seringal

Não faltava muito para amanhecer, mas os seringueiros como sempre já estavam embrenhados na mata, sangrando os troncos que lhes davam o sustento. A temporada das chuvas torrenciais já se despedira e a coleta de látex parecia promissora naquele rincão do Acre, o povoado de Seringal Sardinha. Vários golpes do facão comandado pela mão firme e calejada abriam caminho na mata em busca das arvores que choravam o líquido precioso e o ar fresco da madrugada não impedia o suor da lida difícil, lavando a pele morena curtida de sol. Jesuíno, como seus vizinhos, não se importava, aquela era sua rotina, sua vida. Era desde criança acostumado ao trabalho na mata, cujos segredos foram passados pelo seu pai, que os recebera de seu avô. Portanto, ignorava os sons naturais da mata, não se assustando nem quando ouvia o miado de onça, pois sabia o que fazer.


Mas naquela madrugada surgiu de repente um som incomum, um lamento de cria sofrendo. Todos pararam os golpes de facão para ouvir os mugidos finais de um bezerro, que cessaram rápido. Jesuíno e Silvano foram na direção de onde veio o som, na parte fechada da mata, prontos para dar cabo da onça que certamente tinha capturado um bezerro e devia estar fazendo sua refeição ali. Mas o que viram não era uma onça…
Jesuíno estacou quando viu aquilo. Algo que parecia um cachorro grande, de costas fortes e pelos eriçados, rasgava ferozmente o pescoço do pequeno bezerro. Deu um passo para trás e fez sinal para Silvano recuar e se esconderem. Não daria para enfrentar aquela coisa apenas com um facão! O bicho bufou e ergueu o focinho para o alto, com se sentisse a presença deles. Silvano fez o sinal da cruz e conteve um gemido, para não denunciar a posição dos dois. Do ponto onde estavam, se o dia estivesse mais claro já, poderiam ver melhor; mas a escuridão e as folhagens criavam sombras que confundiam a vista. Mesmo assim, Jesuíno teve a certeza que aquilo não era nada que já tivesse visto na mata. A fera rosnou e se embrenhou no mato com agilidade, deixando aos pés da árvore os restos do bezerro. Parecia que, graças a Deus, desistira dos homens. Quando tudo ficou silencioso, correram de volta aos outros e contaram o que viram. Em conjunto, decidiram avisar as autoridades.

 

Como um rastilho de pólvora, a notícia tomou conta do pequeno povoado. Os policiais Mendes e Souza, junto com o vereador Chico Peres, passaram três dias na mata buscando o rastro da criatura, mas voltaram de mãos vazias e com mais histórias. Encontraram pegadas, restos de vários animais, e embora alegassem ter se deparado com a criatura, não conseguiram capturá-la. “Nunca sentimos tanto medo, mesmo estando armados!” – disseram. De Seringal Sardinha, os boatos alcançaram a cidade de Manoel Urbano. Pouco mais de 250 quilômetros separam essa cidade da capital, Rio Branco. Portanto, não demorou até que os jornais da capital dessem atenção ao caso: o “Notícias Populares” e o “Gazeta de Rio Branco” enviaram repórteres para verificar o que acontecia na região.
Mesmo toda a população estando apavorada, e várias famílias terem optado por se afastar da região por medo do lobisomem, ainda não aparecera nenhum relato de ataque às pessoas. Parecia que o lobisomem do Acre era furtivo e escolhia apenas animais como vítimas, evitando ao máximo contato com humanos.

-Essa conversa é balela daquele pessoal! – dizia Gilberto, repórter de um periódico menor da região. – querem atenção, é isso! Já ouvi dizer até que o lobisomem é um Mapinguari, bicho folclórico que só tem aqui nesse fim de mundo… Já foi vereador, policial, repórter e caçador oportunista lá, mas ninguém pega o bicho. Todos dizem que já deram as fuças nele, já descarregaram arma, mas a carcaça do bicho ninguém mostra! Ou esse pessoal é muito ruim de tiro ou esse assunto de lobisomem é conversa prá boi dormir!

Seu Jerônimo, dono do bar onde Gilberto tomava uma cerveja e uma aguardente todo dia ao final do expediente, se limitava a balançar a cabeça e secar seus copos com um pano de prato encardido que mantinha jogado no ombro o dia todo.

-Pois aproveita que amanhã é sexta feira 13 e vai você mesmo conferir, ô Gilberto! – disse.

-E vou mesmo! Vou dar fim nessa mentira é logo. Hoje à noite tô indo para Manoel Urbano. Na segunda feira passo aqui e te conto tudo.

-Boa viagem então Gilberto! Espero que venha mesmo, que tô curioso de saber se é verdade isso!

 

Naquela mesma noite, Gilberto jogou no banco de trás do fusca vermelho sua mochila com algumas roupas e objetos, como escova de dentes, xampu e barbeador. Pouca coisa na verdade, já que pretendia ficar em Manoel Urbano por no máximo dois ou três dias, afim de apurar a história do lobisomem acreano. A rodovia BR-364, apesar do estado de abandono, era bem tranquila para viajar à noite no trecho que ia de Rio Branco a Manoel Urbano. Chegaria lá por volta das dez da noite e pernoitaria numa pousada, começando sua investigação na sexta-feira logo cedo. A bela lua cheia que dominava o céu do Acre seria sua acompanhante na pequena viagem noturna.

Como prevera Gilberto, a rodovia estava deserta, exceto por um ou dois caminhões que cruzaram com ele indo em sentido Rio Branco. Embalado pelo som de Milionário e José Rico, sua dupla sertaneja preferida, o repórter seguia célere no valente fusca 72 pelo asfalto empoeirado. Distraído, não percebeu quando um vulto repentinamente surgiu na estrada logo à sua frente, obrigando-o a afundar o pé no freio do fusquinha e virar com toda a força a direção para a direita, na tentativa de desviar do obstáculo.

 

Não atropelou a capivara assustada que se refugiou no mato na margem esquerda da rodovia, mas o prejuízo foi inevitável: ao desviar-se, enfiou a dianteira do velho fusca no mato e o pneu direito foi rasgado por uma pedra pontuda. O para-lama do fusca também tinha ficado inutilizado, retorcido e preso à lataria, a parte que ficava perto da porta se levantara com um rasgo causado pela ponta de pedra. Isso atrasaria um pouco sua viagem, mas o pior mesmo foi o susto! Se tivesse atropelado o bicho, aí sim seria um desastre! Contudo, seu azar não estava completo ainda. Ao verificar o estepe, descobriu que estava vazio. Restava apenas esperar que passasse alguém naquele trecho deserto e pedir ajuda. Gilberto desligou os faróis do carro para não arriar a bateria e acendeu um cigarro, recostado na lateral do carro. A luz da lua cheia iluminava até bem o cenário, depois que sua visão se acostumou com o escuro. O céu coalhado de estrelas exibia um espetáculo silencioso, deixando Gilberto admirado. Há anos não ia para o interior e se esquecera como o céu noturno era bonito na área rural. Lembrou-se das aventuras adolescentes, quando fugia escondido para o pasto acompanhado de Maria Rita, a cabocla com quem descobriu os segredos do corpo feminino…

 

Um estalo no mato o assustou, tirando-o de seu devaneio e chamando sua atenção. Olhou em volta sobre o teto do carro. Algo se mexeu no mato, fazendo a folhagem balançar. “Outra capivara?” – pensou Gilberto. Sua pergunta feita mentalmente foi respondida de imediato, quando a criatura se ergueu e saltou em direção ao carro, cravando garras afiadas e potentes no capô e teto do fusca, com tanta força que o para-brisa se estilhaçou. Instintivamente Gilberto recuou em direção à rodovia, ao mesmo tempo que soltava um grito ao ver horrorizado a face da criatura, onde um focinho ocupava o espaço entre dois grandes olhos amarelados e brilhantes, envolvidos por espessa pelagem negra. Com um rosnado o lobisomem exibiu a arcada de dentes poderosa, capaz de arrancar o braço de um halterofilista com apenas uma bocada. Dentes de cão ou lobo, só que muito maiores! A carroceria do fusca rangeu e o teto afundou com o peso do ser quando ele se levantou sobre o carro e soltou um uivo animalesco. Sua pata traseira escorregou do capô e foi ferida pela lata do para-lama danificado. Gilberto não percebeu o que aconteceu, urinou nas calças e desfaleceu no meio da rodovia.

 

O sol começava a tingir de vermelho o horizonte quando um caboclo seringueiro encontrou-o. Ferido, Gilberto não dizia coisa com coisa, e agarrou-se aos ombros do homem que o socorreu. Três marcas profundas e cheias de sangue coagulado iam de seu ombro até quase o meio do peito, o casaco rasgado estava empapado de sangue da ferida.

Naquela sexta feira 13, o Acre teria mais um lobisomem para espalhar terror e novas histórias na região…

 

Abaixo, segue a notícia que deu origem a este conto:

noticia lobisomem

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