Renata Cezimbra nos oferece um conto ambicioso, por usar como personagem uma figura histórica. É o primeiro conto da antologia que ela está preparando, intitulada “De vampiros portenhos e sonhos escabrosos”. Vamos viajar com ela para a Buenos Aires do final da década de 1930, leitores:

necroterio

-Você parece nervoso, Lorenzo. É melhor irmos com isso de uma vez por todas. O corpo será transportado amanhã bem cedo e precisamos deixar os documentos prontos antes do pôr do sol – disse um homem que acabara de extrair uma bala do coração do cadáver que se encontrava à frente deles.

-Nunca pensei que logo eu seria encarregado de auxiliar o senhor em semelhante autópsia. Quem diria que o doutor “De la Torre” tiraria a própria vida – o rapaz engoliu seco ao que o legista chefe imediatamente replicou: – Depois de tudo o que ele passou, não me surpreendo do cansaço dele de viver. Pobre velho, somente queria o melhor para nosso país, mas a maioria dos políticos daqui não vale sequer uma cuba de esterco.

-Concordo, mas, não consigo deixar de pensar que ele poderia ter tentado mais – disse o jovem olhando fixo o morto.

-Garoto, você ainda é novinho e por isso entendo suas palavras, mas quando você chega a uma determinada altura da vida, as coisas mudam para pior. E não importa o quanto você tente, melhores não ficam. Entonces, aprovechas a la vida cuanto puedas, Lorenzo. Ella es corta y cuando menos esperas, termina – disse o velho médico, deixando o rapaz arrepiado com semelhantes palavras.

-O senhor quer dizer que eu deveria fazer mais coisas consideradas “feias e imorais” pelas senhoras de bem? – perguntou o jovem, lembrando-se de que seu superior daquela noite era assíduo frequentador do bordel “Media Luna”.

-Mais ou menos assim, rapaz. Um dia destes, eu ainda o levo para conhecer as meninas de Teresa Maldonado! Cada belezinha que iria te acender as ideias, meu menino dos olhos de safira! – riu o velho, que sempre se encantava com os azuis olhos do jovem subordinado. Embora parecesse um adolescente perto da idade adulta, era na verdade um rapaz de 23 anos ainda virgem. Não se sabia o porquê.

Os risos se interromperam inesperadamente quando o homem lembrou-se de que precisava sair para resolver alguns assuntos de maior urgência: – Rapaz, eu vou encarregá-lo de terminar de autópsia do doutor Lisandro. Trate de dar seu melhor antes que o sol se ponha porque amanhã será o transporte.

O homem logo saiu, deixando Lorenzo sozinho com o cadáver ainda descoberto do político e advogado. Ele parecia somente dormir, pois a expressão era estranhamente serena para quem havia cometido suicídio. Razão pela qual o legista se incomodou e cobriu o morto com o lençol do necrotério. Depois, cuidou dos documentos que determinavam a causa mortis da pessoa. Assim, Lorenzo acabou por sair da sala por um longo período de tempo, este acabando por ser aonde um estranho processo interior, acontecendo desde a retirada da bala, iria se concluir.

Nesse meio tempo, outro cadáver, um senhor da mesma idade de Lisandro de la Torre e com uma aparência consideravelmente semelhante, chegou ao necrotério. Lorenzo encarregou-se deste, ficando mais tempo fora da sala onde o advogado, e político, morto se encontrava sofrendo o processo que lhe daria um novo, e estranho, sopro vital.

Terminado o trabalho com o outro morto, o jovem legista substituto levara o cadáver de volta à sala onde se encontrava o doutor de la Torre. O sol havia acabado de se por na cidade e a noite se fazia aproximada de Buenos Aires. Tal hora sempre deixava Lorenzo assustadiço, pois o necrotério ficava com um ar profundamente macabro e isso não tornava seu trabalho mais fácil.

Alguns minutos depois de ajeitar o novo morto na sala, Lorenzo sentiu o ar faltar. Percebeu que o lençol cobrindo o cadáver de Lisandro de la Torre parecia estar ocupando alguma outra coisa. O corpo estava mais fino, como se o processo de decomposição tivesse começado antes do tempo. Não era possível, pensou o jovem contendo o pavor que queria tomá-lo inteiro. Aproximou-se e descobriu cuidadosamente o cadáver, percebendo que algo estava realmente fora do lugar…

-Meu… Deus. O que… aconteceu? – Lorenzo questionou-se ao ver que o senhor de la Torre parecia ter voltado vários anos no tempo depois de morto. Logo disse a si mesmo, tentando não entrar em pânico, mas fracassando:

-Alguém deve ter levado o cadáver para outro lugar e este deve ser outro infeliz! Mortos não rejuvenescem! O que está havendo, meu bom Senhor?

-Deus do céu, rapaz! Ouvem-se lá de fora seus gritos e… – o legista chefe chegara rapidamente à sala de autópsias após resolver seus assuntos e ouvir as apavoradas exclamações. Ficou estático: – Quando perguntei sobre se alguém havia movido algum cadáver daqui, disseram-me que nada houve, mas, então, para onde levaram o doutor Lisandro?!

  • Não sei! Não posso conceber, porém, que um cadáver rejuvenesça, doutor Tomás! – exclamou Lorenzo quase aos prantos de tanto medo.

Tomás aproximou-se e ao ver o rosto agora descoberto de Lisandro, quase não pôde conter um grito. Reconheceu, ao lado da mesinha, os objetos pessoais do morto: – Por Deus Nosso Senhor e Pai! É realmente ele! Não pode ser possível, tem que haver algum engano!

-Doutor, eu estou com muito medo! – disse Lorenzo se afastando do morto.

-É claro que você tem que estar apavorado porque estou quase em pânico! Não estou em condição alguma de fazer algo porque não sei o que há! – o legista quase berrava, tremia muito.

Foi quando um barulho parecendo um guincho feroz fez com que os dois se virassem na direção da mesa onde estava o advogado e político. Viram quando nada menos que o próprio abriu os grandes olhos escuros, agora apresentando um tom vermelho vivo. Estavam quase se espremendo em um apavorado abraço. De repente, Lisandro escancarou a boca linear e retamente desenhada. Dela saíram dois compridos e pontudos colmilhos, popularmente chamados de “caninos”. Os legistas entraram em terrível pânico. Correram porta afora para alertar a recepcionista para trancar todas as portas e janelas do andar intencionando impedir uma desgraça.

Os dois não haviam visto quando Lisandro de la Torre se levantou da mesa onde se encontrava. Não se importava nem um pouco se vestia algum tecido por cima e se deixaria um prédio inteiro em polvorosa. No entanto, o cadáver redivivo encontrava-se confuso, não compreendendo o acontecido. Só compreendia que podia novamente andar, enxergar, ouvir, sentir, tocar… Falar: – Não… pode ser.

Via suas unhas alongadas e pontudas. Tudo à sua volta era pintado de um forte tom rubro misturado ao negrume que era comparável à própria noite na sua essência mais temível. Sentia algo anormal em seus dentes incisivos e ainda pior sentia sua garganta, que parecia queimar implorando por algo. Foi quando ouviu vozes no corredor…

-Lorenzo, não seja louco! Você morrerá se voltar! Eu sei exatamente o que é aquela coisa! Infelizmente o doutor de La Torre tornou-se apenas uma casca de algo maligno sedento por sangue!

-Não posso permitir ele sair deste prédio e matar inocentes! Prefiro dar minha vida ao invés disso! – exclamou o rapaz, cujas palavras criaram estranha comoção no coração do morto recém-revivido.

-Doutor… De la Torre? – o jovem legista se encontrava de volta na sala. Não parecia intimidado com os caninos saídos do vampiro e sua nudez explícita.

-Enzo? – a criatura aproximou-se, observando-o quadro a quadro e finalmente confirmando uma suspeita que há muito tinha sobre seu falecido companheiro de bancada. Colocou sua fria mão carinhosamente sobre o rosto dele: – Lorenzo, não é?

-Sim, é meu nome – respondeu ele para em seguida abrir o jaleco, o colete e a camisa e inclinar o pescoço submissão: – Alimente-se, doutor Lisandro. Me mate se quiser, mas, não faça mal a outros.

De fato, ele tinha sede. Muita. Ao mesmo tempo, não tinha coragem de fazer mal ao único pedaço restante de seu melhor amigo. Não era justo. Ele não precisava dar sua vida por gente que não merecia. No fim das contas, humanos eram seres mesquinhos e patéticos não merecedores de nenhum sacrifício de outrem. Ainda mais quando era um anjo tão belo quanto aquele legista de lindos olhos azuis tão bondosamente se oferecendo para ser imolado.

-Não, Lorenzo – respondeu ele para depois dizer: – Jamais faria mal a você. Isso é manchar a memória de Enzo.

-Como assim? – o chefe do rapaz não entendia nada do que estava acontecendo embora achasse Lorenzo parecido demais com Enzo Brodabehere. Será que…? Não podia ser! Talvez fosse.

-Você ainda não percebeu? – o agora vampiro Lisandro aproximou-se do homem mais velho de forma ameaçadora. Ele nada pôde dizer enquanto ouvia seu interlocutor morto-vivo dizer ao rapaz: – É melhor você virar para o outro lado. Não desejará ver o que farei com ele.

-O meu sangue é muito mais jovem. Por que se alimentar dele? – Lorenzo não entendia a mudança repentina de Lisandro.

-Você já se perguntou o porquê do seu pai ter morrido? – a questão deixou o jovem legista repentinamente triste. Em verdade, ele sabia. O discípulo de Lisandro de la Torre havia sido morto durante uma sessão no Congresso. Lorenzo não exatamente entendia os motivos que haviam levado ao homicídio brutal do pai com quem pouco havia convivido em seus vinte e três anos. Sabia, entretanto, que as balas eram para Lisandro de la Torre. Não havia colaborado na falta de informações o fato do rapaz ser filho de um político com uma prostituta de luxo.

-Na verdade não sei. Não conversávamos muito. Sempre soube que seria um escândalo caso me revelasse sendo filho dele – respondeu o rapaz. Logo notou uma mudança assustadora na expressão de seu chefe, que suspirou: – Se eu soubesse de tal informação antes, eu a teria usado de forma espetacular. No entanto, Brodabehere sempre foi ladino de primeira. Nunca imaginei que as coisas acabariam daquele modo. Se você soubesse como sinto por isso.

-Você… não… sente… nada! Seu bastardo sem coração! – De la Torre envolveu o pescoço do homem mais velho com força dizendo: – Os seus amigos influentes tentaram me matar e levaram um pedaço de mim com eles! Vocês me tiraram a única pessoa com quem fui capaz de criar um laço forte o suficiente por uma vida! Eu matarei cada um de vocês com requintes cruéis.

-Por favor, eu imploro. Sou apenas um legista! – ele exclamava quase sufocado pela imensa força do vampiro.

Lorenzo se virou para trás. Não se permitiu sorrir. Uma pessoa que fazia amizade com assassinos, ainda que indiretos, não podia ser boa. Entretanto, sua virada de costas durou pouco. Logo observou fixamente o vampiro se alimentar do sangue envelhecido de seu chefe. O homem implorava em vão por ajuda, pois nenhuma voz se ouvia nos corredores próximos e adjacentes. O rapaz esquecera-se da recepcionista ir embora antes do anoitecer. E o outro só aparecia após as oito.

Não havia demorado. O legista chefe se encontrava seco no chão da morgue. A expressão mostrando que seus últimos momentos haviam sido o mais puro terror. O jovem subordinado logo despiu totalmente o cadáver e entregou as roupas do mesmo para Lisandro, que perguntou surpreso: – Tem certeza? Não está com medo?

-Você não vai querer sair totalmente nu porta afora, não é? – perguntou o rapaz para em seguida pegar um dos lençóis usados do local. Enrolou nele o corpo do chefe, que encontraria seu destino final dentro do porão. Um armário velho seria seu eterno caixão.

-Não, absolutamente. Embora eu não sinta mais frio ou calor – riu Lisandro de modo misterioso. O jovem em seguida fez o que havia se proposto a fazer. Voltou trazendo a expressão de alguém que havia tirado grande peso dos ombros.

-Antes que saiamos, temos que dar um jeito na sua morte oficial. O corpo daquele idoso que chegou depois de você vai servir. É só o deixarmos melhor aprumado e daí teremos o cadáver oficial do Fiscal da Pátria – disse o jovem para depois fazer as preparações do cadáver forjado. O pobre morto não possuía identificação ou familiares, então, não seria problema que ele fosse enterrado no lugar do verdadeiro Lisandro, agora imortal e pertencente à noite.

O mesmo que pensava em como havia acontecido tudo aquilo. Desejava morrer, mas algo havia dado incrivelmente errado, ele só não sabia qual parte. Apenas sabia, até o momento, de uma coisa: tinha pelo menos uma razão para permanecer vivo. Lorenzo Reyes, o filho de seu discípulo. Um pedaço de quem ele mais amava.

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