sobrado

Por muito tempo aquela casa em frente da de Adriano permaneceu fechada, com uma placa de “VENDE-SE” posta por uma imobiliária ali do bairro mesmo. A placa desaparecera a meses. Uma casa antiga, com dois pavimentos, janelas altas de madeira, telhado coberto de limo, paredes da frente revestidas com pedra até a metade e pintura gasta, descascada. Uma parte do reboco havia descolado e os tijolos de barro apareciam em um canto, onde faltava uma das pedras do revestimento também. O mato e as ervas daninhas tomaram conta do antigo jardim, parcialmente coberto por placas de cimento rachadas, onde se via lixo tipo papéis, cascas e os esqueletos secos de algumas roseiras resistiam de pé junto ao muro, oferecendo um visual deprimente à construção. Adriano chamava o velho sobrado de “A Casa Triste”.

Foi natural a curiosidade quando, ao chegar do trabalho, ele viu que havia luzes acesas lá, na sala e num dos quartos do piso superior. Havia um carro na garagem; um PT Cruiser vinho brilhando, completamente deslocado naquele cenário, embora o mato estivesse capinado e o lixo retirado.
Adriano ficou mais surpreso ainda quando viu saindo da casa uma jovem mulher, trajando espartilho sobre uma blusa de tela e minissaia preta, cabelos ruivos com cachos bem feitos e pele bem clara…
“Que linda!…” – pensou, enquanto observava pela persiana de sua casa a mulher abrir o grande portão de ferro trabalhado, desativar o alarme do PT Cruiser e estacioná-lo agilmente na frente da casa numa só manobra. Ela desceu do carro e fechou novamente o portão, mas antes de entrar novamente no veículo, olhou para a casa de Adriano, como se soubesse que alguém a observava. Deu um sorriso malicioso e saiu.
Pela manhã, ao sair para trabalhar, Adriano observou novamente o carro na garagem. Já passava das quatro da madrugada quando ele acordou ouvindo o ronco do PT Cruiser chegando e pouco depois o bipe do alarme. A garota gostava de uma balada ao que parece… Por semanas essa rotina se manteve. Ela saía de casa sempre no início da noite e voltava de madrugada, às vezes sozinha, às vezes acompanhada por um homem ou outra garota, invariavelmente bêbados. Adriano apenas observava. Como morava sozinho, se tornou um vício observar a bela vizinha pelas persianas do quarto ou da sala. A “Casa Triste” continuou num estado deplorável, embora mais limpa. Talvez ela a reformasse em breve, julgava Adriano.
Um dia Adriano se atrasou para chegar em casa. Quando estacionou seu carro o PT Cruiser já estava do lado de fora e a vizinha estava fechando o portão. Ela deu um aceno para ele, que respondeu acenando de volta sorrindo. Então ela chamou:
-Oi vizinho! Posso falar com você?
-Claro! – respondeu Adriano, surpreso pela abordagem simpática dela.
-É que estou com um probleminha no meu computador e queria saber se você poderia me ajudar…
-Se estiver ao meu alcance… Ajudo sim! Entendo um pouco de informática.
-Imaginei que sim… – disse ela com um sorriso agradável. – Pode ser agora?
-Claro. Vamos lá…
Adriano era um tipo bem apessoado. Apesar de trabalhar com manutenção de redes, não se encaixava no estereótipo nerd. Praticava natação e gostava de correr, o que lhe conferia um físico bem cuidado.
-Belo carro o seu… – comentou, ao passarem pelo PT Cruiser.
-Obrigado, eu adoro esse carro pelo jeito antigo e ao mesmo tempo moderno que ele tem. Uma noite dessas te levo para passear nele… Gosto de ver a arrebentação nos penhascos… Entre.
Dentro da casa, nova surpresa! O aspecto malcuidado de fora não se repetia como seria de se esperar. A sala tinha as paredes pintadas em tons vinho e areia, com móveis antigos de mogno e tapeçarias ricamente trabalhadas, as velhas janelas estavam encobertas por grossas cortinas negras de veludo. Arandelas douradas espalhadas pelas paredes forneciam uma iluminação intimista. Era como se ele tivesse entrado em um castelo! Uma escrivaninha no canto da sala ostentava um computador ligado, objeto que parecia estar ali para lembrar que, apesar do cenário, estavam no século XXI.
Adriano se lembrou que não haviam se apresentado, mas ao olhar para a bela ruiva, algo em sua mente dizia que apresentações eram coisa desnecessária. Com a mão no espaldar de uma cadeira alta, a mulher indicou o computador.
-Pode se sentar, querido.
Adriano docilmente obedeceu. Sentia como se não pudesse lhe negar nada. Quando tocou o mouse do aparelho, ela se debruçou sobre ele e disse:
-Um homem como você poderia ser mais ousado, não? – e beijou-lhe o pescoço, quase tocando o lóbulo da orelha. Adriano estremeceu com o toque frio dos lábios dela e, antes que pudesse reagir, sentiu uma fisgada no pescoço. Rapidamente tudo escureceu a sua volta.
Quando voltou a si, sentiu os punhos doerem e a visão turva. A mulher ruiva, sua vizinha, estava parada a sua frente, mas algo estava errado. Adriano piscou algumas vezes e enxergou melhor. A boca e o queixo dela estavam sujos de sangue, assim como o peito! E os olhos! – Os olhos estavam grandes, negros… e na boca ele pode notar um par de presas tocando o lábio inferior da mulher. Só quando tentou mover o braço foi que percebeu que estava acorrentado a grilhões fortemente presos no teto, mantendo seus braços para o alto por algemas largas de ferro. Grilhões prendiam também seus pés e ele estava completamente nu! Não estava mais na sala ricamente decorada da casa, mas num cômodo totalmente vedado e sem mobília, com um cheiro acre, nauseante. Na parede a sua direita estava outro homem, também nu, acorrentado e desacordado… ou morto talvez.
Adriano quis gritar, mas o que saiu de sua garganta foi apenas um grunhido baixo, único som permitido pela mordaça em sua boca. A vampira sorriu maliciosamente e foi até ele, acariciando de seu peito até a virilha com a unha afiada.
-Deve estar estranhando suas acomodações, Adriano… É o mesmo cômodo em que entrou antes. A sala que você viu aqui era apenas uma ilusão provocada pelo meu poder de fascinação, assim como todo o resto, desde a primeira noite que olhou para essa construção decrépita e viu luzes inexistentes aqui. Um poder prático para ludibriar meu alimento. Me poupa bastante trabalho, percebe?
Adriano tentou se esquivar do contato da mulher. Sem sucesso, claro.
-Seu nome eu peguei de sua identidade, na carteira. Quer saber o meu? É Ludmilla. Prazer… – a vampira lambeu um arranhão no tórax de Adriano, provocado por sua unha. Depois olhou nos olhos horrorizados do rapaz e sorriu exibindo as presas. Por pura maldade, cravou as unhas em suas costelas fazendo o sangue escorrer pelos ferimentos e arrancando um urro de dor de Adriano. Depois se afastou e foi até o homem preso na outra parede.
Ludmilla cheirou o prisioneiro e desdenhou:
-Eu pensei que seu amigo aqui duraria mais. Imagine… Um homem deste tamanho, forte, se urinou todo na primeira vez que me alimentei dele, que vergonha… – a vampira soltou os braços do grandalhão e amparou o corpo como se pegasse uma criança. – A única vantagem de fracos assim é que o pavor deixa o sangue mais saboroso. Mas na segunda refeição que fiz dele seu coração parou, estragando meu jantar. Agora, preciso me livrar do corpo, que já está cheirando mal aqui, concorda? Espero que você dure bem mais.
Desesperado, Adriano assistiu Ludmilla quebrar os membros do cadáver e arrancá-los como se desmontasse um manequim. Por último, ela arrancou a cabeça do sujeito e saiu do cômodo. Os punhos de Adriano ficaram esfolados com as tentativas que ele fez de se soltar, e um suor frio brotava em sua testa. Ele não conseguia evitar de olhar para a pilha disforme de partes humanas que o outro prisioneiro fora transformado, até que Ludmilla retornou trazendo sacos pretos. Ela recolheu os pedaços do homem esquartejado e se aproximou novamente de Adriano.
-Vou levar seu colega para aquele passeio a beira mar que te prometi, mas não demoro. Fique à vontade aí, meu querido…
Ludmilla saiu levando consigo os sacos pretos. De onde estava, Adriano pode ouvir minutos depois o ronco do PT Cruiser se afastando na noite e chorou, certo de que em breve seria ele quem ocuparia outros sacos…
Se alguém passou por aquela rua, naquela madrugada, não pode ouvir os lamentos de Adriano. Viu apenas um velho sobrado em ruínas…

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