“Existem muitos demônios à solta no mundo, e às vezes dentro de nós mesmos…”
Vaidade

“Existem muitos demônios à solta no mundo, e às vezes dentro de nós mesmos… Será que um dia vou conseguir exorcizar os meus?” – Refletia Janaína, a detetive responsável pela investigação dos homicídios atribuídos ao “Monstro da Beleza”, um psicopata ainda não identificado e que vinha atuando na grande São Paulo há meses… Seria o grande caso de sua vida, uma promoção garantida se solucionasse os crimes e capturasse o culpado. Mas ela estava muito longe de encontrar um desfecho para aquela atrocidade, cujas vítimas se acumulavam mês a mês. Ela recolocou pela enésima vez atrás da orelha uma mecha do seu cabelo liso e castanho que insistia em cair a frente dos olhos, e virou mais uma vez também outra página do processo em sua mesa. As fotos das garotas sem rosto sempre impressionavam muito, lhe dando calafrios ao pensar o quanto cada uma delas deve ter sofrido ao ter o rosto literalmente arrancado com as jovens ainda vivas! – Pelo menos o legista deduziu que deveriam estar vivas durante o processo. A detetive Janaína teve muitos pesadelos com isso quando começou a trabalhar naquele caso…

Laura acabara de sair do banho e se preparava para sair com Gustavo, que não demoraria a chegar, pois confirmara minutos antes pelo celular que estava saindo de casa para busca-la. Finalmente teria a noite ansiosamente esperada com aquele homem. Antes, fizera de tudo para que sua amiga Fátima terminasse com ele: intrigas, comentários maldosos, minando sutilmente a confiança da amiga no namorado. Por outro lado, se insinuava para ele. Todo o seu esforço fora compensado… Depois de muitas brigas, os dois terminaram e Gustavo ficou livre para suas investidas. A coitada da Fátima nem suspeitou que Laura “mexeu os pauzinhos” para seu namoro chegar ao fim. Afinal, como podia uma desajeitada feito a Fátima ficar com um deus grego como Gustavo? Nua em frente ao espelho, a triunfante Laura se produzia para seduzir. Lábios carnudos destacados por um batom metalizado e brilho, sombra discreta… Não precisava usar cílios postiços, seus olhos verdes eram magnificamente emoldurados por longos cílios que a natureza lhe presenteou, assim como os cabelos louros anelados e o rosto de contorno suave. Podia ter seguido carreira de modelo, mas não quis. O vestido curto e justo, cor de vinho estava sobre a cama, sobre ele a lingerie rendada quase no mesmo tom, que exibiria para o Gustavo. Pelo espelho ela percebeu um brilho fugaz do outro lado da cama, num canto escuro do quarto.

Janaína fechou o grosso calhamaço do processo e bufou. A investigação não movera um milímetro. Nenhuma prova em nenhum dos homicídios verificados. Os peritos vasculharam cada cena de crime com precisão, mas nenhuma digital, nenhum fio de cabelo, amostra de pele sob as unhas… Nenhuma droga de evidência fora encontrada! Apenas os corpos, sempre belos, esculturais… mas sem rosto, que fora removido cirurgicamente de maneira doentiamente precisa! O desgraçado do psicopata que fazia aquilo tinha de ter formação superior em cirurgia plástica, só pode! A imprensa já cobrava resultados do D.H.P.P. e Janaína não tinha mais forças para insistir com seus superiores para continuar no caso.

O que era aquilo? Assustada, Laura se voltou e aquele brilho faiscava no ar entre a cama e a parede, como se uma daquelas velinhas de bolo de aniversário estivesse pendurada ali, de ponta cabeça. Repentinamente o brilho se intensificou e algo negro surgiu em seu interior, crescendo rapidamente! Muda e paralisada de medo Laura se encostou na cômoda, esbarrando no frasco de perfume, que foi ao chão e se esfacelou espalhando a fragrância pelo cômodo. Instintivamente ela baixou os olhos na direção dos cacos no chão, mas aquela coisa se abrira rápido demais e uma silhueta apareceu. Olhos vermelhos olharam para ela, brilhantes, um sorriso se abriu pouco abaixo deles revelando dentes pontiagudos como pontas de flechas. Laura queria correr ou gritar, mas a voz não saía e seus membros não reagiam. Aquele ser vinha lentamente em sua direção, parecendo que a pouca distância entre eles fosse imensa. Silêncio absoluto no quarto. Aquela sombra se aproximou de seu rosto e a analisou, os olhos vermelhos se movendo nervosos. Uma mão negra, absolutamente negra, segurou o queixo de Laura. Aquelas coisas também negras nas pontas dos dedos não eram unhas, nem garras… Pareciam adagas finas, stilettos. Grandes demais para serem unhas, pequenas para serem punhais, mas mortais. A criatura não disse nada, não piscou, apenas encostou uma unha em sua testa, bem sobre a linha dos cabelos. Pelos espaços entre os dedos dela Laura continuava a ver aqueles olhos vermelhos e os dentes de flechas num sorriso macabro. Não sentiu dor, mas sentiu uma daquelas unhas contornar seu rosto e algo escorrer pela face, provavelmente seu sangue. Contornava delicadamente, sem parar. Passou rente pela orelha direita da jovem, desceu desenhando o maxilar. A mão girava e agora subia pelo outro lado. Uma das unhas quase se enroscou no brinco de Laura mas a criatura habilmente se livrou do obstáculo, até que parou sobre o mesmo ponto na testa de Laura. Então a criatura a envolveu num abraço, girando seu corpo e forçando-a a se virar para o espelho. Mesmo paralisada, Laura se encheu de horror! Seu rosto estava banhado em sangue, que escorria pelo pescoço e pelos seios. Então a voz da criatura se fez ouvir dentro de sua cabeça, como se fosse um pensamento de outra pessoa que ela pudesse ouvir, pois o ser não movia a boca.

“Sou o demônio da vaidade, mulher. Me alimento da beleza exterior daqueles que não possuem nada de bom dentro de si, embora tenham tido a afortunada sorte de serem belos. Hoje vou devorar sua alma imunda e distorcida, sem valor, mas deixo seu corpo como um recado para os mortais, para que saibam que sua beleza não pode te salvar da danação.” – Então a criatura começou a retirar a pele. Tudo escureceu e Laura apagou para sempre.

Janaína apagou a luz da sala e seguiu pelo corredor de divisórias ainda pensando frustrada que nunca iria solucionar o caso do “Monstro da Beleza”, quando o seu celular tocou. Ela o retirou da bolsa e olhou a tela: era seu irmão Gustavo. Sorrindo, atendeu:
– Fala meu irmãozinho querido? Ligou prá quê?
– Socorro, Jana! – disse a voz transtornada de Gustavo. – Vem já aqui, pelo amor de Deus! – ouvindo isso o sorriso sumiu do rosto da detetive Janaína.
– Onde você está?
Gustavo passou o endereço de Laura e Janaína nem perguntou o que aconteceu, desligou e correu para o estacionamento enquanto chamava reforço pelo Nextel que sempre mantinha preso à cintura, para uso exclusivo em serviço.

Quando chegou no endereço indicado pelo irmão, Janaína o encontrou chorando no banco de uma das viaturas que já estavam lá, vigiado por um dos policiais. Felizmente ele parecia fisicamente bem, mas o rosto mostrava o desespero. Ela se identificou estendendo o distintivo e foi até seu irmão, se ajoelhando ao lado dele. Os policiais mantinham os curiosos longe do perímetro e uma ambulância dos bombeiros estacionou logo em seguida, aumentando os flashes de luz vermelhas e azuis dos giroflex das viaturas.
– Jana! Que bom que você tá aqui!
– Que aconteceu, Gustavo? Fala!
– Eu marquei de pegar a Laura aqui, na casa dela, para sair… – Gustavo fungou e limpou o rosto com a manga da camisa.
– Que Laura? Quem é ela? – perguntou Janaína, tentando esconder o nervosismo para não piorar o estado do irmão.
– É uma garota com quem eu ia sair… Quando cheguei, toquei a campainha mas ela não atendeu, então eu entrei. Ela tinha dito que a porta estaria aberta e que eu podia entrar… Mas a casa estava silenciosa demais. Eu chamei o nome dela e ela não respondeu, então fui entrando, procurando… Vi uma luz acesa num dos quartos e fui lá. – Gustavo baixou os olhos e soluçou. – Meu Deus! Que horror… – murmurou.
– Fala Gustavo! Me conta tudo!
– Quando olhei dentro do quarto ela estava caída no chão, numa poça de sangue, pelada! Mas tinha mais alguém. Algo… Sei lá! – passando a mão no rosto Gustavo suspirou e olhou nos olhos de Janaína. – Aquilo não podia ser humano, Jana… Um cara todo preto, com olhos vermelhos, muito vermelhos!!! Não sei explicar, mas não era desse mundo! Não era uma roupa preta, a pele daquilo era toda preta, que nem petróleo! E ele segurava algo na mão. Parecia uma máscara ensanguentada. Aí ele olhou para mim e desapareceu na minha frente, como se nunca tivesse existido!

Os médicos saíram da casa com uma maca, sobre ela um saco preto com o corpo de Laura.
Janaína abraçou Gustavo e olhou para a casa, certa de que o irmão não mentira, mas sem entender direito aquilo… Finalmente tinha uma pista de quem ou o que era o “Monstro da Beleza”?

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