Carolina Paula mora em Atibaia, é leitora do blog e protagoniza o primeiro conto da série “Quer ser um personagem?”

wolfman

Carolina chegou em casa as 18:30hs, como fazia todos os dias. A tarde estava quente depois de uma pancada de chuva típica do verão de Atibaia, e o céu claro prometia uma noite agradável. O trabalho na empresa de telemarketing tinha sido a rotina de sempre, ligando para várias pessoas tentando vender a assinatura de uma revista voltada para Pet-Shops e Veterinários, um mercado bem específico. Isso fazia seu dia meio monótono, mas era o seu ganha pão, então melhor não reclamar… Aprendia até muita coisa interessante, pois veterinária era sua paixão e pretendia cursar essa faculdade em breve.

Faminta, Carolina deixou a bolsa sobre o sofá-cama do quarto, onde estava refestelado seu pequeno gato Marcelino que nem se incomodou, e voltou para a cozinha. Enquanto olhava o que tinha na geladeira para um lanche rápido, Tempestade, sua gata cinza com manchas amarelas, se enrodilhava com o rabo erguido entre suas pernas na esperança de ganhar alguma guloseima. Lá fora estavam ainda Neguinha, a velha e querida cadela vira-lata e o coelho preto, presente da avó do namorado e que ainda não tinha ganhado um nome, por falta de tempo ou de inspiração de Carolina.

Depois de comer um pão com mortadela com café bem quente, para decepção de Tempestade que não ganhou uma migalha sequer, Carolina preparou a janta e tomou seu banho. Finalmente, cumprida toda a rotina do dia, Carolina foi para seu lugar preferido: o quarto de paredes alaranjadas, onde se acomodava no sofá-cama com seus gatos para ler ou assistir um episódio de suas séries preferidas. Naquela noite passaria Sobrenatural e ela não queria perder! Como seu namorado chegaria tarde, poderia curtir a TV sossegada.

Neguinha, pela idade avançada (17 anos é muito para uma cadela…) ou por ser surda, era bastante quieta. Por isso Carolina estranhou os latidos insistentes da cadela, coisa nada normal. Ao abrir a porta, a primeira impressão que teve foi que alguém parou um carro de frente para sua casa, com potentes faróis acessos. A forte luz a obrigou a cerrar os olhos e procurar por Neguinha, que inexplicavelmente parou de latir.

No meio de toda aquela luz, uma silhueta de alguém grande apareceu, com braços fortes e tórax largo, mas era uma sombra contra a luz e não deu para Carolina discernir o que era, até que mãos fortes com garras e pelos ásperos a puxaram e, horrorizada, pode ver quem a capturou: um ser com uma face repugnante, totalmente coberta por pelos negros. Separados por um focinho curto estavam olhos brilhantes e vermelhos como fogo. A criatura ostentava grandes dentes afiados e parecia rosnar para ela, que desfaleceu nos braços do monstro.

Ao acordar, a primeira coisa que Carolina sentiu foi frio, mas uma luz suave e morna banhava seu corpo. Percebeu que o frio vinha da superfície onde estava deitada, que não era o confortável sofá-cama de sua casa. Tentou se mover, mas o corpo não obedecia. Sobre ela, todo o teto do lugar emitia aquela luz suave, azulada.

Apenas conseguia mover os olhos e viu, a um canto do lugar, em caixas transparentes, todo o seu zoológico particular. Neguinha deitada na caixa maior, em outras duas ao lado dela estavam Marcelino e Tempestade, sobre a caixa onde estava Neguinha “flutuava” o coelho preto, em outro cubo transparente. Todos pareciam dormir.

Um chiado partiu do lado oposto do lugar e Carolina voltou o olhar para lá. De uma abertura saíram três daquelas criaturas horrendas, enchendo Carolina de pavor. Os seres, semelhantes a lobos ou melhor, lobisomens, pararam em volta da mesa onde seu corpo permanecia inerte. Sobre ela surgiu um holograma com gráficos e caracteres estranhos, que ela pressentiu estarem relacionados a ela de alguma forma.

Sua mente foi tomada por pensamentos estranhos, como uma voz gutural que lhe explicava:
“- Sabemos que sua raça é inteligente e domina esse planeta, criatura. Há séculos, pela vossa contagem de tempo, tentamos estabelecer um meio de unirmos nossa raça à de vocês, mas até hoje todos os experimentos falharam, No passado tentamos implantar embriões geneticamente modificados em fêmeas saudáveis de sua espécie, como você, mas as crias não vingavam ou nasciam híbridos que enlouqueciam e trucidavam os seres de sua raça. Não era o resultado que esperávamos e então desistimos dessas técnicas antiquadas. Depois de longos estudos, optamos por recolher material genético de vocês e controlar a formação dos híbridos em nossos laboratórios.”

Enquanto essa explicação invadia sua mente, Carolina viu um dos lobisomens manusear um objeto cilíndrico sobre seu corpo. Os gráficos do holograma mudavam de cor e se modificavam à medida que o objeto era movimentado lentamente sobre ela. Curiosamente, apesar da aparência grotesca, seus movimentos tinham a destreza de um cirurgião. O ser parou o objeto sobre sua pélvis e ela sentiu um calor envolvendo essa região.

Um deles mantinha os olhos fixos nela, e percebeu que era dele que vinha aquela voz na sua cabeça. O outro se ocupou dos seus animais. A explicação continuou:

“- Pronto. Já recolhemos o que precisamos. Teleportamos alguns óvulos seus para usarmos na criação de novos espécimes, que em breve estarão aptos a viver no seu habitat. Você irá dormir agora e estará bem, de volta ao seu planeta em pouco tempo. Durma.”

Imediatamente seus olhos se fecharam e uma escuridão vazia tomou sua mente.

Carolina acordou suando, deitada em seu sofá-cama. Uma dor fraca incomodava o ventre e a TV estava fora do ar, chiando. Teria sido um pesadelo? Já passava das 22:00hs e seu namorado não havia chegado ainda, então Carolina observou algo estranho: Neguinha, Tempestade, Marcelino e o coelho preto, estavam todos dormindo no sofá-cama também…

Nos meses seguintes, Carolina não teve mais sossego. Passeando pela orla do Lago do Major ou na praça de Atibaia, locais onde antes tinha prazer em ir, sentia-se vigiada e temia que as criaturas surgissem novamente para busca-la. Até que, numa noite de lua cheia, quente como aquela em que teve seu primeiro contato, várias luzes apareceram no céu de Atibaia, causando espanto em toda a cidade. As naves pousaram na praça central e delas desceram diversos híbridos. Assim que viram os primeiros seres, as pessoas fugiram desesperadas, gritando:

-Lobisomem, lobisomem!!! Estão atacando a cidade! Corram!

Uma multidão apavorada passou correndo por Carolina e seu namorado, que quase foram pisoteados pelos fugitivos. Logo atrás deles vinha uma matilha de sombras negras furiosas, urrando e rosnando com suas grandes presas à mostra e olhos chamejantes. Só então Carolina se deu conta que foram híbridos alienígenas como aqueles que deram origem às lendas sobre Lobisomens, e que mais uma vez o experimento dos alienígenas que a abduziram deu errado, criando feras sanguinárias famintas por carne humana.

Se você também quiser ser personagem de um conto, veja como participar clicando aqui.

Anúncios