Rodrigo Fontes é carioca, autor do blog Emprego Virtual, e curtiu a ideia de ser um personagem de um dos meus contos na série “Quer ser um personagem?”. Dei uma pitada de Stephen King (será que consegui?…) num conto cujo elemento de terror é a solidão. Vejam abaixo o resultado!

Alone

Rodrigo Fontes acabou de redigir o e-mail para um de seus clientes, releu a mensagem conferindo as informações e, satisfeito com o texto, direcionou a seta do mouse para clicar em “Enviar”. – Pronto. A última tarefa do dia era aquele e-mail. Embora trabalhando em home-office, Rodrigo estava cansado. Cansaço mental, depois de tantas tarefas executadas em frente ao computador. Girar a cadeira inúmeras vezes ao dia entre o teclado, a impressora e o pequeno armário onde mantinha organizado todo o seu material de trabalho não oferecia cansaço físico, mas rendia um certo sobrepeso ao corpo moreno e jovem. Isso não incomodava Rodrigo, claro. O apartamento de um condomínio no subúrbio era um refúgio digno e confortável, pois da mesa de trabalho até a geladeira, poucos passos separavam Rodrigo do ambiente profissional para o doméstico, coisa sem preço hoje em dia… E é até mais produtivo.

Na sala a pequena Ana Rosa, o maior tesouro de Rodrigo, brincava feliz no tapete, entre bichos de pelúcia e brinquedos que mordia irritada, balbuciando as palavras ininteligíveis do idioma dos bebês. Depois de “chegar do trabalho” (traduzindo: ir da mesa de seu home-office para o sofá), Rodrigo sorria enquanto observava a filha ali, como pai novato e orgulhoso de seu rebento. Ana Rita acabara de chegar do Mercado da Marinha, estabelecimento ao lado do condomínio, com os ingredientes para um saboroso lanche ao fim do dia. “Minha vida é perfeita, nunca ficarei só…” – pensou Rodrigo enquanto a esposa cantarolava na cozinha arrumando as coisas que trouxera do mercado.

-Ana, vamos ao cinema hoje? Estreou aquele filme que eu estava doido esperando!

-Ah, Rodrigo… Não estou animada, não! Se fosse filme romântico… A gente só vai assistir filme de ação!… Mas se você quiser ir só, tudo bem.

-Desculpa aí, baixinha… Mas eu vou mesmo!

-Sem problema… Eu vou dar banho na florzinha e assistir algo na TV enrolada num cobertor com ela, que eu amo essa coisinha rechonchuda agarrada comigo no sofá!

-Pô, falando assim eu nem vou sair…

-Vai sim! Vai ver seu filme barulhento e nós duas te esperamos aqui! – disse Ana Rita, trazendo para a sala uma bandeja com os lanches. – Só coloca uma blusa, que está esfriando.

Depois de lancharem, Rodrigo deu um beijo em Ana Rita e outro na filha e saiu. Desceu as escadas até o térreo e quando saiu para a área aberta do estacionamento estranhou o frio, anormal na região. O céu também estava bem escuro já, parecia que uma tempestade se anunciava, mas não havia vento. Somente uma brisa fria fazia oscilarem as folhas das palmeiras que ornavam a área externa, perto da grade azul que separava o condomínio da calçada. Outro fato estranho é que não havia ninguém lá fora, até a portaria parecia deserta, tudo estava muito quieto. O frio aumentava, agora incomodando realmente. As luzes dos postes começaram a falhar e apagaram, aumentando a escuridão na rua. Já na calçada, novo fenômeno se apresentou: uma névoa espessa e escura tomava a rua, impedindo o alcance da visão a partir de algumas quadras!

Rodrigo pensou em desistir do cinema e voltar. Ana Rita devia estar dando banho na pequena e não teria notado aquela mudança climática ainda, mas certamente ficaria apreensiva quando olhasse entre as grades da janela da sala aquele céu escuro. Escuro demais, até. A névoa escura avançava lentamente e se fechava, agora já não dava para ver bem nem os prédios do condomínio do outro lado da rua! Um farfalhar esquisito começou a encher o ar e sombras negras surgiam e sumiam no meio daquela bruma. Rodrigo voltou ao portão e correu até o prédio onde morava. Aquilo estava ficando esquisito demais! Porém, uma descoberta ainda mais estranha o esperava. Por mais que andasse, não alcançava a entrada do prédio! Ele apressou os passos e nada! A distância até a entrada parecia aumentar, como se tudo em volta se afastasse dele.

Até as luzes dos apartamentos se apagaram aos poucos e a escuridão tomou conta, engolindo tudo ao seu redor. Rodrigo estava sozinho ali! Gritou chamando por Ana, gritou o nome de vizinhos… Nada. O único som naquela negritude sufocante era o irritante farfalhar de asas das criaturas que passavam sobre sua cabeça, desviando de obstáculos que ele já não conseguia ver, mas mesmo elas pareciam ignorar sua existência ali. Um suor frio começou a brotar de sua testa, e a sensação de isolamento o sufocava mais e mais, a cada instante. Precisava sair daquele pesadelo, mas o tempo foi passando e Rodrigo não encontrava uma saída! Ficara inexplicavelmente preso em um mundo escuro e solitário…

-Então doutor, o que aconteceu? – perguntou Ana Rita aflita. Há dias que Rodrigo se encontrava na UTI, sem que o quadro mudasse minimamente.

O médico ajeitou os óculos sobre o nariz rombudo e cheio de vasos, olhando demoradamente para Ana, que segurava a mão de Rodrigo.

-Não podemos ter certeza, Sra. Ana… Mas parece que a queda na escada causou um traumatismo. Não temos como prever quando seu marido sairá do coma. Embora seus sinais vitais estejam estáveis, ele não reage a estímulos externos. Ele agora está preso em sua própria mente, infelizmente. Só podemos torcer para que encontre a saída e cuidar dele até lá…

Ana passou a mão pelo rosto de Rodrigo carinhosamente, que parecia dormir sereno, não fossem os aparelhos ligados a ele.

-Meu Deus… O maior medo dele era ficar sozinho, e agora…

Uma lágrima brotou no canto do olho de Rodrigo e escorreu lentamente pela sua face, como se compreendesse a dor de Ana, embora não pudesse se comunicar com ela.

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