Casal-tomando-vinho
Anônimo como praticamente todos numa grande metópole, eu caminho pelo calçadão da avenida em São Paulo. Da mesma forma poderia estar (e já estive) na Times Square, na Champs-Élysées ou na Takeshita Dori. Mesmo com meu sobretudo de panamá e o boné estilo italiano, perfeitos para enfrentar a incômoda garoa incessante, sou apenas mais um na multidão. A aglomeração de humanos nos grandes centros me atrai exatamente por permitir esse anonimato: não sou ninguém e posso ser qualquer um… E sou um vampiro.


Olho em volta e a manada está tão solitária quanto eu. Alguns casais caminham abraçados, um grupo de jovens com roupas grunge e skates debaixo do braço atravessam o asfalto entre os carros semi parados no engarrafamento, mas todos, sem exceção, carregam seus próprios universos particulares e invioláveis. Enquanto meu olhar passeia discretamente na multidão, apuro a audição e seleciono nessa cacofonia alguns trechos de conversas, na tentativa de achar algo que me anime. Mas o que me atrai mesmo é o silêncio da moça de ombros de fora e um delicado colar de pérolas (provavelmente falsas) sentada em uma das mesinhas de um dos muitos bares que possuem mesas na área externa, sobre o calçadão. Ela parece estar tão entediada quanto eu, embora por motivos diversos. Meu tédio é o peso de quase dois séculos vividos nessa cidade, onde quase nada me surpreende. O dela é de apenas um par de horas, talvez menos, em que espera um idiota ou uma amiga com quem marcou um encontro e que não deve vir mais. Os olhos dela, como os meus, vasculham os transeuntes.
Com um pouco de prática vampiros podem focar apenas um dos sentidos naturais e, foco a visão no rosto dela: Bonita mas não marcante, maquiagem discreta, cabelos castanhos arrumados para trás, olhos verde-azulados que transmitem vivacidade e vigor. Ela apoia o queixo na mão direita e olha para o lado, visivelmente desapontada. Antes que desista e vá embora, decido abordá-la.
Como sombra venço os metros que me separam dela sem ser notado pelos demais; e toco seu ombro suavemente. Ela se vira em minha direção com ar surpreso. Para minha visão, seus olhos parecem jóias brilhantes. Duas esmeraldas. Os meus são dois rubis mas ela não percebe, pois pisco a tempo de mostrá-los normais para ela: azuis.

-Perdão. Te vi sozinha aqui e queria te oferecer uma bebida, posso?

Ela me avalia em poucos segundos, desde as mechas um pouco grisalhas que trago nas têmporas até os sapatos de cromo alemão, usando o poder que só as mulheres possuem, humanas ou vampiras. Eu exibo um sorriso encantador com minhas presas recolhidas.

-Pode sim. Sente-se. – ela me diz, correspondendo ao meu sorriso com outro.

Sem saber que aquele momento era na verdade mais uma edição do milenar embate entre caça e predador, ela ajeita o cabelo e pergunta meu nome, me olhando nos olhos.

-Diogo. Ao seu dispor… – este não é meu nome verdadeiro, mas isso não importa. Penso que ela vai gostar do som deste nome, por isso usei-o. – A noite está fria… Aceita um vinho?

-Sim, pode ser… – ela responde, ainda acanhada por ter dado atenção a um estranho.

Quando o garçom traz a bebida, um tinto encorpado que solicitei, brindamos ao encontro não programado. Ela sorri novamente e a batalha começa, um tentando fascinar o outro. Embora um vampiro tenha a vantagem do tempo para aprender a arte da sedução, ela não deixava a desejar. Espirituosa, encantadora, feminina e inteligente, tolo foi o humano que a deixou esperando naquele bar… As horas escoaram céleres e a companhia de Pietra (esse era o nome dela) aquecia meu peito, me fazendo até esquecer da sede feroz que trago em mim. Seu cheiro inebriante e suas risadas me venceram, e eu apenas a acompanhei até o taxi, depois de nos divertirmos muito. Uma mulher especial como ela não merecia virar minha janta… Ai de mim se um dia restarem no mundo apenas pessoas interessantes como Pietra!… Morro de sede!

Faminto, me afastei apertando no bolso do sobretudo um pedaço de guardanapo onde ela anotara o telefone. O outro pedaço ficou com ela, com o meu anotado também. Depois que o taxi partiu, eu já não conseguia evitar que as presas se revelassem! Mas ela seguiu viva e segura para sua casa sem saber que passou boa parte daquela noite na companhia de um monstro sanguinário e certamente esperaria que eu ligasse. Talvez eu faça isso, mas agora, a sede me cobra seu tributo… Na parte velha do centro paulistano poderei aplacar sua ira.

Reze para que não seja você o próximo humano que cruzará meu caminho esta noite!

 

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