Noite-Fria

Uma madrugada um tanto fria para o primeiro dia do ano, com poucas pessoas circulando nas ruas de São Paulo e uma névoa fina envolvendo toda a cidade. Ana caminhava apressada e nervosa… Ouvia o som ritmado de seus saltos batendo no calçamento, na maior parte do tempo este era o único som que ouvia, quebrado apenas pelo ronco de um ou outro carro que seguia pela avenida vazia. Nem parecia a metrópole efervescente na qual durante o dia a fumaça dos escapamentos irritava os olhos, o burburinho da multidão, dos camelôs, de toda a mistura insana de sons dava até dor de cabeça… Parecia uma cidade fantasma naquela hora tardia. Então ela ouviu uma risada e se assustou.

Um casal bêbado dobrou a esquina à sua frente. Era a mulher que ria, provavelmente de algo engraçado ou sacana que o homem que a amparava disse em seu ouvido. O ar escapou de seus pulmões numa pequena nuvem morna e ela retomou o ritmo apressado. Quando passou por eles o sujeito a olhou com um sorriso safado e voltou a beijar a orelha da companheira. Ana desviou os olhos.

Estava andando àquela hora sozinha, louca para chegar em casa, por culpa de Arnaldo, seu namorado… Bom, seu ex-namorado então. A risadinha nervosa da mulher foi ouvida novamente, já meio longe. Ela que fizesse bom proveito de seu cafajeste, pensou Ana, pois o dela, Arnaldo, era passado agora. Horas mais cedo ele a buscou em seu apartamento e foram para um barzinho novo namorar. Lá Arnaldo se engraçou com uma das garçonetes, que pelo visto já o conhecia. Safado! Brigaram feio, ela atirou bebida no rosto dele e saiu do bar. Não importava que estava tão tarde, o bar não era tão longe de seu prédio, dava para voltar a pé…

Absorta em seus pensamentos e frustração, Ana não percebeu o homem de terno e sobretudo parado na outra calçada, mas ele a acompanhava com o olhar desde que ela apareceu no início da rua. Ele estava sob uma árvore, meio escondido nas sombras, é verdade.
Ana empalideceu de susto ao ouvir sua voz grave, embora suave, tão perto às suas costas. Nem teve tempo de reagir, ele a puxou pelo braço e a arrastou para o beco próximo, tapando sua boca com mãos enluvadas. O cheiro do couro das luvas dele lhe deu um pouco de náusea, que se agravou ao sentir seu hálito fétido próximo do seu cabelo curto e negro, que ela cuidava tão bem com excelentes e perfumados shampoos…

Se ele a tivesse atacado um minuto depois, menos que isso talvez, seria flagrado pelo carro que passou veloz pela rua assim que se ocultaram nas sombras do beco. Mas ele era experiente no que fazia, um predador na noite… Empurrou Ana para o fundo do beco, arrancando rudemente o casaco que ela usava. Ela tropeçou em uns sacos de lixo e foi forçada a se deitar sobre um cobertor sujo que ele provavelmente já deixara preparado no local. Aceitando docilmente os comandos daquele brutamontes, a jovem não emitiu nenhum grito.

O monstro sorriu, entendendo que o choque deixara a garota sem reação. Na cabeça dele passou o pensamento de que a vagabunda devia estar gostando daquilo, talvez até fantasiasse ser dominada por um desconhecido… Melhor assim. Teria mais prazer em possuí-la e matá-la estrangulada como fazia sempre com suas vítimas.

Quando se deitou sobre ela, Ana enlaçou as pernas em volta de seu corpo e passou as unhas sobre o tecido grosso do seu sobretudo, dando uma sensação gostosa ao homem. Ela realmente estava gostando, a safada… Ela cravou com tanta vontade as unhas em suas costas que ele sentiu umas pontadas, um pouco de dor; mas já era tarde. Foi quando percebeu algo errado. As unhas dela não podiam ter atravessado o tecido!

Ana então apertou as pernas ao redor da cintura do estuprador e mostrou a ele sua verdadeira natureza, que horrorizado apenas viu de relance os dentes afiados por um breve momento, antes que ela os enterrasse em seu pescoço com tanta gana que ele nem teve tempo de gritar. Ela somente afrouxou o enlace mortal ao sentir que ele não se debatia mais e seu peso estava inerte sobre ela. Sorveu até a última gota do sangue e empurrou para o lado sua vítima, com a traqueia aberta num arremedo de uma segunda boca. Alisou suas roupas, bateu a poeira e ajeitou o cabelo curto, prático para arrumar após uma refeição como aquela. Pegou do chão a pequena bolsa e retirou de dentro um lenço descartável e o pequeno espelho; precisava sair dali rápido mas apresentável, afinal…

Realmente não daria certo o namoro com Arnaldo… Ele sempre reclamava que só podia encontrar com Ana à noite, não entendia porque ela não o recebia em seu apartamento durante o dia, mesmo aos fins de semana… Melhor para ele ficar com a garçonete mesmo, tão humana como ele…

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