Érico Monteiro mora em Sorocaba, é fã do Slipknot e possui uma página no Facebook sobre contos de terror, a Contos Eternos. Ele se interessou pelo projeto “Quer ser um personagem?” e este conto é o resultado da sua participação aqui!

Como ele mesmo definiu depois, ao ler o conto:

A sensação é estranha. Pois eu me imaginei e imaginei tudo. O mais legal é que eu conheço o lugar e isso o torna mais real!…”

Casa abandonada 001

Érico acordou bem cedo, como de costume, se espreguiçando entre os lençóis desarrumados na grande cama queen-size de seu quarto, quase derrubando o notebook sobre o criado ao lado, onde ficara até tarde conversando com amigos na rede social onde mantinha sua página de contos de terror, a Contos Eternos. Olhou pela janela do quarto, constatando pelo céu azul sem nuvens o que o calor no quarto já confirmara: que o dia seria bem quente, típico do verão sorocabano. Mesmo com cabelos desgrenhados por ter acabado de levantar, tirou mais um “selfie” com o celular para postar mais tarde, quando desse tempo, no Face. Afinal, as meninas sempre gostavam e curtiam suas fotos…

Seu pai já estava na cozinha tomando café e apenas disse “Rápido, Érico! Estamos atrasados…” quando ele saiu do quarto. Erico foi até o banheiro, escovou os dentes e ajeitou como pode o cabelo para não atrasar mais o pai. Teriam bastante trabalho nesse dia, pois estavam pintando um prédio no centro da cidade.

No carro, enquanto seu pai reclamava do trânsito do centro, Erico ouvia Slipknot no celular.

Tell me the reality
Is better than the dream
But I found out the hard way
Nothing is what it seems…

Seu pai puxou um dos fones do celular e disse:
-Rapaz, ouve isso aí mais baixo senão vai ficar surdo! E atende o meu celular pra mim que estou dirigindo!

Érico pegou o celular no console do Fiat Tipo e atendeu, mesmo aparecendo “NÚMERO RESTRITO” no visor, pois deveria ser algum cliente.

-Alô.

Um ruído de fundo estranho atrapalhava a ligação, mas uma voz grave respondeu:
-Preciso de um pintor de paredes e me indicaram você.

-Me passe seu número e ligamos depois, agora estamos no trânsito.

-Depois EU ligo. – respondeu a estranha voz. O ruído continuava ao fundo e o sujeito não disse mais nada.

-Quem era? – perguntou o pai de Érico.

-Acho que algum cliente novo. Mas vai ligar depois.

O dia correu normal e Érico já havia se esquecido da ligação, quando o seu celular tocou. Já estava em casa, lendo um conto que um colega postou em sua página do Facebook. Ao atender, o ruído ao fundo lhe fez lembrar do cliente misterioso.

-Pode falar agora? – disse aquela voz.

-Posso. – respondeu Érico, estranhando a pessoa ligar no seu telefone e não no do pai.

-Tenho um serviço para você, mas é urgente. Independente do seu orçamento, pago o dobro se vier AGORA. Estou te aguardando na Rua José do Patrocínio, em frente ao número 472. – e desligou.

Mesmo achando aquilo muito esquisito, Érico ficou tentado a ir. A rua indicada ficava relativamente perto, ladeando o cemitério Consolação. Curioso, Érico saiu de casa e foi até o local. Já estava escurecendo quando saiu, e ao chegar na rua do cemitério as luzes dos postes já estavam acesas.

A rua José do Patrocínio era uma rua de casas simples, cujo único diferencia era ter uma lateral toda tomada pelo muro branco do cemitério. Já quase no final da rua ele pensou que a ligação não passara de um trote, pois não encontrou o número citado. Havia uma casa de muro branco e paredes vermelhas, número 468, logo em seguida um muro chapiscado coberto por telhas de barro, da casa 482. Do outro lado apenas o muro do cemitério, onde estava estacionado um carro preto reluzente, grande, mas de modelo muito antigo. A janela do carro abriu e a voz peculiar o chamou.

Érico olhou e não conseguiu ver a pessoa dentro do carro. Pensou em sair dali mas algo o impelia a atender aquele cara estranho. Ao se aproximar do carro, um homem magro e alto, de terno preto e chapéu, desceu do veículo e abriu a porta traseira. Por um instante, Érico o achou familiar, então se lembrou dos contos do Slenderman e segurou um riso. O sujeito realmente fazia lembrar a criatura!

Dentro do carro, o dono da voz cavernosa estava oculto na escuridão. Somente ao entrar no carro e se sentar no estofamento de couro preto e macio é que Érico percebeu: o dono da voz era uma mulher! Ela o cumprimentou e disse:

-Vamos até o local do serviço. Tenho certeza que você o fará para mim.

-Espere um pouco! Não tenho nada aqui comigo e…

-Lá terá tudo o que precisar. Jonas, pode seguir para a casa.

Érico não se sentia à vontade e a mulher misteriosa não disse mais nada durante o trajeto, deixando-o apreensivo. Embora toda aquela aura de mistério o fascinasse, Érico ficou apreensivo quando o carro rumou para fora de Sorocaba pela BR-272, indo em sentido à Alumínio. Cerca de trinta minutos após saírem de Vila Haro o carro entrou por uma estrada de terra e subiu pelo caminho escuro. Os potentes faróis iluminavam o caminho e geravam ilusões no mato que ladeava a estrada, criando imagens fugazes que uma mente fértil poderia traduzir como formas de criaturas assustadoras. Não demorou, estavam de frente a uma propriedade com grandes portões de ferro trabalhados, que se abriram para dar passagem ao carro. Um acesso pavimentado com pedras chegava até a casa, que estava totalmente às escuras. Pela janela do carro, Érico observou que a casa era muito velha e parecia abandonada.

A senhora que o acompanhava desceu quando o sujeito magro abriu a porta e fez sinal para que Érico a seguisse. O sujeito que lembrava um slenderman ficou ao lado do caro, empertigado como um chofer da década de 1920 deveria ficar.

Seguindo atrás da mulher, que apesar de idosa se mostrara bastante ágil, o rapaz pensou em perguntar se ela morava ali. Como se adivinhasse seu pensamento, ela se virou depois de abrir a porta e falou:

-Morei muitos anos aqui, mas chegou um tempo em que tive de me mudar para a cidade. Agora quero ver essa casa retornar aos seus bons tempos de glória, e para isso preciso que você recupere algo no seu interior para mim.

A escuridão no interior da casa era quase total, quebrada apenas pela luz da lua que entrava pelas janelas e permitia vislumbrar móveis antigos que pareciam cobertos de poeira e teias de aranha. Antes de dizer que seria impossível fazer um orçamento de pintura naquelas condições e que a casa precisava de muito mais trabalho na reforma, algo inusitado aconteceu. As luzes se acenderam e o grande hall se encheu de beleza! Um enorme candelabro de cristal dominava o ambiente e os móveis empoeirados deram lugar a móveis antigos de madeira escura e vidros biselados. As paredes possuíam belos apliques de madeira e gesso, cobertas na parte superior com papel de parede imitando tecido rendado. Arandelas próximas da lareira, com bases de metal negro e vidro leitoso, derramavam uma luz suave naquela parte. Ladeando os degraus da escada, um corrimão de ferro fundido impressionava pelo acabamento rebuscado de suas peças.

Porém, à direita da sala, uma parede não acompanhava a beleza do conjunto. Descascada e com boa parte do acabamento comprometida, ostentava em quase sua totalidade uma grande mancha escura contornada por uma área amarelada. Uma infiltração deve ter causado aquele efeito. A mancha parecia um grande rosto cadavérico com um sorriso de escárnio, emoldurada por cabelos revoltos que se espalhavam pela parede. Provavelmente a pareidolia é que causava essa impressão, mas era inquietante olhar para aquilo…

-Vou lá fora dar umas instruções ao Jonas e volto logo. – falou a mulher – Enquanto isso avalie o que pode ser feito com essa parede, por favor.

-Sim senhora. – respondeu Érico.

Olhando a mancha de perto ela perdia seu efeito impressionante. Algum tipo de fungo se instalara ali por causa da umidade da infiltração e criara uma imensa colônia. O mais estranho é que isso só seria possível em muitos anos de abandono. Enquanto analisava atentamente a mancha, Érico se distraiu. Um estalo às suas costas o assustou e ele olhou em volta. Ninguém estava lá. Como não era de ter medo à toa, Érico voltou a examinar a mancha. Novo barulho, agora vindo da escada. E um rangido, como se uma porta com dobradiças enferrujadas se abrisse em algum lugar da casa. Érico ficou atento e começou a suar frio. Se afastou da parede e seguiu em direção à porta da casa, quando uma gargalhada repentinamente tomou o ambiente! As luzes das arandelas piscaram e as do candelabro se apagaram, deixando a sala numa penumbra sufocante. Um vento frio correu a sala, fazendo os pelos da nuca de Érico arrepiarem. Os pingentes de cristal do candelabro tilintavam irritantemente. Ele correu até a porta e tentou abrir, mas estava trancada! Aquela mulher desgraçada o trancara dentro da casa! Ainda com a mão na maçaneta, tentando força-la a ceder, Érico olhou de novo para a parede. A mancha pareceu criar vida e rir de seu desespero. Os cabelos revoltos da figura ondulavam lentamente e se esticavam devagar, como se fossem seguir pelas paredes e alcançar Érico se ele não saísse dali. Sussurros vinham de todos os lados e, quando Érico decidiu pegar uma das cadeiras e atirar numa janela para fugir, algo o atingiu por trás e tudo escureceu.

Érico acordou em seu quarto, suando frio. Foi tudo um pesadelo, mas tão real! E curiosamente ele não se lembrava da hora em que foi dormir! Seu pai batia na porta do quarto.

-Érico, acorda! Hoje temos um serviço especial!

Já dentro do carro, com seu pai, Érico não conseguia esquecer o pesadelo…
-Onde vamos?

-Vamos pintar algo diferente dessa vez. Um mausoléu no cemitério Consolação. Sei que é meio esquisito, mas o pagamento é bom e é serviço de um dia só.

-Nossa! Que estranho!

Enquanto seu pai buscava os apetrechos no carro, Érico observou a foto estampada em um camafeu de porcelana incrustado na placa de mármore na parede do mausoléu. Um calafrio percorreu sua espinha ao reconhecer a mulher do sonho!

Um coveiro que estava ali perto e notou que Érico não tirava os olhos da placa, comentou:

-Essa foi Dona Risoletta, proprietária de muitas terras pros lados de Alumínio. Encontraram ela morta envenenada na casa, uma mansão que ainda existe, abandonada. Fica perto da estrada que vai prá Alumínio… O motorista dela também foi achado morto lá, com um tiro na boca, dentro do carro. Diziam que eles eram amantes e ele a envenenou por ciúme, se matando depois por arrependimento. Uma tragédia, garoto… Uma tragédia…

-E q-quem mandou pintar o túmulo?

-Sei não… De tempos em tempos o diretor do cemitério recebe uma quantia em dinheiro de um cara alto, magrelão, que vem aqui e manda fazer o serviço. Diz que ela gostava de tudo muito arrumado e com cara de novo, sempre pintava a casa… Então algum parente deve conservar o túmulo em memória dessa mania dela…

FIM

Se você também quiser ser personagem de um conto, veja como participar clicando aqui.

 

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