Karina dos Santos é moradora de Penaforte – CE, quer ser escritora e  tem medo de vampiros, entre outras coisas (algumas bem reais…). Ela curtiu a ideia de participar  do projeto “Quer ser um personagem?” e neste conto ela é a vitima escolhida pelo vampiro…Bora visitar Penaforte e acompanhar Karina nessa aventura?

Penaforte

Penaforte é uma pequena cidade localizada no Ceará, bem na fronteira com Pernambuco, com pouco mais de oito mil habitantes. Cidade de poucas escolas, poucas igrejas, pouco o que fazer… Assim como muitas cidadezinhas interioranas…

Karina dos Santos, conhecida como Kéké pelos amigos, é atendente na biblioteca de
Penaforte. Moradora da zona rural, Karina diariamente faz uma caminhada do sítio onde mora até a BR-116, onde pega um carro com destino à cidade para trabalhar. Essa caminhada diária deve ser a responsável pelo corpo atlético da moça, uma morena de olhos castanhos claros e cabelo preto cacheado, mas que destoa do estereótipo de garota interiorana pelos três furos em cada orelha, onde ostenta brincos, e pelos piercings, um na língua e outro no umbigo…

Do sítio até a rodovia asfaltada, ela caminha por uma estrada de terra cercada pela vegetação esparsa do sertão e cercas de arame farpado, onde dificilmente encontra alguém. Mas não foi nessas caminhadas diárias que Karina viveu a experiência mais estranha de sua vida. Tudo começou na biblioteca de Penaforte, instalada num imóvel de arquitetura simples, com telhado de duas águas e aparência de casa típica do interior, todo pintado de um amarelo pálido com detalhes cor de telha, na esquina à esquerda da igreja matriz, bem no coração da cidadezinha.

Foi um dia como tantos outros, quente e monótono. Através da grade de ferro ao redor do
balcão, Karina atendeu uns poucos estudantes que buscavam algum livro na biblioteca e
passou a maior parte do dia lendo e digitando no computador um conto, para exercitar seu lado de escritora, carreira que pretende tornar real no futuro. Já passara da hora de fechar, então, usando fones de ouvido e distraída com sua playlist de rock, Karina não percebeu a entrada de um novo cliente no hall da biblioteca até que ele a abordou pela grade, dando-lhe um pequeno susto. Ao levantar os olhos se deparou com um sujeito peculiar, diferente dos frequentadores comuns dali. O homem era louro e muito claro, com cabelos lisos que desciam até pouco abaixo dos ombros. Vestia um terno cor de chumbo e usava uma gravata vinho sobre a camisa cinza, impecavelmente passada. Ele dirigiu um sorriso discreto para Karina e perguntou se haviam livros antigos, históricos, no acervo da biblioteca. Seus olhos eram de um castanho intenso, estranhamente profundos. Lembravam mogno envernizado. Karina demorou um pouco para responder, hipnotizada pela aparência do estranho:

-Temos alguns na última prateleira do corredor à sua direita, senhor…

-Igor.

-Heim?

-Igor Matias. É o meu nome. E o seu?

-Karina.

Igor sorriu novamente e se virou na direção dos corredores de estantes repletas de livros. Karina acompanhou com os olhos o forasteiro, até que ele desaparecesse de seu campo de visão. Já deveria ter fechado a biblioteca, mas ela não conseguiu dizer isso ao estranho, que voltou alguns minutos depois.

-Me interessei apenas por este “Brasil Pré-Histórico”, do cônego Raimundo Ulisses Penaforte… Aliás, esse cônego é que deu nome à cidade, não?
-Sim, foi dele que tiraram o nome atual da cidade. O senhor precisa fazer um cadastro para levá-lo, mas já passou da hora de fechar. Poderia voltar amanhã mais cedo?

-Desculpe, mas pretendia ler aqui mesmo… E não tenho documentos comigo para o cadastro, mas… E se você o retirasse em seu nome e me emprestar? Garanto que devolvo em pouco tempo.

-Lamento, mas não posso fazer isso…

-Que pena! Você disse que vai fechar a biblioteca agora. Aceita companhia para ir até em casa? Estou de carro e posso te dar uma carona. Nos conhecemos melhor e quem sabe outro dia você me empresta o livro…

“Ousado esse cara!” – pensou Karina. Mas decidiu aceitar a carona. Desde sua adolescência, quando era uma rebelde que fazia loucuras e arrumava confusão, ela não fizera nada empolgante. Quem sabe aquela não seria a oportunidade de conhecer alguém diferente e viver algo novo, para variar?

Em frente à biblioteca estava um SUV novo importado, azul marinho, que deixava claro que o dono era alguém com boa condição financeira. Não que isso fosse importante para Karina, mas só de passear naquele carrão já faria seu dia terminar diferente!

Igor desativou o alarme do carro e abriu a porta do passageiro para Karina, em seguida deu a volta e se instalou no banco do motorista. Algumas pessoas que estavam na praça Querubina Bringel e no calçadão da igreja matriz observavam e fingiam não notar, mas Karina sabia que iriam comentar depois. “Que se danem! Ninguém tem nada a ver com minha vida e não estou fazendo nada demais…” – pensou ela.

-Para onde vamos? – perguntou Igor, ligando o ar condicionado do carro.

-Te mostro o caminho. – respondeu Karina.

No trajeto do centro até perto do sítio, Igor falou que era descendente de uma das primeiras famílias de Penaforte – os Matias – e que morou muitos anos no exterior. Voltara a poucos dias para conhecer o lugar, estando hospedado na fazenda de uns parentes. Era inteligente e espirituoso, fazendo Karina rir diversas vezes. Apesar de ser notadamente uma pessoa de alto nível, Igor mostrava uma simplicidade cativante e um respeito ímpar, detalhes que despertaram a simpatia de Karina. Tanto que ela se comprometeu a pegar o livro que ele pedira e emprestar-lhe no dia seguinte.

Na tarde seguinte, Karina já havia saído da biblioteca com “O Brasil Pré-Histórico” em sua mochila. Ficou na praça esperando Igor aparecer até por volta de dezenove horas e, quando já havia desistido, pensando em como faria para ir para o sítio, o SUV de Igor estacionou em frente à biblioteca novamente. Toda contente, Karina foi até ele com o livro nas mãos. Igor abriu a porta sorridente e pediu desculpas pelo atraso. Quando saíram, ele perguntou:

-Se importa de sairmos um pouco do caminho? Tenho uma surpresa para você…

-Se não demorarmos muito… Minha família pode ficar preocupada…
-Essa preocupação tem algo a ver com essas marcas no seu braço? – A pergunta de Igor pegou Karina de surpresa. Como ele poderia saber dos cortes?
Karina se encolheu no banco e olhou pela janela, ficara sem graça com a pergunta e fechou o semblante. Já estavam na rodovia e Igor dirigia em alta velocidade. Igor novamente falou com ela, com uma voz aveludada e séria.

-Não precisa me falar sobre isso se não quiser. Eu entendo você. Na verdade, minha surpresa para você te fará esquecer tudo o que já passou de ruim…

Igor saiu da rodovia e pegou uma estrada de terra. De repente, Karina ficou preocupada. Seus medos vieram assaltá-la. Estava num local deserto com um estranho que poderia ser um louco psicopata, um estuprador, um assassino… Quando voltou a olhar Igor, se sentiu ridícula por pensar essas coisas. Ele não poderia ser nada disso… Então Igor parou o carro. Os faróis iluminavam a estrada de terra que desaparecia à sua frente e uma nuvem de poeira avermelhada levantada na frenagem se dissipava em volta do carro. Igor olhava para além da cerca de arame que limitava a estrada. Dava para perceber o vulto de uma casa abandonada um pouco além da cerca. Quando ele se voltou para Karina, algo havia mudado! Seus olhos estavam vermelhos e com pupilas dilatadas, seu rosto ainda mais pálido e marcado de linhas escuras tortuosas, como se os vasos aparecessem sob a pele. Karina abriu a boca para gritar mas Igor apertou sua garganta e exibiu os dentes num sorriso sarcástico, onde se destacava um par de presas afiadas! Karina se debatia no espaço agora pequeno do carro, prensada pelo pescoço contra o vidro blindado, pela mão forte da criatura que Igor se transformara. Numa tentativa desesperada, Karina cravou as unhas no braço de Igor e viu um sangue escuro brotar
nas marcas, mas ele não acusou dor.

-Não resista, Karina… Se aceitar, posso te tornar imortal, garota!

Karina tentava esmurrar o peito dele com uma mão, enquanto a outra permanecia agarrada ao punho que a mantinha presa pelo pescoço. Se retorcendo um pouco mais, ela conseguiu
erguer uma perna e bateu o pé contra as costelas do monstro com toda a força que lhe
restava, só então ele fez uma careta de dor. Ela golpeou novamente e com a mão tentava
encontrar a trava da porta às suas costas. Quando encontrou, assim que ouviu o clique da trava a porta se abriu e Karina caiu para trás, se livrando da mão de Igor e caindo de costas na estrada de terra, onde rolou rapidamente e tentou se afastar. Em frações de segundo o vampiro estava sobre ela novamente e a imobilizou, segurando seus braços afastados como se a crucificasse na terra seca e vermelha. A luz dos faróis do carro dava uma luminosidade esquisita do ângulo onde estavam, permitindo que Karina visse os olhos vermelhos da criatura, agora acesos e encarando-a.

-Bravinha você, não? Vasculhei sua mente e conheci seus anseios, seu desejo de mudar essa vida medíocre do interior… Vi seu desejo de se vingar das pessoas que lhe magoaram e provocaram que fizesse suas marcas na própria carne, garota!… Conheci também seus medos humanos, mas vi sua força interior e considerei que seria a candidata perfeita para lhe dar o presente da noite, para herdar meus dons… Mas se prefere não aceitar minha proposta, nada me resta senão fazer de você apenas mais uma refeição para aplacar minha sede de sangue!

Quando Igor exibiu novamente as presas e se abaixava na direção do pescoço de Karina, ela gritou:

-Eu aceito!!! – chorando, ela relaxou o corpo e vociferou olhando-o nos olhos. – Aceito seu presente, demônio! Quero isso!
Igor sorriu e folgou as mãos, liberando os braços de Karina, que num movimento rápido o empurrou fazendo-o perder o equilíbrio e se levantou, passou pela cerca de arame, da qual uma farpa produziu um corte no seu ombro e correu na direção da casa abandonada.

Surpreso por ter sido enganado pela segunda vez por Karina, Igor decidiu não subestimar mais sua oponente e saltou sobre a cerca para persegui-la. Rosnou ferozmente e se pôs ao encalço de Karina. Ela corria ofegante para alcançar a casa, o ombro ardia por causa do suor sobre o ferimento e a escuridão da noite atrapalhava seu senso de direção, mas rapidamente ela bateu as mãos na porta entreaberta da casa abandonada. O local tinha um cheio ruim, teias de aranha grudavam em seu rosto e o telhado cheio de falhas onde as telhas faltavam deixava entrar a luz do luar. Karina tropeçou em uma cadeira quebrada caída no chão de terra batida, denunciando sua posição e soltando um palavrão de dor pelo baque na canela. A porta rangeu e a silhueta de Igor surgiu, ameaçadora.

-Acabou, garota! – ele gritou nervoso. Karina se encolheu num canto escuro, depois do local onde estava a cadeira. Igor foi até o meio do cômodo, pegou a cadeira e arremessou na direção de Karina. – Pensa que não posso te ver? Mesmo que não pudesse, sinto o cheiro do seu sangue. E sinto algo ainda melhor, o seu MEDO!

A cadeira se espatifou na parede sobre Karina, que teve a certeza de que Igor não a acertou apenas por que não quis. Igor deu uma gargalhada e caminhou em direção a ela. Já acostumada com a escuridão do local, Karina viu o vampiro se aproximar, estender o braço e agarrar seu cabelo, puxando-a para cima. Desesperada, Karina deu um grito e atingiu Igor com um pedaço do pé da cadeira, atravessando seu peito com a estaca improvisada. Igor cambaleou e soltou o cabelo de Karina, deu alguns passos para trás e caiu de costas, se contorcendo e soltando guinchos de dor como um animal ferido.

Karina correu para fora da casa e chegou até o carro, que estava com a porta do carona ainda aberta. Entrou, travou as portas e abraçou os joelhos, caindo num choro convulsivo. Ficou ali até amanhecer e ser encontrada por um trabalhador de um sítio próximo, atraído pela fumaça.
Com os primeiros raios do sol, a casa abandonada estranhamente entrou em chamas e não
puderam entrar lá para comprovar a história de Karina. A polícia de Penaforte investigou o caso e descobriram que o carro pertencia realmente a um Igor Matias. Foram até a fazenda da família dele, onde encontraram todos mortos, inclusive o verdadeiro Igor… Na casa, após o incêndio, nada encontraram.

Dias depois, refeita do choque, Karina voltou a trabalhar. Em sua mesa estava um belo arranjo de rosas com um cartão, certamente um gesto carinhoso dos amigos… Mas no cartão apenas estava escrito, com uma bela letra, a mensagem:

Não me esqueci de você!…
E ainda te acho a candidata perfeita.
Até breve…

FIM

Se você também quiser ser personagem de um conto, veja como participar clicando aqui.

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