dark-side-of-saci-perere2

Em meio a todo o caos urbano típico de uma grande cidade como São Paulo, encravado na região central e tombado como patrimônio histórico, encontra-se o Parque da Luz. Uma área verde com cerca de 113.000 metros quadrados, criado como horto botânico pela Coroa Portuguesa em 1798 e aberto ao público somente em 1825 como Jardim Botânico, no período do Brasil Imperial, tornando-se o primeiro espaço de lazer da população da jovem metrópole de São Paulo. Seus belos jardins simétricos de inspiração francesa e antigas construções em estilo inglês encantam a vista durante o dia, mas à noite, dão um ar tenebroso ao local. E foi lá que tive a experiência mais estranha da minha vida…

Já estava entardecendo quando entrei no parque para espairecer um pouco, observar as dezenas de esculturas do acervo da Pinacoteca, de artistas como Brecheret, Amílcar de Castro, José Resende e outros que não me lembro o nome. Envolvido por aquela paz apenas abalada pelos moradores de rua que ali circulam, me esqueci completamente que os portões se fecham às dezoito horas! E acabei ficando preso dentro daquele oásis lúgubre.

Temendo os vigias do local, que me pediriam explicações sobre o que eu fazia ali depois de escurecer, me escondi entre as árvores perto de um chafariz. Sons provocados pelo roçar das folhagens e por aves noturnas ou outros animais me causavam sobressaltos, mas de repente tudo ficou mudo. De onde estava, ouvi apenas um assobio agudo que me feria os ouvidos, sem conseguir precisar de que direção vinha. Tentei olhar entre as folhagens mas nada vi de imediato. Um novo assobio sibilou bem perto de mim e dei um grito, revelando minha posição a quem ou o que quer que fosse o emissor daquele som. Então dei de cara com ele!

Uma silhueta baixa e magra, muito negra, com olhos vermelhos como fogo e dentes brancos ameaçadores, num sorriso de escárnio. Um cheiro de fumo invadiu minhas narinas. Com braços magros ele afastou as folhagens e eu me senti paralisado de medo com sua aproximação. Não conseguia desviar os olhos daquele ser, que me encarava silencioso e sorridente, embora nada amigável, com aqueles olhos de fogo!

Com a luz vinda dos postes pude ver melhor a coisa. Era do tamanho de um garoto magro de doze, treze anos, negro como uma noite sem luar, sem camisa e portando um tipo de gorro vermelho-sangue. Ele me estendeu a mão e gargalhou. Fiquei apavorado ao ver que a mão que ele me estendia tinha um grande furo no centro, onde deveria ser a palma!

-Tem fumo aí, sinhô? – disse numa voz melodiosa, sem deixar de me olhar nos olhos.

Tremendo, tirei do bolso um maço de Marlboro e lhe entreguei, mas ele olhou, cheirou e jogou longe. Deu uma nova gargalhada gutural e desapareceu na minha frente, como se nunca tivesse existido! Saí correndo apavorado, ouvindo ainda aquele assobio longo e penetrante, até que encontrei um dos vigias do parque, que me agarrou pela camisa e, apontando uma arma, perguntou o que eu fazia ali.

Tentei explicar o que aconteceu, mas ele riu de mim, me explicando:

-Isso que dá ficar fumando erva aqui nesse parque, playboy! Dá pra ver que você não é mendigo, então deve ser desses drogados que a gente pega sempre aqui.

-Não senhor! Não uso drogas, não! Mas você precisava ver aquela criatura! Aí ia acreditar no que estou contando!

-Quem disse que não acreditei? Trabalho aqui há muitos anos moço… Já vi de tudo. – ele então retirou do bolso um pedaço de fumo de corda, daquele tipo que encontramos em casas do norte, e me mostrou.

-Falei de drogado porque só o que dá aqui é isso: mendigo, drogado ou gay, que você não parece ser. O que você viu foi um Saci, que se esconde nesse parque desde não sei quando, e sempre pede para a gente um pedaço de fumo. Por isso tenho um guardado comigo, pois ele faz o diabo com quem não lhe agrada. Até onde eu sei o bichinho não mata ninguém não, só assusta e apronta, mas é bom não facilitar com essas coisas do além… Agora, vou te deixar na guarita até amanhecer e depois você vai embora. Nesse horário nem metrô tem mais e lá fora é mais perigoso que aqui dentro.

Até hoje seu Francisco trabalha de vigia noturno no Parque da Luz, e sempre passo lá para levar um pedaço de fumo para ele…

Fonte da imagem: Chiav

NOTA DO AUTOR:

Escrevi esse conto em homenagem ao Dia do Saci, um esforço para valorizar o folclore brasileiro, rico de criaturas místicas fantásticas, esquecidas pelos jovens atualmente focados apenas no Halloween, o Dia das Bruxas americano. Valorizem a cultura nacional, gente!

Anúncios