Foto: Paulo Whitaker/Folha Imagem
Foto: Paulo Whitaker/Folha Imagem

Leia primeira parte desse conto clicando aqui.

Gilberto acordou sentindo um formigamento estranho em todo o corpo. Dormira profundamente o sábado inteiro, e já era início da noite quando despertou. A boca estava seca, como quando bebia todas e acordava de ressaca. Levantou do sofá e foi até a geladeira pegar água, mas a vista turvou e sentiu tontura. “Será que a pancada na cabeça, dada por Ícaro, deixou alguma sequela?” – pensou.

Desistiu da água e foi até a sacada do apartamento. Afastou as cortinas que cobriam a porta balcão e olhou para a rua, os sons dos carros chegavam aos seus ouvidos causando um incômodo anormal e, como que por instinto, Gilberto olhou para a calçada do outro lado.
Pessoas passavam ali, umas apressadas, outras calmamente, e parecia que podia ouvir suas vozes, embora não entendesse claramente aquela cacofonia de sons. Então viu o rapaz parado em frente a uma loja de tecidos do outro lado da rua. Era Ícaro, e olhava fixamente para ele. Um arrepio percorreu seu corpo, olhou novamente e o sujeito havia desaparecido. Precisava resolver aquilo de uma vez por todas!

Voltou para dentro do apartamento, fechando a porta de correr da sacada. Antes precisava de um banho e de colocar roupas limpas, mas iria atrás daquele cara esquisito! Já no banheiro, tirou as roupas e jogou no cesto, que já estava cheio. Ligou o chuveiro e deixou a água quente e abundante escorrer pelo corpo, limpando com o suor, os vestígios da noite anterior. Mas enquanto se ensaboava percebeu um ardor logo abaixo da orelha esquerda. Passou a mão ali e notou algo estranho. Com a mão cheia de espuma desembaçou o espelho que ficava no box, usado normalmente para fazer a barba durante o banho. Jogou água e olhou a imagem. O local que ardia tinha duas pequenas marcas, já quase cicatrizadas, mas a pele estava sensível ali ainda. “Diabos!” – pensou – “O que aquele imbecil fez comigo?”. Gilberto desligou o chuveiro e pegou uma toalha limpa na prateleira ao lado do box. Se secou vigorosa e rapidamente. Ainda nu, foi até seu quarto e pegou uma calça jeans surrada, uma camiseta com estampa do álbum “The Wall” do Pink Floyd e vestiu rapidamente. Calçou um par qualquer de tênis, foi até a sala, pegou a carteira sobre a mesa lateral ao lado do sofá e saiu. Tinha certeza de que sabia onde encontrar aquele filho da mãe…

Ao chegar na praça deserta, Gilberto olhou em volta, parado na esquina perto da árvore. Uns dez metros à frente, um vulto saiu detrás de um dos postes, cuja lâmpada estava queimada, criando uma área escura. Era Ícaro. Trajava a mesma roupa, mas os cabelos estavam soltos, oscilando levemente com a brisa da noite que cortava a praça. Ele não moveu um músculo da face, mesmo assim, Gilberto escutou, como se fosse em sua mente:

“- Estava te esperando. Já imaginava que você ia voltar aqui, depois de me ver em frente ao seu prédio”.

Instintivamente, Gilberto pensou:
“- E por que está me perseguindo, cara? O que fez comigo? Que marcas são essas aqui?”

“- Você não me deixou explicar ontem. Escolhi você para ser meu amigo. Não imagina como é solitária a existência de um ser como eu… Nós, vampiros, somos muito poucos hoje em dia.”

Gilberto não acreditava naquilo! – “Vampiro? Que papo doido é esse???” – pensou, avançando na direção de Ícaro, que sumiu diante de seus olhos, assustando Gilberto.

“- Precisava de alguém para compartilhar essa vida… ou não-vida, como preferir…” – a voz vinha de dentro da cabeça de Gilberto, que olhou em volta mas não via Ícaro. – “Mas não dá para simplesmente chegar em uma pessoa e dizer: Oi, prazer! Sou um vampiro e preciso de um amigo! – Acha que alguém iria aceitar?”

“- Então você resolveu me forçar a ser seu amigo, seu filho da puta? Acha que é assim e pronto?”

“- Não, cara… Na verdade você pediu por isso, não lembra?”

“- Como assim?”

“- Ontem. Te atingi aqui na praça e te levei para a casa abandonada onde me escondo do sol. Você seria apenas mais uma vítima, apenas alimento. O lance de te derrubar e levar para lá é por que não dá para me alimentar na rua, pode chegar alguém e daí já viu… Seria complicado…”

Um barulho nos galhos da árvore fez Gilberto se virar. Ícaro saltou até a calçada com a leveza de um pássaro. Olhando Gilberto nos olhos, continuou, agora falando normalmente:

  • Enquanto eu bebia seu sangue, você pediu para viver. Disse que queria ganhar a corrida, que não era justo acabar assim… Isso mexeu comigo. Antes de ser vampiro tive muitos sonhos, que foram tolhidos, roubados de mim. Eu já havia bebido muito sangue de você, o único jeito de consertar as coisas era esse… Te transformar num ente da noite, como eu. Vou te treinar, para você aprender a controlar seus novos reflexos, mas já pode perceber que a corrida está garantida. Com nossa velocidade, não existe humano que tenha chance de ganhar…

Nesse momento, os olhos de Gilberto brilharam. Ele se viu realizando seu sonho, os flashes das câmeras espocando ao redor e ele rompendo a faixa da linha de chegada em frente ao edifício Cásper Líbero na Paulista, após completar os 12,6 km do percurso…
Conversaram então por longas horas naquela noite de sábado e, no fim Gilberto descobriu que Ícaro até poderia ser um bom amigo… Na segunda pela manhã ele ligou para o escritório e pediu demissão.

Na noite de 31 de Dezembro de 1985, às 23:58, o desconhecido Gilberto Santos realizava seu sonho, completando a São Silvestre com a incrível marca de 21min32seg92! Com a medalha de ouro sobre o peito, abraçou seu amigo, um rapaz de cabelos longos que esperava perto da linha da chegada.

Nota do autor: Em 1985, o vencedor da São Silvestre foi o pernambucano José João da Silva, com o tempo de 36min48s96. Poucos anos depois, em 1989, a São Silvestre deixou de ser uma corrida noturna.

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