exorcismo

Padre Antunes fez o sinal da cruz, murmurou uma prece rápida e puxou a portinhola corrediça do confessionário, permitindo que a fiel do outro lado percebesse sua presença ali. Pela treliça de madeira, viu um vulto conhecido. Dona Albertina estava ajoelhada do outro lado. Era a quarta ou quinta vez que procurava o padre Antunes com a mesma ladainha:

-Padre, preciso que venha à minha casa…

-Dona Albertina… – disse o padre pacientemente – Já lhe falei que não posso fazer o que me pede…

-Mas padre! Desde nossa última conversa as coisas pioraram! Ontem mesmo o Francisco acordou alarmado e foi ver o que estava acontecendo na cozinha! Minhas panelas voavam do armário e batiam violentamente na parede, uma delas atravessou o vidro da janela! Quando ele acendeu a luz tudo parou, mas os talheres estavam todos espalhados pelo chão, todas as gavetas caídas e as portas dos armários abertas, uma coisa pavorosa! Não tem jeito padre! Preciso que o senhor vá benzer minha casa e afastar aquela coisa ruim de lá! Francisco não vem aqui porque é ateu, o senhor sabe…

Cansado da insistência da velha senhora, o padre decidiu intervir. Sabe-se lá como ela descobriu que ele já fizera exorcismos antes na antiga paróquia, mas parecia que o único modo de se livrar dela era indo ao Sítio Amado e acabar com aquele festim espiritual que acontecia no lugar. Deu um suspiro e, resignado, respondeu:

-Está bem. Eu vou… – e fechou a portinhola do confessionário. Foi até seus aposentos no fundo da igreja e retirou do pequeno guarda roupa os paramentos rituais, seu crucifixo benzido pelo Papa, uma garrafinha com água benta, seu aspersor e um pequeno livro, reprodução do Maleus Maleficarum. Juntou tudo que precisava numa valise de couro e foi resolver aquela pendenga.

Dona Albertina seguiu calada ao lado do padre Antunes na Brasília 73 da paróquia, que o padre conservava com o maior esmero. O carrinho era velho mas estava tinindo!

Chegando em frente à porteira do sítio, padre Antunes desceu do carro e abriu passagem. Dona Albertina observava, com os olhos miúdos e brilhantes, o atrapalhado homem tentando evitar que a batina sujasse de barro… Depois de passar pela porteira, lá foi padre Antunes repetir a operação para fechá-la… Entrou no carro, tirou um lenço simples do bolso, secou a testa e seguiu até a frente da casa. O sítio fazia jus ao nome. Parecia um cenário de contos de fada, com a casinha branca simples, de alpendre, roseiras floridas ladeando o acesso à casa e uma frondosa azaléa emoldurando a quina do alpendre na entrada.

Seu Francisco abriu a porta alertado pelo som do motor da Brasília e veio de encontro ao padre.

-Que bom ver o senhor aqui, padre Antunes! Que surpresa! Vem em boa hora mesmo!…

-Boa tarde, seu Francisco! Vim por causa dos acontecimentos…

Francisco abaixou a cabeça e seu semblante ficou sério. Com uma mão apertava o chapéu de palha contra o peito e com a outra fez sinal para que o padre entrasse, levando-o até a cozinha. Do arco que separava a cozinha da copa ele mostrou:
-Tá vendo aí, padre… Deixei do jeito que estava, nem mexi… – os armários estavam com as portas e gavetas abertas e alguns vazios. Sobre a mesa e o chão, panelas, talheres e cacos de vidro de diversos copos, além de duas das cadeiras estarem ainda caídas. Padre Antunes olhou para a janela constatando o vidro quebrado. Dona Albertina, com as mãos postas em gesto de oração, olhava tudo o que o padre fazia. Ele abriu sobre a mesa da copa a valise e tirou seus apetrechos, arrumando-os com cuidado sobre a mesa. Desdobrou a estola, beijou a cruz bordada nas extremidades e a colocou solenemente sobre os ombros, todo o tempo murmurando orações ininteligíveis em latim. A velha senhora entrou na cozinha e com ar choroso olhava em volta, tanta coisa de que gostava tanto destruída…

Enquanto padre Antunes recitava as preces do ritual, aspergia água benta em volta. Quando se aproximou do arco na entrada da cozinha, o fenômeno se fez presente. Os objetos espalhados na cozinha tremiam e as portas e gavetas do armário começaram a bater, primeiro cadenciado, depois violentamente. Formando um redemoinho, um vento inexplicável varreu a cozinha e tudo girava no ar, pratos se espatifando de encontro a panelas e garfos, colheres e facas tilintavam ao se chocar uns contra os outros! Francisco se encolheu amedrontado junto ao sofá. Padre Antunes não se intimidava e mantinha firme o ritual.

Então, dona Albertina começou a gargalhar e seu rosto mudou! Seus olhos miúdos deram lugar a órbitas encovadas com grandes globos vermelhos no interior, o cabelo branco arrumado num coque modesto se soltou e esvoaçava como serpentes em torno do rosto pálido sulcado por rugas, seus dentes ficaram amarelados! Ela vociferou palavrões e praguejou para o padre Antunes, enquanto os objetos giravam em volta dela:

-Pensa que vai conseguir, padreco? Não vai!!! Sou muito mais poderoso do que pensa!

Francisco arregalou os olhos assustado com a voz cavernosa que ouviu. Empunhando o crucifixo na direção da entrada da cozinha, padre Antunes se virou para ele e disse:

-Saia agora da casa, seu Francisco!!!

O padre não precisou alertar duas vezes! Francisco debandou em direção à porta da sala e sumiu dali.

-Protegendo o fraco do Francisco? Eu pego ele depois de terminar com você, seu merda! – disse a entidade demoníaca, mas não ousava se aproximar do crucifixo. Padre Antunes caminhou na direção dela mantendo o objeto sagrado como um escudo à sua frente, sem parar de recitar o ritual. Vendo que o padre não se intimidava com suas ameaças, o demônio se afastava, mas nova transformação ocorreu. As roupas de dona Albertina entraram em combustão e, da tocha que se formou, surgiu um par de asas negras. A fumaça cheirava a enxofre e ao se desvanecer revelou a criatura. Pele carbonizada e garras afiadas, um corpo ressequido e, da antiga imagem de dona Albertina, restavam apenas os cabelos encanecidos. Padre Antunes deu um passo para trás quando o viu. O demônio sorriu para ele com dentes pontiagudos e amarelos, deslizando sobre eles uma língua afilada e pegajosa, como se saboreasse o medo causado por sua aparência. Suas asas se moviam cautelosas, esbarrando nos objetos atirados pela cozinha, agora irreconhecível como se uma bomba tivesse explodido ali.

Padre Antunes fez o sinal da cruz mais uma vez, estufou o peito e gritou:

-Ab imo pectore, vade retro!!! Vade retro, spurca! Revertere ad locum tuum! (*) – dito isso, saltou sobre a criatura prensando o crucifixo em sua testa, bem entre os olhos.
O ser demoníaco soltou um urro e se ajoelhou, tremendo. Do local onde o crucifixo deixou uma marca semelhante a uma queimadura, uma fumaça tênue se desprendia. Ele enrolou-se no chão como estivesse sentindo uma forte dor e desapareceu num clarão cegante seguido por uma onda de choque que atirou padre Antunes para trás, arremessando-o no ar. Por sorte, o clérigo caiu sobre um sofá que havia no cômodo. Um silêncio se instalou no local, e padre Antunes pegou seu lenço para enxugar a testa, onde o suor corria.

Dona Albertina apareceu na porta da casa.

-Ah, você está aí ainda? – disse padre Antunes, cansado.

-Sim. Tentei acalmar Francisco, que estava tomado de pavor. Vi quando a criatura, para enganá-lo, tomou minha forma e entrou na casa…

-Está na hora de você partir também, dona Albertina. Vou lá fora ver o seu Francisco e tranquilizá-lo, pois aqui aquela coisa não entra mais…

O espírito de dona Albertina deu um sorriso agradecido e suavemente se dissipou no ar, enquanto padre Antunes, que era um exorcista tão poderoso por ser também um médium, foi encontrar o viúvo do lado de fora da casa…

(*) frase em latim:
Do fundo do meu coração, afaste-se! Afaste-se, imundo! Volta para o local de onde veio!

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