A luz do sol invadia o quarto fatiada pela persiana da janela em dezenas de faixas, listrando a parede e os móveis em sombras frias e luzes mornas. Leandro acordou a contragosto e atirou aos pés da cama o cobertor vermelho, irritado pelo canto dos canários de seu pai: aquela meia dúzia de bichos irritantes e dependentes nas gaiolas que ficavam na área de serviço, como condenados à prisão perpétua que ironicamente cantavam para incomodar seu sono matinal. Se pudesse, daria pena de morte a todos e se livraria da irritação que lhe causavam!

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A casa já estava mesmo cheia de sons outros que não o canto dos pássaros. A máquina de lavar rugia a tarefa dada pela mãe quase abaixo da janela de seu quarto, as louças e talheres já eram manuseados na cozinha e completavam a orquestra de sons das manhãs de sábado. Não daria mesmo para ficar dormindo, era injusto culpar os canários…

Ainda meio sonolento, sentou-se na cama e esfregou os olhos. Sobre sua escrivaninha estava uma caixa de papelão que não vira ao deitar-se. Levantou e pegou o pacote. Lacrado, sem identificação, a não ser seu nome escrito a caneta, com uma letra esquisita, rebuscada. Sentiu o peso: era leve mas não muito. Sacudiu e algo balançou lá dentro. O que seria?

A porta do quarto foi aberta um pouco e a face gorda de Dona Marina, sua mãe, apareceu.

-Vem tomar café, Leandro. Fiz bolo de cenoura.

Como ele não percebeu o cheiro antes? Bolo de cenoura era seu preferido e, com a cobertura de chocolate cremosa feita pela mãe, era algo irresistível! Essa notícia era tudo que precisava para despertar de vez e melhorar o humor!
Largou sobre a mesa a caixa e foi até o banheiro lavar o rosto e tirar o gosto ruim da boca, para saborear o café preparado pela mãe. Na cozinha, sua irmã Aninha já terminava de devorar uma generosa fatia do bolo e se preparava para cortar mais uma. A mãe conferia no tablet de Aninha o resultado da loteria, em que jogava toda semana religiosamente, mas pela cara que fez, mais uma vez não dera em nada. O pai não estava, devia ter saído cedo como todos os sábados para jogar bola com os amigos da empresa.

Leandro se sentou ao lado de Aninha, pegou uma grossa fatia de bolo, uma xícara de café preto e um pãozinho francês coberto de gergelim. Enquanto comia o bolo, se lembrou da tal caixa que deixou no quarto.

-Mãe, que caixa é aquela no meu quarto?

-Caixa? Não sei…

-Deixa. O pai deve ter colocado lá antes de sair. É uma caixa com meu nome escrito.

Depois de terminar o café da manhã Leandro voltou para o quarto, curioso para descobrir que pacote era aquele. Presente de alguma garota? Zueira dos colegas da escola? Só abrindo para saber…
Com a tampa de uma caneta ele rompeu o lacre e abriu a estranha caixa, descobrindo decepcionado que dentro dela havia um tipo de caderno com capa de couro e uma caneta esquisita, com corpo de material esbranquiçado e polido. Ela é que balançara dentro do pacote quando o sacudiu.

Ao abrir o caderno, um cartão caiu. Tinha uma mensagem naquela mesma letra rebuscada da caixa:
“Anote numa página deste caderno um desejo, depois feche o caderno. Quando receber o sinal, abra-o novamente. Na parte de baixo da página estará uma missão a cumprir para ter seu desejo realizado.”

-Que baboseira é essa? – disse Leandro sozinho no quarto, estranhando a proposta no cartão. Olhou demoradamente para ele, depois pegou o caderno e folheou. Páginas vazias e amareladas pelo tempo, quase frágeis. A capa tinha o couro ressequido por décadas de existência, mas um desenho em baixo relevo podia ser notado: algo tipo uma figura com serpentes ou cipós em volta. Não parecia um objeto comum. A caneta, então!… O material do corpo parecia marfim, algum tipo de osso, aparentemente tão antiga quanto o caderno… Tentou riscar o cartão e nada, não havia tinta ali. A ponta de metal, tipo pena bem fina e brilhante, tinha uns arabescos em volta. Tocou a palma da mão com ela e percebeu o quanto era afiada, pois uma gota de sangue brotou imediatamente no local. Podia jurar que sentira uma fisgada, como se a caneta o tivesse mordido, que ridículo!

Então tentou a página do caderno. Estranhamente, um risco de cor vermelho escuro tingiu o canto da página. Mais um. Ali a ponta da caneta corria macia, como nova!
“Bom, se é para escrever um desejo, veremos se o troço funciona mesmo…” – pensou ele, girando na cadeira e colocando o caderno aberto sobre o colo.
“Quero um carro novo” – escreveu. Ficou olhando o caderno um tempo. Fechou, abriu de novo… Nada. Lembrou-se da instrução: haveria um sinal.

Fechou o caderno novamente, então sentiu um calor nas mãos, vindo da capa do caderno! Calor que aumentou rapidamente, a ponto dele jogar o caderno sobre a cama, assustado! O caderno caiu aberto, exibindo a primeira página onde ele escrevera “Quero um carro novo”. Pouco abaixo da linha escrita por Leandro surgiu a frase:

“Abrace alguém que você ama”

Ainda estranhando o intrigante acontecimento no quarto, Leandro saiu e deixou o caderno lá. A frase era tão inocente, chegava a ser pueril: “Abrace alguém que você ama”, com aquela letra antiga, artisticamente desenhada. Como o simples fato de abraçar alguém realizaria seu desejo? Que brincadeira esquisita era aquela? E quem seria o responsável?

Pelo sim, pelo não, resolveu fazer um teste… Saiu do quarto e procurou Aninha, sua irmã. A menina estava na sala vendo desenhos animados na TV, rindo das estripulias dos seus personagens prediletos. Foi até ela e, sem nada explicar, a abraçou forte. A garota, surpresa pelo inesperado gesto de carinho do irmão, envolveu seu pescoço retribuindo o abraço apertado, afundando o rosto no peito de Leandro. Mas ele não conseguiu soltar a irmã, nem mesmo quando ela reclamou que ele a estava apertando muito. Seus braços, como se tivessem vida própria, apertavam cada vez mais a menina! Como se estivesse em transe, Leandro não ouvia as reclamações da criança.

-Para Lê! Me… larga… Solta! Aff… – reclamou a menina – ME SOLTA! – gritou – MÃE, O LÊ TÁ ME MACHUCANDO!

Os olhos de Leandro reviraram nas órbitas, Aninha respirava com dificuldade envolta por braços rijos como aço. Dona Marina havia saído para comprar algo na quitanda no fim da rua, e nem imaginava o que estava ocorrendo em casa. Não havia ninguém para escutar os últimos lamentos de Aninha, que sufocava debatendo-se no abraço do irmão.

-Para com… isso… AGORA! – a voz ficava mais fraca e ela tentava se soltar arranhando os ombros de Leandro. Os braços apertavam mais, como uma jiboia pacientemente envolvendo sua presa. Leandro, mudo, não reagia aos apelos da irmã. Um “clec” se fez ouvir, depois outro. As costelas da menina quebravam no aperto mortal. Ela desmaiou de dor. Leandro começou a mudar. Caiu na sala sobre a mesa de centro, sem soltar a criança e quebrando um dos pés do móvel. Sua pele se enchia rapidamente de escamas e seus braços tomavam a forma de tentáculos, apertando impossivelmente o corpo da menina, enrodilhando em volta das pernas dela, ao redor do pescoço. Novos estalos. Sangue escorria da boca da criança, agora morta, sujando as escamas do que havia sido os braços de Leandro, mas agora eram poderosos feixes de músculo cobertos por um couro asqueroso e úmido. As pontas daqueles tentáculos se retorciam como serpentes malignas, que aos poucos foram soltando o corpo flácido de Aninha que repousou grotescamente sobre o peito do irmão, empapado de sangue. Aos poucos, a transformação de Leandro retrocedeu, mas ele permaneceu caído no assoalho da sala, inconsciente, com o cadáver ensanguentado de sua pequena irmã sobre o peito.

Dona Marina saiu da quitanda equilibrando duas sacolas, uma com frutas diversas e outra com alface, cheiro verde, tomates e outros vegetais. Pouco à frente, na calçada, um pequeno papel lhe chamou a atenção. Curiosa, largou a sacola de frutas e pegou o papel, um bilhete numerado de rifa com a foto de um belo SUV importado, daqueles coreanos. Espantada, notou que o número do bilhete era exatamente o mesmo do primeiro prêmio da loteria que conferira horas antes, e pensou na cara do filho quando visse aquilo! Leandro certamente ficaria entusiasmado com um carro novo daqueles na garagem!

 

 

 

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