Sylvia observava, encostada na amurada do iate, todas as belas pessoas que participariam de sua festa particular de ano novo, felizes, transbordando brilho e contentamento. Seus longos cabelos negros, soltos, agitavam-se ao vento da brisa marinha. O vestido Dior prata, exclusivo e encomendado para aquela festa, envolvia magistralmente seu corpo.

reveillon sangue

Ao longe, a praia se encontrava coalhada de luzes e gente de todo tipo, se preparando para a virada do ano. Alguns apressados já soltavam fogos e certamente o populacho já bebera bastante, mas sem o glamour que se apresentava no convés do iate. Embora concorrida, sua festa de réveillon não contava com celebridades ou modelos. Os convidados eram selecionados sim, mas a mídia não entenderia seus critérios… Meses antes, ela escolhera dentre os frequentadores de sua rede de lojas as pessoas que comporiam seu “casting”, como ela gostava de se referir ao grupo de convidados. Mas eram, na maioria, apenas figurantes bonitos e anônimos para encher o iate.

O verdadeiro objetivo da festa estava sorridente e convenientemente ambientado no rico cenário preparado por Sylvia, se embebedando de champanhe de primeiríssima qualidade entre os demais convidados, a mesma que borbulhava em sua flutê de cristal Baccarat, delicadamente mantida em uma das mãos enquanto os dedos da outra deslizavam displicentes pelas pérolas do seu colar. Sylvia sempre fora uma excêntrica com cacife e bom gosto para coisas e pessoas…

Seus olhos cor de chocolate se encontraram com os verdes de Alice, sua convidada especial, que lhe deu um sorriso agradecido por aquela noite de sonho. Sylvia fez um sinal para ela e Alice pediu licença ao grupo para ir até o local onde sua anfitriã aguardava. Alice era uma das vendedoras da matriz, linda em seus 28 anos, com um rosto de anjo emoldurado por cabelos louros curtos e cacheados e uma boca que seria considerada perfeita por qualquer cirurgião plástico. Toda aquela beleza poderia ter lhe rendido uma excelente carreira como modelo, mas a timidez impediu-a de trilhar esse caminho. Nunca teve vida fácil, ao contrário de Sylvia, descendente de nobres imigrantes europeus. A paixão entre as duas surgiu meses antes, quando Sylvia inspecionava a matriz e a viu atendendo um cliente, e seus olhares se cruzaram demoradamente pela primeira vez. A festa no iate já estava nos planos da milionária, e serviria também para selar de vez a união das duas.

Uma belíssima lua cheia dominava o céu e se refletia nas águas plácidas. Ninguém percebeu que o iate se afastara muito do continente. Se afastara demais… Não faltava muito para a virada do ano e alguém entre os convidados puxou o coro clássico e brega:

-Adeus ano velhooo!… Feliz ano novooo! Que tudo se realize, no ano que vai nascer!…

Sylvia puxou Alice para si e, antes de lhe dar um apaixonado beijo, disse em voz alta:

-O banquete está servido! – O capitão do iate e alguns marinheiros e garçons mais próximos deram sorrisos e se entreolharam satisfeitos.

As lindas pessoas a bordo se cumprimentavam com abraços, brindes e risos festivos, quando o primeiro grito foi ouvido. Um dos tripulantes se contorceu e saltou sobre um grupo de convidados, já completamente transmutado! Uma fera peluda e forte, incontrolável, distribuiu mordidas e espalhou sangue sobre as roupas brancas dos convidados! Num instante o pânico se instalou no convés e as luzes dos fogos iluminavam uma cena dantesca: para onde corressem, as pessoas se deparavam com enormes monstros, antes membros da tripulação e garçons, agora feras famintas com bocas e garras manchadas de sangue e soltando urros animalescos. Os ataques eram rápidos e letais! Em meio a gritos e cristais caros quebrados, o convés já estava banhado em sangue.

Apavorada com aquele espetáculo homicida, Alice se encolheu junto à Sylvia mas, quando a olhou, o pavor lhe empalideceu o rosto e paralisou-a. Sylvia era uma das feras! Rosnando, Sylvia rasgou o vestido caro que dera a Alice e lhe mordeu o ombro. Suas unhas, transformadas em garras escuras, penetravam as costas da jovem e os braços fortes impediam que Alice se soltasse. A dor foi tremenda, e Alice desmaiou presa por Sylvia, que ganiu ao perceber o desfalecimento de sua vítima especial. A licantropa deitou a jovem perto da amurada e se entregou ao festim de carne junto à sua matilha de ferozes monstros.

Saciados, os licantropos voltavam à forma humana lentamente, alguns ainda arrancavam nacos de carne dos pedaços de corpos espalhados pelo convés do iate. Nenhum som humano se ouvia mais, quase todos os convidados foram destroçados e devorados pelo grupo. Uns poucos que se atiraram no mar foram ignorados, pois feridos, atrairiam tubarões que cuidariam de impedir que atingissem a costa vivos. A ceia de ano novo prometida a eles pela Alfa foi farta e deliciosa…

Chegou a hora do segundo ato. Sylvia os reuniu e mandou que descessem os botes salva vidas ao mar. Em um deles, cuidou de colocar o corpo de Alice ainda desmaiada e foi nele que se instalou também. Alguns tripulantes de sua equipe já sabiam as instruções: incendiar e explodir o iate, afundando as provas da carnificina no mar. A guarda costeira recolheria os “sobreviventes” do trágico acidente pela manhã e Sylvia cuidaria pessoalmente da recuperação de sua amada Alice em sua mansão de Alphaville, onde ela começaria, junto com o ano novo que nascia, sua nova vida ao seu lado.

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