favela-condomínios

Os frágeis barracos feitos de alvenaria exposta, alguns de chapas de zinco e tábuas, mergulhados na escuridão da noite, pareciam fantasmagóricas ruínas de uma civilização perdida. Ao longe as silhuetas das torres dos condomínios de luxo do bairro nobre que fazia divisa com a favela se sobressaíam com algumas de suas janelas iluminadas e decorações natalinas oscilando cores e brilhos, dando um aspecto encantado à ostentação que os prédios representavam. Eram um objeto de desejo e inveja dos pobres diabos que moravam na favela, que ao mesmo tempo que precisavam conviver com ratos e insetos, com o cheiro fétido das valas onde corriam os dejetos de sua vida miserável, vislumbravam o glamour de uma vida suntuosa quase ao alcance das mãos sujas e calejadas da lida diária.

Circulando nas vielas de terra entre os casebres dos quais uns poucos deixavam escapar réstias de luz entre as tábuas, denunciando que seus moradores estavam ainda acordados, uma figura insólita buscava algo… Um homem alto e esguio, vestindo calça jeans escura e jaqueta de couro preto, uma sombra entre as sombras. Ele poderia facilmente invadir qualquer uma daquelas moradias decrépitas, mas sabia exatamente onde estava seu alvo. Depois de passar por um espaço aberto que parecia uma espécie de praça entre os barracos, se esgueirando pelas sombras, ele parou ao lado de um carrinho de madeira cheio de latas de alumínio vazias e outros objetos, como uma roda de bicicleta torta e sem alguns raios, uma panela sem cabo… Sob o carrinho, um vira-lata magro dormia enrodilhado para se aquecer do frio que nem era tanto assim naquela noite.

Do ponto onde estava, Elder pode ver o que procurava: Um barraco de alvenaria com uma garagem coberta de lona, onde repousava uma moto esportiva. Ali era a “goma” do chefe do tráfico de drogas local, conhecido como Toninho Sangue, ou apenas Sangue para os mais chegados. Tirando o detalhe da moto, uma Yamaha R6 preta com tanque e carenagem envelopados e completamente destoante do cenário em volta, a morada do tal Sangue era apenas mais um entre os incontáveis barracos do lugar. Morando bem no coração da favela, Sangue se sentia tão seguro que dispensava os capangas. Não havia ninguém montando guarda do lado de fora de sua casa. Com certeza sua “boca de fumo” era mais protegida…

Elder apurou os ouvidos. Apenas os sons da noite chegavam até ele: cães ladrando, uma sirene distante… A vizinhança de Sangue estava mais silenciosa que um cemitério. Isso era bom. Já oculto na garagem improvisada, pode ouvir dois batimentos distintos vindos da casa. O traficante estava acompanhado de uma mulher e dormiam tranquilamente.

Não seria difícil invadir o local, mas Elder não podia entrar na casa do criminoso, precisava fazê-lo sair. Nos fundos da garagem haviam alguns pesos e barras, certamente para que Sangue exercitasse seus músculos ali mesmo. Elder foi até lá e pegou uma das barras fixadas em um suporte. Sentiu o peso do objeto e considerou perfeito. Com um giro, desferiu um potente golpe no farol da moto, que se partiu em dezenas de estilhaços. De imediato, uma luz se acendeu no quarto e ele ouviu a voz de Sangue xingando. Em seguida, o som de uma arma sendo engatilhada. Então a porta que dava acesso à garagem se abriu, saindo de lá um brutamontes de um metro e noventa e cinco de altura, ombros largos como os de um gorila, trajando apenas uma bermuda e um grosso cordão de ouro. Trazia na mão uma 765. Sangue olhou para a moto e em seguida para o invasor, ainda oculto nas sombras mas revelado pelo brilho da barra de aço em suas mãos.

Toninho Sangue não pestanejou, disparou contra Elder assim que o viu, mas não acertou nenhum tiro. O invasor como por encanto simplesmente desapareceu do lugar e ressurgiu ao lado do traficante, dando-lhe um murro poderoso no lado esquerdo do rosto e derrubando-o perto da moto. Com a surpresa do golpe, na queda Sangue deixou a 765 escapar da mão e rolar pelo piso da garagem até perto dos pesos. Ainda atordoado, viu a silhueta de Elder com a barra nas mãos na porta onde ele estava um segundo antes. Sangue era bom de briga, característica indispensável para sobreviver nas ruas, na cadeia e no tráfico. Por isso não se intimidou e reagiu rápido, tentando acertar o desconhecido insolente com as pernas. Novamente Elder desviou do ataque e atingiu a barra de aço na canela de Sangue, que soltou um berro de dor ao sentir o osso se partindo, tal a violência do golpe de Elder.

A barra foi atirada para o outro lado e Elder se jogou sobre o traficante, agarrando o cordão de ouro em seu pescoço. De perto, pode observar as tatuagens que cobriam o peito e os braços do homem. Ajoelhado sobre o traficante, Elder exibiu seu rosto a ele pela primeira vez, que arregalou os olhos com o que viu. Os olhos de Elder estavam completamente vermelhos, seu rosto pálido e marcado por veias escuras que Sangue pode perceber mesmo na penumbra da garagem era algo demoníaco. Elder rosnou exibindo as presas e falou com Sangue pela primeira vez:

-É bom ficar quieto, monte de esterco! Vou te dizer porque vim te fazer esta visita. – Elder torceu o cordão de ouro apertando com ele o pescoço do traficante, que fez uma careta de dor. No canto da boca do homem corria um filete de sangue e saliva, resultado do soco dado por Elder no primeiro ataque.

-Lembra-se do rapaz que você baleou na semana passada, para roubar essa moto? Sou amigo dele. Vim para cobrar sua dívida.

-N-Não sei do que está falando, cara!!! – respondeu o traficante, paralisado de medo e vencido pela dor na perna quebrada, que lhe dava fisgadas a cada tentativa de movimento. Elder riu. Sangue fixou os olhos nas presas do vampiro e teve a certeza de que seu oponente não era humano.

-A moto não me interessa. Você poderia ter ficado com ela sem problemas… Poderíamos comprar outra e eu não estaria aqui agora. Mas o rapaz morreu… E ele era importante para mim, era como um irmão, um filho… Se tornaria MEU filho de fato em poucas semanas, se você não o tivesse matado. A única forma de você pagar essa dívida é com sua VIDA, miserável!!! Me alimento da escória da sua raça, mas seu sangue terá para mim um sabor especial, de vingança!

Após dizer isso, Elder cravou as presas no pescoço do traficante, que se debatia sem poder impedir o ataque, até que desfaleceu. Elder sugou todo o sangue que pode e depois estraçalhou a garganta do traficante, ocultando assim as marcas de sua mordida. Então se lembrou da mulher que ficara na casa, provavelmente acuada na cama de Sangue, apavorada com a briga que se desenrolou lá fora.

Como não podia entrar na casa já que não foi convidado, pegou o cadáver inerte e atirou pela porta para dentro, destruindo a mesa da cozinha com o impacto do corpo sem vida e provocando um grito histérico da mulher.

Perto da porta chamou por ela, escutando um choro vindo do quarto. Não podia vê-la mas podia sentir seu pavor.

-Não se preocupe mulher! – avisou – Já terminei o que vim fazer aqui e não vou lhe fazer mal algum. Apenas tome mais cuidado com suas companhias, pois se anda com esse gado medíocre, essa escória que envergonha as pessoas de bem, poderá ter o mesmo destino dela um dia… Mas não vai ser hoje.

A mulher não respondeu e continuou chorando baixinho, certamente encolhida num canto do quarto, enrolada num lençol.

Elder olhou mais uma vez para a moto e se lembrou de Leonardo, seu querido pupilo e protegido, a quem muito ensinara sobre a não-vida noturna e de quem bebera muitas vezes o sangue precioso, com a promessa de lhe dar o dom da eternidade… A moto havia sido um presente para ele. Decidiu deixá-la ali, não traria boas lembranças… Se esgueirou pelas sombras sem olhar para trás, mais uma vez convencido de que eliminar aquele tipo de gente da qual Toninho Sangue fazia parte era uma função nobre que um vampiro exercia na sociedade.

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