Era perto de duas e meia da madrugada… Ignorando o aviso de “Proibido Fumar” ostentado bem ao lado do vidro, puxei mais uma tragada do Free. No chão, duas bitucas jaziam esmagadas pela minha bota, dos cigarros fumados nos últimos quarenta ou cinquenta minutos em que o rapaz algemado do outro lado do vidro mantinha seu depoimento absurdo. Meu nome é Maciel, e sou o delegado responsável por essa porcaria de investigação dos infernos.

Demon Eyes

Na sufocante sala de interrogatório, o suspeito que atendia pelo nome de Felipe Silva, 19 anos, ficha imaculadamente limpa, estudante, trabalhador, de família, franzino, repetia para o Ten. Costa, meu colega do plantão, a história que contou pra mim… E eu do outro lado vidro tentava capturar alguma pista, alguma derrapada dele ao repetir aquela doideira toda… O moleque era um sujeito que não deveria estar aqui, naquela hora. Mas, como o destino costuma pregar umas peças estranhas na gente, ele estava bastante encrencado!

Por volta de onze horas da noite o telefone tocou. Ligação de um celular dizendo que tinha um cara machucado andando na beira da Fernão Dias, a BR-381. A boa alma que avisou não quis se identificar mas fomos averiguar, afinal não era tão longe assim e a noite estava tranquila mesmo… E encontramos esse rapaz, o Felipe. Apavorado, com o rosto e os braços bastante arranhados e essa versão maluca dos fatos:

-Eu e meus amigos fomos acampar ali na mata da Cantareira. Era só uma pequena aventura e uma chance de ficar sozinhos com as garotas…
-Quem eram os outros? – perguntei.
-O Alan e a Denise, meus colegas de sala. E a Fernanda, minha namorada.
-Continue.
-Entramos no mato com as mochilas e armamos a barraca, numa clareira que encontramos. Estava claro ainda. A Denise trouxe umas bebidas e começamos a curtir. Quando escureceu eu fui procurar uns galhos pra fazer uma fogueira, pois estava esfriando um pouco… Assim que me levantei a Denise deu um grito, assustando todo mundo! Estava o maior silêncio no mato, nem grilos a gente escutava.
-Porque ela gritou?
-Ela disse que viu algo como duas brasas acesas no mato, atrás de mim. Me virei e não vi nada, só umas sombras, coisa do mato mesmo, eu acho… E fui buscar os galhos para a fogueira. Quando voltei os três estavam sentados num tronco caído, perto da barraca. Eles não tinham me visto ainda. Foi aí que senti um vento frio, gelado mesmo. Me arrepiou todo. Olhei para a trilha por onde chegamos e vi aquilo… Meu Deus!
-O que era?
-Não sei explicar, moço! Um cara, eu acho, mas com braços compridos, estranhos, todo de preto, parecia uma sombra, um ninja, sei lá! Mas tinha uns olhos grandes, vermelhos, assustadores! Estava parado a poucos metros atrás da barraca e o pessoal não tinha visto ele ainda também. O susto foi tanto que até deixei cair as madeiras que trazia comigo!…
-E foi ele quem fez aquilo com seus amigos? Não foi você?
-Não, moço! Eu nunca faria aquilo! Acredita em mim, por favor! Eu nunca…
-Nunca arrancaria os olhos nem abriria seus amigos como porcos caçados no mato?

O rapaz começou a chorar convulsivamente. Acreditei nele, mas precisava de uma segunda opinião, então pedi para o Costa interrogar ele também. Segundo ele, ao ver a criatura, por instinto começou a correr no meio do mato, ouvindo os gritos das garotas. Acabou chegando na rodovia, com os braços e o rosto cheios de arranhões provocados pelos galhos das árvores. Pedimos apoio da Florestal e trouxemos ele para cá, quando nos avisaram pelo rádio o estrago que encontraram na clareira: Três corpos brutalmente assassinados, sem os olhos, vísceras revolvidas e espalhadas em volta. Ou o moleque ali era um psicopata dos bons, ou algo do outro mundo atacou seus amigos na Cantareira. Eu preferia ficar com a primeira hipótese.

Quando o Costa saiu da sala de interrogatório, trancou a porta colocando a chave no bolso, só balançou a cabeça para mim com um ar cansado e disse que ia ao banheiro. Assim que ele saiu pela outra porta, as luzes piscaram.

Olhei novamente pelo vidro da sala e vi o bicho, mas foi tudo muito rápido! O rapaz não teve tempo de reagir. Aquele negócio parecia mesmo uma sombra, fluído e disforme. Com uma mão de dedos longos envolveu o rosto do suspeito e enfiou, isso mesmo, enfiou a outra mão pelas costas dele. O sangue espirrou sobre a mesa e no chão, junto com os bofes do cara. Eu ouvia um ruído enchendo minha cabeça, como o som de uma multidão murmurando: “Inseruán… Inseruán… Inseruán…”

Aquela coisa envolveu o corpo e abriu uma boca imensa, com dentes apavorantes, parecia que ia engolir o cara todo! Não sei como mas eu não conseguia mover um músculo. Paralisado, vi aquilo esticar o braço através do corpo do rapaz e levar lentamente o coração até aquela bocarra, preso em suas garras ainda pulsando e pingando sangue. Depois, perfurou os olhos do cadáver com as unhas, afundando os dedos nas órbitas e virou-se na minha direção, olhando para o vidro com aqueles olhos enormes vermelhos, acesos como brasas, um rasgo fino no meio do que deveria ser o rosto, num arremedo de um sorriso cínico. Nunca vou esquecer aqueles olhos nem aquele som!… Do mesmo jeito que surgiu do nada, se formou em volta dele um tipo de redemoinho escuro, como uma nuvem, e ele desapareceu na minha frente.

As luzes pararam de piscar e tudo ficou como vocês da corregedoria encontraram…

FIM

 

Nota do blog:

Inseruán é um personagem criado pela autora C.A.Saltoris, no universo do livro “A História Esquecida da Hospedaria na Estrada”, e aqui o utilizei com o consentimento da autora.

Para conhecer mais sobre este personagem sombrio e apavorante, clique aqui

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