food-truck

A tarde começava a dar lugar à noite quando o pequeno caminhão modificado estacionou ao lado da praça. A pintura chamativa, de fundo preto e tons de laranja, vermelho e amarelo com um suculento lanche pintado na lateral deixava claro qual a sua finalidade. Era um “food-truck”, evolução moderna dos antigos trailers-lanchonete. A lateral se abriu exibindo uma reluzente e moderna cozinha instalada no baú e, da parte de trás, o motorista retirou mesinhas e cadeiras desmontáveis pintadas no mesmo estilo do veículo.

Em poucos minutos, um cheiro delicioso invadia sutilmente o espaço em volta, atraindo famintos fregueses. O som da carne na chapa fazia fundo para a destreza do burguer-man, que agilmente virava várias peças e ia montando os deliciosos lanches.

Ao lado do balcão uma grande placa trazia preços convidativos e os dizeres “Hamburguers caseiros do Fran – Carne selecionada com tempero especial”. E realmente os lanches eram deliciosos… Em pouco tempo o caminhão estava cercado por pessoas que, com o apetite atiçado pelo cheiro e pelos elogios dos que já degustavam os lanches, faziam fila para comprar os sanduíches do novo food-truck.

-Cara, que lanche gostoso! Acho que depois desse vou querer mais um!

Francisco, o “Fran” citado no cardápio, sorria amigavelmente e tentava dar atenção a todos.

-Tenho muito cuidado na escolha das carnes, pessoal. Só carne fresca, de boa procedência e preparada com uma receita antiga da família…

Aquele negócio era uma mina de ouro… Não demorou para que Francisco vendesse dezenas de lanches! Sobre o balão, perto da chapa, estava um surrado exemplar de “Crime e Castigo”, de Dostoiévsky. Ana Clara foi quem viu o detalhe e comentou:

-Olha só!… Além de fazer excelentes lanches você ainda é um cara culto!…

Francisco riu e respondeu:
-Gosto muito desse livro! A paixão por esse autor veio de um tio, de quem também herdei o gosto pelas carnes…

Ana Clara sorriu de volta, limpou a boca com um guardanapo de papel e pegou na pequena bolsa que carregava um espelho e um batom, para retocar a maquiagem. Francisco observava atentamente a jovem em seu curtíssimo vestido carmim, logo percebendo que era uma “dama da noite”, como ele gostava de se referir às prostitutas. Ela passou a língua pelos dentes, apertou os lábios e fez uma cara de aprovação para o que via no espelhinho, guardando em seguida os objetos na bolsa.

-Mora por aqui, moça?

-Não… Só trabalho. Sou dançarina aqui perto…

-Sei… Só dança mesmo?

-Se quer saber se faço programa… – Ana Clara riu – A gente precisa sobreviver, né?

-Volta aqui quando eu fechar. Te dou um lanche grátis…

-Vou pensar no seu caso… – retrucou Ana Clara e se afastou, num gingado sensual. Francisco sabia que ela voltaria…

Horas depois, enquanto Francisco guardava as mesinhas e cadeiras, Ana apareceu. A praça já estava deserta. Francisco deu um sorriso largo e limpou as mãos no avental vermelho. Abriu a porta do carona para Ana entrar e seguiram rumo a local incerto.

Em minutos o caminhão saía da cidade, pegando a rodovia. Ana e Francisco riam ao som das músicas sertanejas que tocavam no rádio. Já longe da cidade, Francisco entrou numa estradinha de terra e explicou:

-Moro aqui, num sítio… Mas fica tranquila que amanhã te levo de volta à cidade.

Estacionaram em frente a uma casa simples, no meio do mato. Desceram e Francisco chamou Ana para a parte de trás da casa, onde havia um galpão de madeira.

-Vem, Vou te mostrar onde preparo as carnes pro lanche… A gente pode se divertir lá dentro…

Ana Clara riu e pensou, seguindo-o: “Cada doido que me aparece! Nunca eu ia imaginar que esse cara tão bem apanhado teria fetiche em transar numa cozinha!”

Francisco abriu a porta do galpão e deu passagem à moça. Depois que ela entrou no grande cômodo ainda escuro, ele fechou a porta atrás deles e acendeu a luz, rindo do grito aterrorizado de Ana Clara! À frente deles estava o motivo: uma grande bancada de aço inox, suja de sangue escurecido, e um balcão de madeira igualmente manchado, com cutelos, facas, afiadores e uma enorme máquina de moer carne. No fundo do cômodo havia uma grande geladeira industrial, dessas de açougue. Antes que a jovem pudesse se voltar recebeu uma pancada na cabeça e tudo escureceu…

Ana acordou com o corpo dolorido. Estava nua, deitada sobre a bancada fria de aço, com os braços estendidos sobre a cabeça e os punhos fortemente amarrados a uma barra de ferro. As pernas doíam, abertas e esticadas formando um “V” invertido, com os pés presos a tiras de couro nas laterais da bancada. Francisco aguardava ao lado. Tinha trocado o avental da lanchonete por outro, de material impermeável, sujo de sangue. Usava também uma máscara de solda cobrindo o rosto e grandes luvas de borracha amarelas.

-Minha bezerrinha acordou, que bom!… O efeito do calmante que te apliquei passou mais rápido do que imaginei, mas não tem problema.

-Me solta, seu fdp! – gritou Ana Clara.

-Pode gritar o quanto quiser… Ninguém vai te ouvir aqui. Lembra que eu disse que preparo aqui as carnes? E que só uso carne selecionada, de primeira? Ah! E o livro também… Te falei que aprendia gostar dele com meu tio, o Chico Picadinho, né? – Enquanto falava, Francisco afiava um grande cutelo. Ana começou a chorar…

-Shhhh… Não chore, bezerrinha. Relaxe, vai ser bem rápido… Mais rápido do que o amor gostoso que fizemos enquanto você estava dormindo aí… Vou te dar outra dose de calmante, tá bom? – disse o maníaco, já tirando o ar da seringa com um líquido amarelado dentro.

-Adrenalina demais deixa um gosto ruim na carne e ela fica dura… – disse baixinho ao ouvido de Ana Clara, enquanto lhe aplicava a injeção.

Em instantes seus olhos pesaram e seu corpo relaxou sobre a mesa. Ela ainda ouviu a máquina de moer sendo ligada e sentiu Francisco acariciando seus seios e descendo a mão até sua virilha, então apagou.

Novamente a tarde começava a dar lugar à noite quando o food-truck de Francisco estacionou ao lado da praça. Ele repetiu todo o ritual de preparação da lanchonete móvel e ligou a chapa, que em instantes estava no ponto.

-Que bom que voltou! Passei o dia todo pensando no lanche que comi ontem à noite aqui! – disse uma morena de cabelo curto e shorts provocantes.

-Oi! Que bom que gostou! Voltei porque prometi que traria uma amiga minha de volta pra cidade ainda hoje… – disse Francisco, retirando do freezer um grosso hambúrguer de carne rosada onde se destacavam pequeninos pedaços de pimentão vermelho, ervas e cebola, atirando-o com destreza sobre a chapa. Sorriu maliciosamente para a morena.

-Se você voltar na hora que eu fechar, o lanche pra você vai ser grátis… Quer?

Nota do autor:
Chico Picadinho é um célebre serial killer brasileiro, que cometeu seus crimes de esquartejamento em 1966 e 1976. Até hoje passa seus dias na prisão praticando a pintura. Ao cometer seus crimes, ele agiu sob a influência do romance Crime e Castigo de Dostoievsky, a quem chamou de Deus numa entrevista (fonte: Wikipédia). – Francisco, o personagem do conto, é um sobrinho fictício que como o “tio” tem compulsão por esquartejar suas vítimas. Foi uma forma de estender para os dias atuais a história de Picadinho.

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