Mula sem cabeça - Foto: AHistória
Mula sem cabeça – Foto: AHistória

A igrejinha da pequena cidade interiorana encravada no vale e ladeada pela Serra da Mantiqueira, a “serra que chora”, tinha um movimento incomum há três domingos. A missa da manhã, antes frequentada por poucas pessoas, moradores mais idosos e fervorosos fiéis, via-se apinhada de jovens mulheres. A causa era óbvia – o novo padre.

Antônio entrou cedo para o seminário, tendo a forte vocação religiosa incentivada pela mãe e pelo tio, padre da paróquia onde Antônio nasceu e cresceu. O menino que todos chamavam de anjinho se tornou um rapaz de feições másculas, de corpo vigoroso e atlético, desenvolvido nas caminhadas pela serra e no trabalho no campo. Os cabelos castanhos encaracolados e os olhos azuis contribuíam ainda mais para a imagem de galã do moço, por quem muitas meninas suspiravam. Mas ele não tinha olhos para nenhuma delas, seu coração foi arrebatado pela igreja.
Assim que se formou no seminário, foi designado para a cidade vizinha, afim de substituir o padre Timóteo, cuja saúde já não permitia a dedicação que teve por toda vida ao sacerdócio. Então, quando começou a acompanhar o padre nas primeiras missas, foi o comentário da cidade. Ninguém falava abertamente, mas era clara a atração das jovens pelo belo padre que seria o sucessor do sizudo e decrépito Timóteo… Assim a fama do belo Antônio cresceu rapidamente e a igreja enchia a olhos vistos. Ainda mais que, além de belo, o rapaz era carismático! Sorria sempre, nada lhe tirava o bom humor e dava atenção igual a todos que o procuravam.

Naquele domingo, o velho padre estava acamado. O médico havia recomendado repouso absoluto devido à sua abalada saúde, agravada por uma pneumonia e portanto Antônio teria que conduzir os trabalhos eclesiásticos sozinho. Seria sua primeira missa sem a presença do padre Timóteo.

Enquanto seguiam para a entrada da igreja matriz, Silene se gabava com as amigas Ana e Gabriela:
– Ah, mas esse pedaço de mau caminho não me escapa!… Vocês vão ver!
– Você é doida, Silene! – comentou Ana – Querer logo o padre! Tá certo que ele é lindo, uma tentação, mas é homem santo!
– Santo nada! Um rapagão daquele é um desperdício dentro de uma batina! E vai ser meu, ou não me chamo Silene! – afirmou categórica a bela ruiva de olhos verdes e boca sensual, filha de um dos maiores criadores de gado da região.

As jovens se calaram ao se aproximar da aglomeração na escadaria da igreja, onde senhoras de véu e terço na mão se acotovelavam para entrar e conseguir um bom lugar nos bancos. Silene e as amigas foram direto para as primeiras fileiras, bem perto do altar, para admirarem o mais de perto possível a beleza do novo pastor das ovelhas de Deus.

Silene ajeitou a saia discretamente e tirou da bolsa o terço de pérolas que herdou de sua avó. Ao menos ali, devia parecer devota… Mas a blusa um pouco aberta permitia um tanto de sensualidade, delineando bem o colo dos seios, envolvidos por um sutiã violeta de renda.
Durante toda a missa não desviou os olhos de Antônio, que parecia ignorá-la. Na hora da comunhão, ousou um pouco mais: ao receber a hóstia, deixou seus lábios tocarem de leve a mão de Antônio, que não pode evitar de notar a ruiva. Tudo foi tão rápido que ninguém, a não ser ele, notou a lascívia de Silene. Seus olhos se cruzaram e ela sustentou o olhar espantado de Antônio, dando-lhe um leve sorriso sedutor antes de se afastar.

Naquela tarde, depois de um leve repasto, Antônio foi fazer sua caminhada na serra. Se informou do estado do padre com o sacristão da paróquia, selou o cavalo e rumou para fora do povoado. Aos pés da serra deixaria o cavalo e caminharia por algumas horas, voltando a tempo de jantar com padre Timóteo.

Embora procurasse ser um filho exemplar da igreja, Antônio não gostava de ficar o tempo todo de batina, como os padres tradicionais. Com botas, calça de brim e camisa, passaria facilmente por um peão de fazenda, não fosse o colarinho romano e a correntinha de ouro com um pingente crucifixo do mesmo metal, dados pelo tio padre. Antônio mantinha o hábito de caminhar na serra desde a infância, mas naquela tarde sua intenção foi buscar um isolamento. A moça ruiva não lhe saía da cabeça desde o incidente da comunhão. Ele precisava orar e tirar aquela visão tentadora da mente… “Bonita demais, meu Deus…” – pensava ele.

Perto de uma pequena elevação, ouviu um gemido quebrando o silêncio daquela imensidão. Alguém precisava de ajuda. Rapidamente venceu os metros até o topo do terreno e quem ele encontra? Silene, sentada na relva massageando o calcanhar. Quando pensou em se afastar, ela o viu e chamou:
– Padre! Que bom que está aqui! Pode me ajudar?

O terreno da face oposta da elevação era mais íngreme. Antônio precisou descer com cuidado. Ao se abaixar perto da moça para verificar o calcanhar machucado, não pode deixar de sentir o suave perfume dela. Demorou um longo instante observando suas pernas nuas, pois ela vestia um pequeno shorts jeans e camiseta.
– Eu estava passeando por aqui e torci o pé… Preciso que me ajude a chegar até meu cavalo.
– Claro, eu ajudo! – disse Antônio saindo do torpor causado pela proximidade dela.

Ao erguê-la, passando seu braço pela cintura da jovem, que contornou com o braço alvo o pescoço do padre, ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo todo. Silene percebia a excitação do rapaz e não teve dúvidas. O envolveu e beijou apaixonadamente, sem que Antônio conseguisse impedir sua atitude! Desequilibraram-se e caíram na relva macia, ela sobre o corpo dele. Um turbilhão de emoções tomou conta de Antônio e ele se entregou às carícias e beijos de Silene. Furiosamente a sensualidade tomou conta dos dois, que acabaram se amando tendo a imensidão da Mantiqueira como única testemunha do pecado ali perpetrado.

Depois daquela tarde, tornaram-se amantes. Padre Timóteo faleceu poucos dias depois, ficando padre Antônio como responsável pela paróquia. Seus passeios pela serra continuaram, e os encontros com Silene na mata eram frequentes. Não demorou a correr boatos maldosos. Era comum verem o padre passar cavalgando pela estrada poeirenta e pouco depois, a rica filha do fazendeiro enveredar pelo mesmo caminho…
– Lá vai a burrinha do padre… – comentavam alguns ao ver Silene, altiva e séria, passar sobre seu cavalo negro pelas ruas do povoado, rumo à serra. Faziam alusão à lenda da mula sem cabeça, destino das amantes de padres…

Tanto Silene quanto padre Antônio mantinham silêncio sobre os comentários, evitando confronto como o povo da cidade. Mas não se importavam com eles. A paixão dos dois os deixavam cegos e surdos ao que corria em volta, e bastava estarem a sós na mata para arrancarem as roupas e se entregarem ao prazer.

Numa quinta-feira à noite, Silene fitava a lua na varanda da fazenda, que aparecia enorme no céu. Havia sete meses que mantinha seu relacionamento secreto com Antônio. Desejava fugir dali com ele, mas o rapaz não queria largar a batina para assumir o romance. Olhando a lua, Silene sorriu. “Filha da Lua…” – recordou. Seu pai escolheu esse nome porque ela nasceu numa noite de lua que, segundo ele, estava tão linda quanto aquela. Mas Silene não se sentia bem. Algo em seu estômago parecia revirar. Temia estar grávida de Antônio.

Preocupada, foi para o quarto mas não conseguiu dormir. Embora não estivesse tão quente, ela suava em bicas. Todos dormiam na casa. Pela janela do quarto a enorme lua parecia hipnotizar a jovem. Silene foi à cozinha e bebeu um copo d’água, indo depois para o terreiro da casa. O suor não parava. O som dos grilos e o farfalhar das árvores irritavam-na.

Angustiada, caminhou descalça até a porteira e ganhou a estrada, algo dentro dela parecia pedir que corresse e, sem pensar em nada, foi acelerando os passos, acelerando, acelerando… até que se pôs a correr pela estrada! Ao chegar na encruzilhada que dava acesso à cidade, caiu prostrada sobre o chão de terra. Os pés doíam, os joelhos ralaram nos pedriscos e sua cabeleira ruiva caia revolta sobre o rosto. A camisola empapada de suor e poeira parecia pinicar-lhe o corpo todo. Então veio a dor. Fraca no princípio, mas se intensificando rápido, tomando todo o corpo, como se seus ossos estivessem se quebrando. Perdeu o ar e deitou no meio da encruzilhada, sem conseguir gritar. Só aí notou: seus braços e pernas se enchiam de pelos! Os olhos ardiam e ela se contorcia no chão, a dor aumentando. Os pelos aumentando, já cobriam as costas, os ombros e avançavam sobre os seios. As unhas enegreceram e ela crispou as mãos, notando horrorizada que seus dedos se fundiam, as unhas grudavam-se e se transformavam em cascos! Nenhum som saía de sua boca, embora quisesse gritar desesperadamente! Os cabelos pareceram ganhar vida e se eriçaram. Na nuca, uma crina branca se formou e desceu pelas costas, até formar uma cruz invertida de pelos brancos, contrastando com os pelos negros que lhe tomaram todo o corpo. O calor no rosto aumentou e dos olhos e boca saiam labaredas de fogo que lhe consumiam os cabelos.

Quando Silene se ergueu, do pescoço forte e musculoso brotava uma grande tocha de fogo que crepitava como uma fogueira. O corpo se transformara por completo, rasgando a camisola de tecido frágil, mãos e pés se tornaram cascos negros e brilhantes, potentes. Silene não existia mais ali. Uma figura horripilante agitou os cascos dianteiros erguendo o corpo equino, iluminando a encruzilhada com o fogo que ocupava o lugar da cabeça! Só então o som de um lamento longo, lamuriante e tenebroso, quebrou o silêncio da noite. Furiosa, a entidade desatou num galopar nervoso pela estrada em direção à cidade, sem nada deter seu tropel, encerrado apenas às portas da igreja. Lá, a figura insólita da mula sem cabeça emitiu um relinchar pavoroso e alto…

Depois de circundar a igreja como uma tocha ambulante por sete vezes, o monstro disparou pela estrada novamente…
Silene foi encontrada na manhã seguinte inconsciente, nua, com braços e pernas arranhados, os pés em carne viva… Tinha bolhas nas mãos e nos lábios, chorava desesperada e não dizia coisa com coisa… Os sitiantes que a encontraram apenas entenderam o nome de Genaro, conhecido em toda a região por ser muito rico e poderoso. Seu pai foi avisado e foi pessoalmente busca-la, num povoado a quilômetros de distância da fazenda e do vilarejo, sem entender como a filha pode percorrer sete cidadezinhas numa noite…

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