Foto: Paulo Whitaker/Folha Imagem
Foto: Paulo Whitaker/Folha Imagem

Gilberto acordou com uma enorme dor de cabeça, num quarto escuro cheirando a mofo. – “Como vim parar aqui?” – pensou. Tentou se mover e percebeu que estava amarrado. Pés e mãos atados por algum tipo de tecido macio mas resistente. O mesmo tecido cobria sua boca numa mordaça. Bem pouca luz entrava por algumas frestas na janela, não o suficiente para enxergar com clareza, mas com a visão se acostumando dava para divisar os vultos da pouca mobília ali: uma cadeira no canto oposto, um armário de formato antigo, com uma porta faltando… Percebeu que estava sobre um colchão velho no chão, podia sentir o tecido áspero rasgado e a espuma. Além do mofo, outro cheiro ruim era percebido, mas não pode identificar o que era. A cabeça latejava e ele começou a suar, preocupado com sua situação. As lembranças da noite anterior voltavam…

Como todas as noites, Gilberto chegou do escritório e afrouxou a gravata ainda antes de abrir a porta do seu apartamento. Depois de trancar a porta por dentro, jogou a valise sobre o sofá e foi desabotoando a camisa até o quarto, onde terminou de se despir e procurou nas gavetas da cômoda algo mais confortável: uma bermuda e uma camiseta esportivas. O tênis estava ao lado cama e o seu walkman WM-F2 (presente do seu amigo nissei Massao, quando voltara do Japão no final do ano anterior) sobre o criado mudo. Pronto. O Gilberto-funcionário-da-contabilidade dava lugar ao Gilberto-corredor-amador, que se preparava para ganhar a São Silvestre no fim do ano. A famosa disputa estava distante ainda, mas ele queria muito ganhar! Para isso precisava treinar arduamente, mas só depois do expediente podia correr… Ele fazia isso nas ruas do bairro mesmo e quando podia, no Parque da Luz ou no Ibirapuera, sempre ouvindo rock pesado, alheio a tudo ao redor. O dia foi bem estressante, seu chefe pediu que ele ficasse na extra para terminar uns relatórios importantes, mas ele não via a hora de sair da empresa e correr livre. Então, mesmo chegando tarde, foi para seu treino de maratonista que quer ouro no peito…

O lugar estava quase totalmente escuro agora, exceto por uma fresta de luz sob a porta. A posição dos braços incomodava e Gilberto gemeu, tentando se ajeitar como podia naquele colchão cheio de pó e sabe-se lá mais o que. Quem o amarrou fez um bom serviço. Além dos punhos firmemente atados às costas, o tecido ia até seus pés e prendia-os numa posição que não permitia estender as pernas ou tentar se levantar. Uma sombra passou pela fresta na porta, devia ter… devia não! Tinha alguém do outro lado! Quem quer que fosse, ouviu o gemido de Gilberto e foi até a porta. Duas sombras formadas pelos pés do sujeito cortavam o risco de luz, indicando sua posição. Gilberto não piscava o olho enquanto o som da maçaneta e depois o resmungo das dobradiças se fez ouvir. Uma silhueta magra de alguém com cabelos amarrados, vestindo algo que parecia uma camiseta de malha e calça jeans, apareceu na porta.

  • Tudo bem com você? – uma voz melodiosa perguntou, com tanta naturalidade como se o homem amordaçado no fundo do quarto pudesse responder que sim. – Gilberto gemeu um pouco mais alto.

Não havia luz suficiente ali para Gilberto ver o rosto da pessoa, a voz não permitiu identificar se era homem ou mulher que se aproximou e agachou perto dele, e Gilberto não sentiu medo. Uma mão fria tocou seu rosto levemente. Novas lembranças vieram à tona…

Não muito longe do prédio Gilberto passou por uma praça deserta. Corria compassado, a respiração controlada pelo seu ritmo trotante e pela música potente tocando nos fones, tinha o rosto já banhado em suor, que escorria pelo pescoço e ensopava o tecido da camiseta. Noite quente. Concentrado na sua atividade, ele não percebeu o vulto se escondendo atrás do tronco de um antigo ipê.
Contornou a praça, enquanto olhos o seguiam silenciosamente. Quando estava passando novamente pela velha árvore, algo o atingiu violentamente por trás da cabeça! A queda foi inevitável, o walkman se soltou da faixa presa em seu braço e se espatifou um pouco à frente na calçada, com a fita cassete foi expelida do compartimento e girou pela calçada até a sarjeta. Sentiu o joelho e o cotovelo esquerdo arderem, resultado do impacto no concreto, e então apagou. Acordou só bem depois, já amarrado naquele quarto fedorento!

  • Desculpe pelo seu brinquedo. Acho que estragou de vez. – disse a voz se referindo ao WM-F2 de Gilberto, cujos pedaços estavam sobre a cadeira no quarto. – Vou tirar esse pano da sua boca, mas não grita, cara, senão teremos problemas aqui. Promete?
    Gilberto ficou olhando para a silhueta e concordou com a cabeça, que ainda latejava.
  • Meu nome é Ícaro. – disse o rapaz, enquanto soltava a mordaça de Gilberto. – E o seu?
    Foi um alívio a retirada da mordaça, o atrito com o tecido deixara os cantos da boca de Gilberto feridos e ele passou a língua para umedecer os lábios.

  • Gilberto. Porque me prendeu aqui? – respondeu.

  • Só me escuta. Depois desamarro você…

Ícaro se sentou sobre as pernas, cruzando-as no chão do quarto e começou a contar sua história.

  • Ontem eu estava lá observando a praça, quando você apareceu. Como todas as noites, saio para caçar e fui até aquela praça dessa vez. Me escondi entre as arvores enquanto você se aproximava. O único jeito de te abordar foi te atacando primeiro.
  • Não tô entendendo nada, cara… – falou Gilberto. – Que papo doido é esse? Me solta, vai! E se você é algum tipo de pervertido, nem tenta nada comigo que não rola, cara!

  • Gilberto tentou girar os punhos mas as amarras não permitiam que ele se soltasse. Ícaro riu, se divertindo com o desespero de Gilberto.

    • Quanto a isso fique tranquilo, cara… Não é o que você pensou. Se fosse, já teria acontecido, pois você está desacordado há um bom tempo. Posso te chamar de Gilberto? Só quero conversar um pouco…
  • Jeito estranho de fazer amizade, cara! Me solta logo e vamos acabar com isso!

  • Vou te soltar sim, mas preciso que me escute.

  • Então me solta. – disse Gilberto, fingindo estar mais calmo. Aquele doido ia ver uma coisa, assim que seus braços estivessem livres…
    Ícaro pacientemente se curvou sobre as pernas de Gilberto e alcançou o nó em seus calcanhares, desatando de forma ágil o tecido. Gilberto esticou as pernas.

  • Vire-se. Vou soltar suas mãos.

  • Assim que Gilberto sentiu os punhos soltos, puxou o tecido e enrolou no pescoço de Ícaro, que o feriu com as unhas. Mas Gilberto era bastante forte e conseguiu derrubar o oponente no chão, saindo quase num salto pela porta aberta do cômodo. Passou por uma mesa empoeirada e chutou a porta seguinte que cedeu facilmente. Alcançando a rua, desatou a correr sem olhar para trás. Num bolso oculto da bermuda ele sempre levava algum dinheiro e, por sorte, o tal do Ícaro não o encontrou. Não podia precisar as horas, mas ainda era noite. Gilberto percebeu que o maluco não o seguia e se acalmou um pouco. Caminhou pelas ruas desertas daquele bairro de periferia e se sentou no banco de um ponto de ônibus, arfando. Os pulmões ardiam bastante e por sorte, um coletivo apareceu virando a esquina, com faróis altos que incomodaram os olhos de Gilberto. Mas era sua salvação! O itinerário indicava um lugar conhecido, perto do bairro de Gilberto. Somente dentro do ônibus que ele se aquietou e fechou os olhos, relaxando o corpo ao balanço do veículo.

    Chegando em casa, Gilberto nem se preocupou com banho, embora precisasse de um. Se jogou no sofá, pensando naquele cara maluco. O sujeito não levou suas chaves, seu dinheiro, nada… O único prejuízo foi o walkman quebrado… – Então ele adormeceu de cansaço, afinal já era sábado mesmo…

    CONTINUA…

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