa, ela repetiu as palavras. Imediatamente sentiu seu pulso queimar e espantado, viu um desenho negro se formar sobre a pele!… Não estava saciado, mas perdera o ânimo de continuar a caçada naquela noite… Precisava mesmo era de encontrar um local para se esconder, pois certamente os gritos da velha negra atraíram pessoas que dali iriam procurar o estrangeiro responsável pelo assassinato da escrava. Se pudesse chegar até Petrópolis antes do nascer do sol estaria a salvo no palácio de verão do imperador…

Adrien embrenhou-se na mata, onde esperava que ninguém fosse procurar um branco bem vestido e de origem nobre, certamente um europeu… Procurariam nos hotéis, estalagens, salões talvez… Nunca na mata. O local onde surgiu o desenho ardia e coçava, sendo que a sensação parecia lhe tomar todo o braço aos poucos. Numa clareira, sob a luz do luar, ele tirou a casaca e ergueu a manga da camisa de seda. Horrorizado, viu que o pequeno desenho agora se ramificava e já lhe envolvia todo o antebraço numa renda que parecia ter vida própria e lentamente crescia em arabescos irreconhecíveis! Que maldição era aquela? Não poderia aparecer daquele jeito no palácio!

A noite não tardaria a dar lugar ao nascer do sol, e Adrien não teria tempo de encontrar a bruxa que lhe amaldiçoou. Precisaria ficar escondido até que a noite caísse novamente para ir atrás dela e lhe obrigar a retirar o feitiço… Entrou em uma gruta e tentou dormir, depois de se certificar que o sol não alcançaria seu esconderijo.

Ao acordar na segunda noite, a primeira providência foi avaliar os desenhos. A pele da mão e de todo o braço esquerdo já estava invadida pela trama amaldiçoada, além dos ombros e certamente parte das costas. Toda a área atingida ardia suavemente. Os arabescos seguiam lentamente pelo peito e alguns ramos avançavam pelo pescoço. A roupa não cobriria aquilo por muito tempo… Pelo que pode sentir, seu rosto ainda não fora atacado, pelo menos… Iria ao encalço da bruxa escrava e a mataria assim que ela retirasse o feitiço! Adrien arrumou suas roupas, levantou a lapela da casaca e saiu da gruta. Aspirando o ar noturno percebeu um cheiro conhecido. Era ela?

O vampiro escalou uma árvore e observou a mata, notando que uma luz oscilante vinha em sua direção. O fogo de uma tocha banhava parte da clareira e a pessoa estava sozinha. Reconheceu o cheiro mais uma vez, misturado aos odores do betume queimado da tocha. Era a feiticeira, sem dúvida, que tinha a audácia de procurá-lo. Aquela velha não daria seus passos na mata em vão…

Adrien saltou da árvore até outra mais baixa, e desta saltou ao chão. Seus olhos se acenderam e as presas surgiram. Uma fome voraz o consumia, mas não era falta de sangue, era desejo de vingança… Certamente a velha feiticeira zulu, que vinha com a tocha erguida e a saia de tecido grosseiro presa em uma das mãos, também vinha ao seu encontro carregada de desejo de vingança pela morte da jovem escrava. Adrien avaliou que a jovem devia ser filha da velha, e estava certo.

Oculto por uma folhagem alta ele aguardou a chegada da bruxa, que não demorou a aparecer. Ela resmungava palavras naquele dialeto zulu incompreensível, murmurando aos deuses africanos seu pedido de vingança, provavelmente. A luz da tocha erguida acima da cabeça lhe dava uma aparência fantasmagórica, o braço esquelético e enrugado lembrava quase um galho. Na face negra, os olhos arregalados brilhavam e a boca de lábios grossos se movia macilenta naquela prece irritante para Adrien, que contou os segundos até que ela estivesse ao alcance de seu bote…

Deixou-a passar por ele e então saltou sobre a velha, fazendo com que a tocha fosse atirada à frente deles. A velha deu um grito ao ser atacada, mesmo parecendo que esperasse isso acontecer.

-Que encantamento é esse velha feiticeira? Ordeno que o retire imediatamente e lhe pouparei a vida! – vociferou Adrien exibindo as presas e prendendo os punhos da velha como se a crucificasse no chão duro. Ela olhou para ele e riu com a boca desdentada, sem demonstrar medo pela aparência do vampiro.

-É a paga que vosmecê dará pela vida da minha neta, coisa ruim… Para cada vida que tirou, um risco preto vai brotar nessa sua pele branca. Para cada vida que tirar, mais um risco vai nascer em vosmecê. Pode matá essa preta véia, não me importo! Cumpre seu destino que eu já cumpri o meu, lamademoni. – dito isto, a velha fechou os olhos e virou o rosto para o lado.

-Retire essa maldição, feiticeira!

-Num retiro não!… Vosmecê vai me matá de qualquer jeito, então mata logo.

Os olhos de Adrien incandesceram de ódio e ele cravou os dentes no pescoço enrrugado da velha, que retesou os braços presos e soltou apenas um gemido sofrido. Assim que o corpo da negra relaxou, anunciando a morte, Adrien sentiu o surgimento de um novo desenho na pele, agora próximo de sua orelha esquerda. O vampiro não se arrependeu de matar a velha, pois precisava mesmo de mais sangue… Mas também precisava descobrir um jeito de reverter o feitiço. Não suportava a ideia de que cada refeição lhe causasse uma nova marca no corpo outrora belo e sem uma pinta de nascença sequer… Com a velha feiticeira morta, era preciso achar outra pessoa capaz de tirar a maldição jogada por ela.

Irado, Adrien seguiu pela mata em busca de um local onde encontrasse negros. A região possuia muitas propriedades e ainda mantinham escravos. Em alguma delas certamente encontraria alguém com poderes místicos para ajudá-lo.

Cerca de uma hora depois avistou a casa grande de uma fazenda. Foi até lá e circundou a propriedade discretamente até ver nos fundos o barracão em forma de “U” onde dormiam os escravos: a senzala. Sorrateiro, cruzou o pátio e passou pelo pelourinho no centro, onde sentiu o cheiro de sangue envelhecido. Muitos escravos foram castigados ali, açoitados pelos capatazes e capitães do mato, então a impressionante peça de madeira estava impregnada do sangue que nela escorreu por anos…

A porta da senzala estava trancada com uma grossa corrente de ferro mas não era guardada por cães ou vigias, o que era raro. Porém lá dentro os negros dormiam em camas de palha ou no chão de terra mesmo, amontoados. Isso poderia ser um problema, pois se acordassem e fizessem escândalo, os feitores armados viriam para descobrir o que acontecia… Parado em frente à porta Adrien pensou em como capturar um dos negros, chegando à conclusão de que o melhor seria mesmo criar uma confusão para pegar um dos escravos fugitivos no mato. E foi o que fez: partiu a corrente da porta e abriu-a, sentindo o mal cheiro que vinha de dentro. Alguns escravos que estavam perto da entrada se assutaram mas ele fez sinal para que ficassem quietos.

-Ó negros, vim libertá-los! – cochichou aos primeiros. Acordem os outros e saiam correndo daqui. – em seguida, correu e se embrenhou na mata, galgando uma árvore próxima, de onde podia ver o que aconteceria em seguida.

Em instantes, os negros saiam do barracão como baratas de uma fossa! Ao primeiro som do tiro de um mosquete, correram em diversas direções. Os dois feitores não seriam suficientes para pegar todos e a confusão estava armada. Um dos escravos, sem camisa e descalço, se enfiou no mato perto da árvore onde Adrien fizera seu posto de observação. Depois que ele passou, Adrien aguardou para ver se algum dos feitores o seguiu, mas estavam ocupados com os demais escravos que tentavam fugir.

Adrien desceu da árvore e alcançou o negro no meio da mata. O rapaz corria assustado e ofegante, se desviando de galhos e saltando obstáculos na escuridão. Adrien o interceptou e quase o matou de susto, mas tapou a boca do escravo e avisou:

-Calma, homem! Fui eu quem abri a senzala para fugirem. Vou soltar sua boca, mas me prometa não gritar.

O rapaz, com olhos arregalados e suando em bicas gesticulou com a cabeça concordando.

-Preciso de ajuda. Uma negra velha, feiticeira, me amaldiçoou. – Adrien abriu a casaca e exibiu os desenhos, que o escravo olhou com curiosidade e espanto. – Estas marcas são obra do feitiço dela e preciso de alguém de sua raça que saiba como tirar isso de mim.

-Seu moço, me descurpa!… – disse o negro ajoelhado na frente de Adrien, com a cabeça baixa. – A única mãe-preta da região é a véia Chica, mas dissero que ela sumiu atrás do home que matô a neta dela! Só ela pode tirar o feitiço e… só ela tumém pode invocar os orixá pra fazê isso…

-Foi ela que me enfeitiçou, então estou perdido! A velha está morta, negro!

-Intonce num tem jeito não, seu moço! Vosmecê vai carregar isso pra vida toda!…

O negro se encolheu no chão em posição fetal ao ver os olhos vermelhos de Adrien acesos como chamas bruxuleantes, certo de que seria morto pela criatura de pele pálida e presas de demônio. Mas Adrien decidiu poupar o negro e fugiu pela mata escura, deixando para trás o escravo atônito que iria contar sua desgraça para as gerações futuras…

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